Sempre fico muito contente ao conhecer alguém que não ache estranho um homem de quarenta e poucos anos “ainda” ler gibi. Não que as pessoas falem sobre isso abertamente, afinal ninguém quer ser indelicado, mas as perguntas e olhares deixam claro o quanto o fato parece surpreendente para elas.

Quem não estranha, normalmente conhece alguém próximo que curte ou curtiu quadrinhos por muito tempo, como um irmão, primo ou amigo. Foi assim com um professor colega meu, o irmão dele curtiu gibi por muito tempo antes de se desinteressar – e ele sempre disse que iria me passar alguns exemplares restantes da coleção do irmão.

Como homem de palavra,ele me passou alguns exemplares em formatinho – como eu estava indo para uma aula, coloquei o presente na mochila para ver com calma quando chegasse em casa. No aconchego do lar olhei tranquilamente as revistinhas e havia de tudo:  Os Novos Titãs, Heróis da TV,  Batmam, Homem Aranha, Superaventuras Marvel e Justice nº 1.

Quando toquei a capa desta última revistinha, a sala foi preenchida por uma intensa luz branca. Eu estava na banca da estação rodoviária, em algum dia de agosto ou setembro de 1987, pagando Cz$ 18,00 (dezoito cruzados), pelo primeiro exemplar de um título do Novo Universo Marvel.

O EVENTO BRANCO

Eu havia acompanhado em quase todos os títulos de super-heróis da editora Abril as propagandas sobre o Novo Universo e já sabia que uma anomalia chamada Evento Branco, onde uma forte luz banca iluminara o mundo, havia conferido capacidades sobre-humanas a algumas pessoas.  Depois de meses de espera, o primeiro número de uma revista deste novo universo finalmente  estava em minhas mãos e eu não ia esperar mais.

Sentei ali mesmo em um dos bancos da rodoviária e comecei a ler Justice nº 1, onde o texto de apresentação assinado pelo editor Sérgio Figueiredo deixava claro que naquelas páginas “o absurdo e o fantástico convivem harmoniosamente com o corriqueiro e o cotidiano”.

De cara, no primeiro quadrinho da primeira história, havia algo realmente inusitado: o corpo de uma senhora largado em uma calçada, com sangue escorrer pelo meio-fio e os viciados que haviam cometido aquele crime fugindo com os pertences roubados – violência explícita como não se via no Universo Marvel. Era a história de Justice, personagem que dava título à revista, uma espécie de Juiz Dredd extra dimensional capaz de ver as auras das pessoas, julgá-las a partir desta visão e executar a sentença – muitas vezes de morte.

Com a mão esquerda, Justice manipulava um escudo de energia e com a direita uma “espada” que nem de longe lembrara armas jedis, era mais um raio que poderia transformar uma pessoa em pó. A maioria das aventuras dele giraram em torno de questões com as drogas e sua adaptação ao universo no qual ele havia sido arremessado pelo Evento Branco.

Na seqüência havia uma história de MERC – O Cão de Guerra.  Um mercenário sem super-poderes, mas durão como O Justiceiro e que vendia sua experiência em combate a quem pagasse melhor, desde que fosse pra fazer a coisa certa. Ele também tinha uma ex-mulher e um filho com o qual queria se acertar.

Fechando a edição, PN7 me contou a história de sete pessoas diretamente afetadas pelo Evento Branco. Cada uma havia adquirido uma capacidade sobre humana, normalmente de acordo com sua personalidade. Os sete fugiam juntos da clínica na qual haviam sido presos para servir de cobaia e tentavam ajustar suas vidas às novas capacidades e limitações que estas capacidades impunham.

Ao concluir a leitura da última página da revista, a forte luz branca me envolveu novamente e os bancos da estação rodoviária deram lugar ao sofá de minha sala. Eu havia voltado ao aconchego do meu lar no século XXI, mas minha cabeça ainda devaneava pelas histórias daquele universo que conheci na década de 80 do século passado. Um universo onde as capas das revistas traziam uma moldura negra para diferenciá-las das revistas do “velho universo”.

