IMG_1024Por Daniel Franzoni Maioral*

*Daniel Franzoni Maioral é convidado do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pelo mesmo.

 

 

Quem é o Demolidor?

dem1

Faça essa pergunta em um evento de quadrinhos para 100 pessoas diferentes e você terá 100 respostas diferentes. Criado em 1964 por Stan Lee, Steve Ditko e Bill Everett, este último sempre esquecido. Matt Murdock trilhou um caminho cheio de obstáculos, ninjas, corrupção, preconceitos e até mesmo insanidade. O Homem sem Medo, o Demônio da Cozinha do Inferno, o Diabo da Guarda, não faz diferença como você o chame, a única coisa que precisa se lembrar é de que não importa a dificuldade, se seu bairro precisar de ajuda ou se o Rei do Crime esquecer quem realmente manda nas ruas de Nova York… Todos irão se lembrar de que lá vem o Demolidor.

O Quadro a Quadro tem como principal lema ir onde à nona arte estiver, sendo assim, nada mais justo que este meu primeiro texto para o blog seja sobre um herói que foi mais longe que muitos, mesmo que nunca tenha cruzado barreiras entre as dimensões dos nove reinos ou viajado até os Kree ou Shiar. Todos podem dizer que o Superman é o mais justo e correto de todos os heróis, que o Homem-Aranha é o mais humano, que Tony Stark é o mais genial, alguns dizem que os governos poderiam aprender muito com T’Challa e que Batman é o que detonaria todo mundo com preparo e outros que o Quarteto Fantástico é a família mais unida de todas… Porém de todos os personagens de quadrinhos que eu conheço nesses 19 anos de leitura (meu deus eu estou velho) poucos superaram obstáculos e dificuldades como Matt Murdock.

Todos conhecem a história do Demolidor certo? Hoje em dia ele possui uma nova legião de fãs com uma fantástica série e há anos está tendo um ótimo momento nos quadrinhos nas mãos de Mark Waid e previamente Ed Bruebaker. A história desse herói não é nova e já foi contada por muitas pessoas. Um garoto cego que após ser treinado por um mestre ninja se torna um super-herói para combater o crime. Simples.

dem2Vale a pena mencionar que assim como muitos personagens Matt vem de uma família desajustada, até aí ele não tem nada de especial, quero dizer, jogue uma pedra, você vai acertar um fantasiado com drama familiar. Porém como Frank Miller disse certa vez, é de se surpreender que ele não seja um vilão, afinal sua mãe o abandonou, seu pai era literalmente igual a algum dos homens que ele derrotava quando adulto, as crianças na escola o espancavam e para fechar com chave de ouro, durante sua primeira grande boa ação ele perde a visão e é amaldiçoado com um poder que leva anos para dominar. E suas mulheres? Ok elas são lindas, mas caramba… Ou elas morrem, ou enlouquecem ou tentam matá-lo. Matt Murdock é o herói que seria o vilão perfeito. O capetinha até mesmo roubou de um policial quando jovem.

E aí que vem o primeiro grande obstáculo que ele venceu. Não o abandono, o alcoolismo do pai ou a cegueira, o primeiro grande obstáculo (e talvez vilão) que Matt venceu foi a sua própria raiva. O garoto poderia ter dedicado sua vida e se vingar de todos que não tiveram uma vida como a sua, mas descarregou sua raiva num saco de areia e aprendeu a primeira grande lição: A vida não é justa. Talvez esta percepção tenha sido um dos fatores que quando adulto o fez buscar a justiça de dia e de noite. Afinal além de toda a base ética que ele adquiriu de seu pai, no maior estilo faça o que digo não faça o que faço, Matt é um dos poucos heróis com uma forte base religiosa, e quem além de um católico fervoroso poderia ser um advogado de dia e um vigilante à noite?

Perdas, este é talvez o trauma mais recorrente na vida de Matt. O Demolidor literalmente perdeu tudo em seus anos de carreira. A visão, o pai, as namoradas, a casa, licença de advogado, o melhor amigo, a sanidade… E aí entramos no principal ponto do personagem, ao menos em minha opinião, Seja com Frank Miller ou Jeph Loeb e pintado por Tim Sale ou pelo mestre John Romita Jr a história de Matt Murdock é um conto sobre superação e perseverança e é nesse aspecto que o Diabo da Cozinha do Inferno vai mais longe que todos. Matt não só vive numa batalha constante contra sua raiva, mas também contra seu medo. Seu medo de falhar, de perder e até mesmo de morrer. Matt descobriu que para ser um homem sem medo, você não precisa viver sem senti-lo, mas precisa aprender que não tem que ficar assustado quando confronta seus temores. Viver sem medo é viver sabendo que está fazendo a coisa certa.

dem3

Começando pela sua Origem e até sua queda definitiva Matt enfrentou os limites humanos da dor física e mental e mesmo falhando, mesmo cometendo erros e machucando aqueles ao seu redor ele sempre encontrou uma forma de se superar, uma forma de derrotar seus demônios interiores e voltar mais forte e mais… Bem como o bom e velho Matt. Ir até a nona arte estiver implica ir além das fronteiras da imaginação e adentrar o mundo real. As histórias de Matt foram até o limite do ser humano e voltaram. Ele foi até o ponto de ser um exemplo, uma inspiração, eu diria que Matt é o herói que nos inspira. Para aqueles que enfrentam as dificuldades do dia a dia, que sofrem não só por aquelas infelicidades que aparecem, mas também pelos erros que cometem ao enfrenta-las devido às imperfeições de suas escolhas, então para essas pessoas, o Demolidor não é apenas um herói, é um exemplo.

