Por Guido Moraes*

 

 

Tão fascinante quanto os heróis são os vilões. Quanto melhor forem os seus antagônicos, mais interessante se torna um personagem, pois precisamos de um conflito de ideias entre eles para admirá-los.  Por isso, o Batman tem muito a agradecer ao Coringa, Duas Caras, Pinguim, Charada e tantos outros. Seria muito menos interessante e menos complexo se o homem-morcego não enfrentasse gente tão estranha quanto ele.

Por outro lado, uma história onde o protagonista é um vilão funciona diferente. Os fora-da-lei podem ser interessantes por si só, pois suas idéias são contrárias as do leitor, que muitas vezes funciona como o real adversário do vilão. E quando bem trabalhado, o personagem torna-se cativante ao ponto de confundir a cabeça, transitando entre o bom e o mau dentro do nosso pensar.

O ponto onde quero chegar é que admiro Vito Corleone (O poderoso chefão) e Tony Montana (Scarface). São personagens muito interessantes, cujas soluções para os clímaces de suas histórias são de se admirar. Para mim são heróis que ocupam outro espaço, bem longe dos heróis tradicionais. Suas histórias são gostosas de viver na imaginação, representam algo que gostaríamos de ser, se não fossemos nós mesmos, assim como heróis dentro da lei. Aí é que está o ponto, tenho claro para mim que não gostaria de mudar de vida para ser como eles, mas que na minha imaginação eu posso e quero.

Bom, tudo isso para dizer que Mark Millar, roteirista escocês que mais vendeu quadrinhos nos EUA nesta década, trabalha muito bem com essas dúvidas. Em um de seus títulos mais famosos, "Procurado" (Wanted) – que inclusive ganhou adaptação nada fiel para o cinema -, Mark nos apresentou Wesley Gibson, um super assassino que nunca erra seus tiros. Na história o cara se torna o mais poderoso do mundo, e “faz o que der na telha”. Mas o interessante é que Wesley era um qualquer, que vivia sofrendo pressão no trabalho e tendo problemas na vida por não ter o poder de superá-las. Essa vida passada de Wesley serve como alegoria a vida do leitor, que possui problemas semelhantes. E é nas páginas finais que Mark chuta o balde, com um Wesley refletindo sobre que tipo de vida preferia, e jogando na cara do leitor que é muito melhor ser um vilão. Achei isso genial, pois foi o que me fez pensar e distinguir os vários tipos de heróis que tenho em minha cabeça e como eu lido com eles.

Após o sucesso de ‘Wanted’, Millar resolveu atacar de novo, desta vez com ‘Nemesis’. O personagem que dá nome ao livro é muito bem construído, com elementos semelhantes a quadrinhos como ‘V de vingança’, ‘Mister X’ e o próprio ‘Wanted’.  Um super-vilão barbarizando por aí e matando policiais sem nenhum propósito. O roteiro é aparentemente simples, como se fosse apenas uma história de ação. O cara nunca falha, e quando falha, sempre estava dentro do plano. Para completar, jogos de perguntas e respostas, e saídas dos melhores filmes de roubo criam uma atmosfera de ‘Jack, o Estripador’ e ‘O plano perfeito’. Apesar de me fazer lembrar tantas coisas que gosto e de trazer tantas referências, o quadrinho não é extraordinário, e nem tão complexo quanto ‘Wanted’. ‘Nemesis’ parece que se propõe a ser apenas mais um quadrinho legal sobre vilões, e isso ele cumpre muito bem. Divertimento garantido para quem ler sem muita expectativa.

*O conteúdo deste post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...