65027_ggOsama Bin Laden está morto. O mais cruel e perseguido terrorista do mundo foi finalmente capturado e executado pelas heroicas forças de combate norte americanas.

Ninguém viu o corpo mas e daí? Pela TV assistimos os modernos equipamentos utilizados para localizar o bandido, um depoimento do criador do grupo de elite responsável pela operação, a euforia do povo norte americano com a morte do terrorista e também todo o retrospecto do mais cruel ser humano que pisou no mundo desde Hitler, passando é claro por aquele terrível 11 de setembro. Mas esse já tínhamos assistido ao vivo…

Não sei se são os meus quase 40 anos, mas tenho ficado bem mais intransigente do que era aos 17 (o que a princípio pode parecer um contra senso) e tem algumas questões que não saem da minha cabeça:

1 – Ninguém vai contestar a política externa norte americana, que tem o poder de destruir e demonizar nações inteiras apenas porque representam supostamente uma ameaça?

2 – Ninguém ainda se tocou que existe um outro lado da questão que – independente da violência e crueldade de seus atos – deve ser ouvido?

3 – Que tipo de sociedade é esta que expia seus pecados assistindo assassinatos à sangue frio?

Eu não sou cientista político, não detenho nenhum cargo público ou faço parte de qualquer organização não governamental pró-direitos humanos. Também não sou militante de ordens que defendam a família e a propriedade, nunca gostei de farda (apesar de ter prestado serviço militar obrigatório) e não sou devoto a qualquer crença em específico. Sou apenas um leitor de gibis.

Um leitor de gibis que oportunamente leu Na Colônia Penal, adaptação de Sylvain Ricard e Maël de uma novela de Franz Kafka, editado pela Quadrinhos na Cia (R$ 33,00).

A obra original foi muito contestada na época de seu lançamento. E não é por menos, o mundo começava a ouvir os canhões da Primeira Grande Guerra e a novela não apresenta uma visão muito otimista sobre o ser humano e seu macabro flerte com a violência e o poder.

A história toda gira em torno de uma engenhoca especialmente desenhada para causar suplício horas a fio em seus condenados, até a inevitável morte, através da gravação do crime do condenado em sua própria carne, utilizando para isso enormes agulhas de vidro. Uma visão aterradora.

O idealizador e construtor da máquina é o falecido comandante da colônia penal do título. Numa nada sutil metáfora, Kafka coloca em cada uma das engrenagens do mecanismo todas as falhas de um sistema jurídico arbitrário e cruel, onde a pena ou o criminoso pouco importam. O que vale mesmo é a perfeição da execução, a mais bem acabada prova que a justiça é só uma questão menor.

Entre os principais oponentes desse desumano método estão um emissário estrangeiro – que está ali especialmente para observar uma execução – e o atual comandante da colônia, que quer por fim àquela monstruosidade. Seu principal defensor é o oficial responsável pelas execuções, que também desempenha as funções de juiz e júri.

6339O condenado nem aprova e nem desaprova. Na verdade, ele nem sabe que foi condenado à morte.

A força do texto de Kafka reside exatamente no absurdo contraste entre a delicadeza dos modos do oficial com o cruel sistema jurídico que ele representa. Falando com beleza singular e apaixonada sobre a morte e a crueldade, o oficial, pouco a pouco, vai revelando a sua verdadeira e doentia natureza. Da veneração cega a seu antigo comandante – que beira à religiosidade – até a total incapacidade de aceitar qualquer falha no sistema que defende, o oficial vai descortinando uma série de características – para o mais absoluto pavor dos leitores – inconvenientemente humanas.

E a adaptação de Ricard e Maël segue à risca a cartilha Kafkiana. Numa esplêndida arte e com um roteiro competente, os principais elementos da obra original não perdem sua força quando transformados em quadros e balões.

E também o gibi se torna desconfortável, desconcertante.

É claro que cada ser humano em sã consciência achará o sistema representado na obra de Kafka algo cruel e desumano. Mas também não será difícil perceber que o absurdo discurso do oficial é bastante parecido com as recentes manifestações de euforia demonstradas pela nação norte americana. Ou ainda, com a inexplicável manutenção da arbitrária prisão de Guantánamo, onde – todos sabem – a tortura e a ausência de qualquer chance de defesa são palavras de ordem.

Mas o mais terrível legado dessa excelente adaptação é a plena consciência de que nós, independente de sua crença ou opção política, em algum momento, também flertamos ou fomos coniventes com tal crueldade.

Flerte esse exercitado todos os dias, através da TV, alimentando nossa injustificável sede de sangue.

Bombas no mundo árabe, prédios desabando sob os corpos de milhares em plena rede nacional, flagrantes de assassinatos de honestos comerciantes pelas mãos adolescentes de bandidos…

Os religiosos apregoam o fim do mundo e a inevitável redenção. Os sociólogos defendem que a situação não será resolvida enquanto não tivermos uma distribuição mais justa da renda. Os educadores – e concordo com eles – acreditam que a única salvação está na oferta de um ensino de qualidade. E os governantes continuam defendendo seus territórios e – sempre que possível – os ampliando, ainda que hoje a expansão territorial tenha sido substituída pela dependência econômica.

E tudo isso ao vivo e em cores, na nossa TV de LCD ou na tela do Ipad.

É a expiação moderna – substituta inequívoca da máquina de Kafka – no oficial existente em cada um de nós.

Em tempos onde a morte de um terrorista vira um show de audiência e onde um imigrante brasileiro é assassinado friamente num metrô de Londres, confundido com terroristas e sem a menor chance de defesa, o lançamento da Quadrinhos na Cia é bastante apropriado para avaliarmos para onde a humanidade caminha. Ou ao menos para onde caminha nossa humanidade.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.