Não existe nenhum motivo para Matt ser um herói, quero dizer, Steve Rogers tem seu patriotismo, Peter Parker sua culpa e Tony Stark sua arrogância, agora Matt Murdock? A única coisa que o motiva a continuar sempre de pé e ser o protetor daqueles ao seu redor é seu desejo honesto de simplesmente querer fazer algo de bom com sua vida, mesmo quando a vida lhe tirou tudo. Até mesmo Peter foi capaz de rever Ben e Gwen, Steve teve Bucky de Volta e os X-Men vão e voltam como se tivesse uma porta giratória no Céu, mas Matt? As perdas dele continuam sendo reais e mais que recentemente ele aprendeu que há inimigos que não importa o quão forte você soque, ou o quão corajosamente lute, algumas vezes você simplesmente não pode vencer. Matt é um vencedor quando perde. Ele se adapta e conquista. O verdadeiro homem mede a sua força, quando se defronta com o obstáculo (Antoine de Saint-Exupéry).

dem6

 

 

 

 

Mesmo nos arcos escritos por Brian Michael Bendis quando ele perdeu sua identidade secreta e sua licença para advogar, ou na saga de Ed Bruebaker que lhe custou sua liberdade e seu casamento, Matt é o herói que passa por provações e provações e não importa o quanto elas pesem, ele continua se adaptando a elas e voltando cada vez mais forte. Seja com Frank Miller e o Rei do Crime ou Kevin Smith e o Mystério, ou até mesmo quando o Mercenário surge ou Mark Waid o joga numa nevasca com um ônibus cheio de crianças cegas, Matt nos ensina que para ser um herói você não precisa de uma armadura ou um escudo indestrutível, você só precisa se lembrar do porque está fazendo isso, para proteger aqueles que você ama. Matt é o herói incorruptível, talvez pelo seu trabalho como advogado há poucas coisas que ele acredite mais que a lei, e para ele a justiça é algo muito maior que o mundo dos homens, mas deve existir para todos igualmente.

Em minha opinião poucas histórias em quadrinho trazem tantos ensinamentos como as do Demolidor. Sejam seus padrões éticos e morais que podem ser duvidosos ocasionalmente, ou seja, numa lição do que NÃO fazer como Terra das Sombras. Até mesmo em ensinamentos sobre certo e errado como em Diabo da Guarda e no arco A Morte de Elektra. Talvez seja por isso que todos dizem que o arco de Frank Miller sobre o Demolidor é uma de suas principais obras, aquilo não é uma simples história ou um gibi que você busca todo mês nas bancas. Aquilo é um ensinamento, uma obra da arte, aquelas páginas transmitem algo pra você muito importante. Superação, amizade, lealdade, responsabilidade, amor… Frank Miller criou uma vida, uma comédia e uma tragédia e mesmo que todos os outros autores do Rei da Cozinha do Inferno jamais tenham conseguido chegar tão longe quanto Miller, todos foram aonde a nona arte lhes permitiu chegar. Até nós.

dem5Então o Demolidor é o super-herói sem final feliz. Ele vai conseguir derrotar Wilson Fisk e o Mercenário, ele vai impedir que o inocente vá preso em julgamento e sempre irá salvar aquela última criança do prédio em chamas, mas após tudo isso ele nunca vai poder ver seu filho, ou saber a cor dos olhos de sua esposa, ele nunca irá ver uma careta de Foggy ou ver as estrelas, Matt é derrotado todos os dias e mesmo assim, mesmo com tudo isso, toda essa dor que ele carrega que o motiva a correr pelos telhados vestido de diabo… Ele ainda acha um jeito de superar sua dor e nos ensinar que a dor é inevitável, mas o sofrimento é uma opção.

Para o super-herói da Cozinha do Inferno que nada mais é que um advogado cego que busca a justiça, criado por um homem que amava seu filho a ponto de lhe dar o mais cruel exemplo do que não ser, que foi treinado por um velho maluco e violento e tocado pela morte tantas vezes que deixaria Thanos com inveja… Só há uma coisa a dizer: Obrigado.

E como já disse, o Demolidor é um herói que se adapta, que está pronto para o dia que enfrentar aquele inimigo que irá triunfar sobre ele, e quando este dia chegar, Matt achará um jeito de nos deixar protegidos, uma maneira de garantir que A Cozinha do Inferno jamais esqueça, que O Demolidor estará sempre vigiando suas ruas.

Agora citando Bem Urich… Não há maneira melhor de encerrar este texto sobre o Demônio que foi mais longe que os anjos, que ensinou a todos nós que não há dificuldades suficientes neste mundo para impedir aqueles dispostos a agir mesmo com medo. Não há nada que possa deter… Um Homem sem Medo.

dem4

——————–

Daniel Franzoni Maioral começou a ler quadrinhos porque sua mãe ficava muito tempo na Renner e nas lojas de cosméticos. Viu todas as séries animadas da DC na televisão quando jovem e se viciou de vez na nona arte. Compra quadrinhos todos os meses e já apertou a mão de Don Rosa, George Perez e andou pela Cozinha do Inferno esperando encontrar algum de seus ídolos. Acredita que o Asa Noturna é o melhor personagem da história e que John Constantine e Blacksad deveriam ser discutidos em faculdades. Psicólogo clínico por graduação e forense por vocação. Escreve hqs e histórias por pura teimosia pois deveria ir trabalhar. 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.