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► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

 

homemgrilo2Sou moradora de São Miguel, no extremo leste da capital paulista, e, como todo o bairro que se preze, tem aquela vendinha, lojas com produtos ‘Xing-Ling’, padaria, bar com sinuca e karaokê. É legal quando nos sentimos no lugar onde vivemos, mesmo sem estar lá. É se ver em cada esquina e vizinhança, sem portar de um ‘bairrismo’ piegas.

Quando li “Homem-Grilo & Sideralman nº1” (Petisco), com roteiros de Cadu Simões, autor de Homem-Grilo, e desenhos por Will, criador de Sideralman, que na edição traçou a abertura, foi como S. Miguel pulasse para a HQ, que fala de um crossover dos dois heróis na fictícia (só que não) Osasco City.

Em “Sem Violência”, Homem-Grilo é aprisionado por Homem-Barata em uma armadilha mortífera. Mas HG sai do banheiro, com direito a papel higiênico grudado na sola do sapato, e vê um bilhetinho na geladeira em que seu arqui-inimigo avisa a ida ao mercado. Sem ‘escolha’, HG cai fora e dá de cara na ponte de Osasco City com Sideralman. E ambos unem forças contra Dr. Louva-Deus e Prof. Cérebro.

Mas o que seria mais uma história com tiradas sangrentas, nossos heróis têm a grande ideia de resolver as diferenças com os inimigos na mesa do Bar Simões, discutindo filosofia de boteco regada a bebidas e petiscos.

Já em “Cricket Rider – Sem necessidade de defensores”, versão tokusatsu de Homem-Grilo, desenhada por Alexandre Coelho, Takashi precisa salvar a cidade das garras de um monstro em forma de barata (por que será, hein?). Detalhe, nosso herói nada mais é que um motoboy da Pizzaria do Chinezinho, que não é chinês. E nas lojinhas do bairro invadido pelo monstrengo têm roupas por ’10 conto’.

Melhor ainda é rir com o baratão ‘zoando’ com Cricket Rider, chamando-o de ‘Zé’ e este, por sua vez, compra uma bazuca “Detonator 3000”. Quem adquire a bazuca ganhava a série completa de Changeman, daí faço um adendo: espero que as organizações Mu & Amba façam uma oferta com episódios do Jaspion, pois me lembram de uma passagem bem engraçada de minha infância.

Fui com meus pais e meu irmão a uma feira de utilidades domésticas e haveria um show do Jaspion, mas era preciso ter um adesivo para ingressar. Quando meu irmão o encontrou no corredor do evento, ficou tão contente que cutucou as costas e simplesmente desmontou a parte de baixo da fantasia. Parece brincadeira, mas o Jaspion de São Paulo entregou a cartela de adesivos para nós e saiu correndo com as calças nas mãos.

Sabe, leitor, é bom mesmo quando vemos nossas histórias em Quadrinhos, melhor ainda quando é 100% brasileira, com personagens tão divertidos e falhos como todos que encontramos por aí. Confessa, vai, quem nunca teve um papel higiênico grudado no sapato, ajudou uma pessoa a atravessar a rua e depois foi pagar as contas, ficou imaginando a “hora de transmorfar” de seu personagem favorito saísse em vez que sair um robô, uma Sailor Moon?

É bom refletir nas tiras de Samuel Bono, criador de Bucha, que as pessoas, ultimamente, não estão mais sabendo quem é bom ou ruim, que tudo não é preto e branco. Mas que no meio do cinza encontramos vívidas cores.

Afinal, como diria Cadu Simões: “O amor pode não resolver tudo, mas o ódio e a violência não resolvem nada”.

E isso não é só “prosa de butiquim”.

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...