O QUE FOI O NOVO UNIVERSO

O Novo Universo foi criado pela Marvel para concorrer diretamente com a Crise nas Infinitas Terras, da DC Comics , e seus efeitos sobre o mercado. A concorrente da Marvel havia obtido um enorme sucesso com a Crise e estava reformulando todos os seus títulos como conseqüência dela – aumentando consideravelmente suas vendas.

Jim Shooter, na época editor-chefe da Marvel, pensou em criar um universo bem próximo do que era o mundo nos anos 80, mas com pessoas super poderosas. Nada de mutantes, deuses do trovão e muito menos aranhas radioativas – apenas pessoas com capacidades paranormais, alguma habilidade extraordinária ou tecnologia à frente de seu tempo. Além disso, a violência, a intolerância, o cenário e as atitudes dos personagens eram bem amais próximas das do “universo real”.

Mensalmente, nas páginas das revistas Justice e Força PSI, acompanhávamos as aventuras de MERC, Justice, PN 7, Máscara Noturna, Trovão, Os Torpedos e Estigma – A Marca da Estrela. Máscara Noturna tinha o poder de entrar nos sonhos das pessoas, Trovão é o nome de uma armadura de alta tecnologia, Os Torpedos são uma equipe de ex-jogadores de futebol americano que ganham super poderes no Evento Branco e Estigma contava a história de um cara comum que ganhou um artefato super poderoso (uma espécie de tatuagem) de um alienígena moribundo.

Se você vê semelhanças entre os personagens do Novo Universo e os do “velho universo”, isto pode não ser mera coincidência. Aliás, se você vê semelhanças entre os personagens do Novo Universo e algum personagem de outra editora… Bem, isso também pode não ser mera coincidência!

MERC, PN 7 e Trovão foram considerados cópias de O Justiciero, Os X-Men e Homem de Ferro, todos da própria Marvel. Estigma foi acusado de ser cópia do Lanterna Verde da DC e Justice de copiar Juiz Dredd, da 2000 AD. Talvez tenham sido cópias mesmo, mas não posso deixar de pensar que se a Marvel tivesse investido mais seriamente em roteiristas à altura do complexo desafio de construir este novo universo, talvez a história tivesse tido um final mais feliz.

Com as baixas vendas, a Marvel encerrou o Novo Universo em 1989 e posteriormente publicou o especial The War para fechar as pontas que ficaram soltas. John Byrne, que havia sido escolhido para trabalhar com Estigma como forma de elevar as vendas, concluiu a história do personagem – que aqui foi publicada até o fim na revista Superaventuras Marvel. Claro que no Brasil a editora Abril não publicou The War e nem se preocupou em dar explicações pela interrupção dos títulos Justice e Força Psi, afinal os tempos eram outros.

UM UNIVERSO QUE MORREU, MAS DEIXOU MARCAS

Alguns elementos e idéias apresentados no Novo Universo foram introduzidos no universo Marvel regular, como o líder inescrupuloso do PN 7 (Charles Xavier em Ultimate X-Men) e uma armadura “tecnologicamente viável” (como a de Ultimate Homem de Ferro). Além disso, Máscara Noturna saltitava entre os sonhos alheios bem antes do Sandman de Neil Gaiman.

Em 2006, como comemoração pelos 25 anos de lançamento do Novo Universo, a Marvel relançou algumas histórias clássicas e convidou o aclamado roteirista Warren Ellis para recriar alguns de seus personagens.  Mas aparentemente a festa não foi tão animada quanto a editora esperava.

Da mesma forma que copiou, o Novo Universo claramente copiado – só que algumas décadas depois.  A premissa de um clarão ao redor do mundo dar capacidades extraordinárias a pessoas comuns, que passam a ter que conviver com super poderes nem sempre bem-vindos, lhe é peculiar? A frase “salve a líder de torcida, salve o mundo” te lembra algo? E se eu disser Heroes (a série de TV)?

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.