Canonização sempre foi um aparato muito pessoal quando o assunto é escolher obras que definissem o todo em apenas um conjunto. Praticamente algo bastante comum nos meios de quadrinhos, onde cada pessoa lista as suas prediletas obras como imprescindíveis em qualquer coleção ou mesmo leitura. É a eleição arbitrária do que representa todo um meio ou suporte, do que atingiu um apogeu de qualidade a ser venerado.

Mas geralmente escolher cânones é algo bastante impreciso, já que o gosto pessoal e a relação que se tem com as obras perpassam diversos valores. Moacy Cirne, em seu livro Quadrinhos, Sedução e Paixão, dentro outras inquietações, toma a corajosa decisão de tecer de seu ponto de vista um cânone dos quadrinhos. Mas não fez nada diferente de um Harold Bloom ao listar as obras literárias ocidentais que se imortalizaram pela soberbia. Não há, aqui, uma comparação entre quadrinhos e literatura, mas uma quadrinização literária.

Neste clima de pretensão seletiva do melhor do melhor, da nata da literatura nas linguagens dos quadrinhos, surge o segundo volume de Cânones Gráficos, pela Boitempo editorial. Recebo, em primeira mão, o livro que ainda chegará às livrarias e já me vem à cabeça algumas questões: Como superar as emblemáticas presenças de Will Eisner, Robert Crumb e Peter Kuper? E como dar continuidade aos textos literários antigos presentes no primeiro volume, como o Mahabharata, A Ilíada e a Epopéia de Gilgamesh? Quase 500 páginas do primeiro volume já fomentaram uma listagem de 50 obras para saciar corações literários e quadrinhísticos. 

Provavelmente o leitor que se deleitou com a luxuosa primeira edição, se tem uma bagagem de clássicos da literatura universal, sentiu falta de muitas obras. Aquele que não o fez, ainda, precisa descobrir se as suas tais bagagens literárias estão bastante amplas neste exercício de reimaginar graficamente grandes textos imortalizados. Na nova empreitada, Cânones Gráficos – Volume 2, a viagem segue além das cercanias do século XVIII em progresso temporal.

O segundo volume surge justamente ofertando obras que ascenderam às categorias de clássicos da literatura. Os escritos de Jane Austen, William Blake, Mary Shelley, Charles Dickens, Edgar Allan Poe, Emily Brontë, Oscar Wilde, Fiódor Dostoiévski e Lewis Carroll, entre muitos outros, foram transladados até os traços e rabiscos de verdadeiros artistas. Huxley King, Shawn Cheng, Neil Cohn, Corinne Mucha, Sandy Jimenez, Dame Darcy, Tara Seibel, entre outros tantos.

Alguns clássicos da literatura presentes nesta obra já fizeram parte de coleções de quadrinizações. A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne, é um dos exemplos, que saiu no Brasil na série Classic Illustrated, adaptado por P. Craig Russell e com arte de Jill Thompson, em 1991 pela editora Abril. Mas a beleza estética aquarelada com uma sangrada letra A por destaque, fazem do desenho de Ali J um melancólico carinho com a obra. Outra visão.

Que fascinante é ver as interferências que Tara Seibel faz sobre o texto, com janelas centralizadas a cada página, com traços de uma beleza que insinua a decadência refletida em espelhos camafeus no Os Miseráveis. Casou com perfeição a arte de Hunt Emerson com Os Versos do Velho Marinheiro, de Samuel Taylor Coleridge, divertido e grotesco. Para se ler e correr para beber água! O soturno O Corvo de Edgar Allan Poe, com tradução de Machado de Assis e arte de Yen Yip, tremula entre sombras, tecidos ao vento, fumaças fantasmagóricas.

Com a publicação em mãos, busquei iniciar a leitura pelos clássicos que conhecia, mas a fome dos trabalhos seguintes anularam essa meta. As muitas Alices que figuram tantas páginas, afastadas do básico, totalmente inovadoras, foram apenas parte de uma viagem que me fez conhecer textos novos, um verdadeiro convite a se conhecer as obras que inspiraram essas representações, dessa forma conheci Como Nuvem Solitária Eu Vaguei, de William Wordsworth, e fiquei maravilhado com o trabalho visual de William Blake em Jerusalém: A Emancipação Prodigiosa de Albion. Não sabia que o escritor também era um artista gráfico, e a coletânea lançou as duas linguagens dele.

O leitor é pego desprevenido, qualquer chance de tédio é sabotada com as mudanças entre as narrativas. Algumas imagens acompanhando textos, quadrinizações, esmeradas pinups, cada artista trabalha com total liberdade e criatividade dando um sabor singular ao conjunto da obra. Sua pretensão? Canonizar-se. E o tempo, que favorece leitura e releitura desta segunda parte da viagem, poderá nos dizer se a conquistou.

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!