1982 não foi um ano fácil.

Meu pai acabava de perder o emprego e se descobrir cardíaco e epilético. Algum dispositivo legal o permitiu usufruir do benefício do INSS, ou, como dizíamos à época, entrou na “caixa”. Minha irmã mais nova nascera um ano antes e ensaiava seus primeiros passos.

Com uma inflação maluca lá fora, meu pai recebendo metade do que ganhava na ativa e mais uma boca pra sustentar, a coisa estava realmente ruim. E iria piorar.

Foi nessa época que meu pai começou a demonstrar sinais mais claros daquilo que destruiria nossa família e o levaria à morte anos mais tarde: o alcoolismo.

Naquele tempo eu ainda não conseguia entender direito o que ocorria à minha volta, mas sabia que a coisa estava indo de mal a pior.

A saída daquele moleque de 10 anos foi a mais óbvia possível: afundar-se naquele mundo de fantasia povoado de heróis e seres mágicos que existiam nos gibis.

Mas gibis, mesmo naqueles tempos, custavam grana. Uma coisa que definitivamente não tínhamos mais.

Mas tínhamos a feira de sábado.

Hoje pode até soar estranho, mas naquele tempo existiam várias “barracas de gibis” nas feiras livres. Gibis velhos, puídos, meio rasgados, pintados a lápis por alguma criança, mas ainda assim gibis.

E num preço que cabia em nosso orçamento.

Se não fosse aquela feira e o monumental esforço da minha mãe, que passava de barraca em barraca, sempre procurando o melhor preço apenas para que sobrassem algumas moedas para me comprar meia dúzia de gibis, talvez eu não tivesse conseguido passar por aquele 1982.

E ainda teve aquela maldita Copa…

copa

Saio todos os dias de manhã pra passear com a Boo, minha genial e rabugenta vira-lata de 8 anos.

Enorme, inteligentíssima e totalmente indisciplinada, ela torna o curto trajeto entre meu apartamento e a portaria uma verdadeira aventura, com direito a tentativas diárias de assassinato a um gato vadio que anda lá pelo condomínio, olhares nada amistosos para a criançada que fica esperando a perua escolar e brigas constantes com o Arthur, um valente, mas pouco ajuizado, yorkshire de uma vizinha nossa.

Por conta desse delicioso martírio diário, nunca paro de manhã na portaria para pegar minhas correspondências. Seria um risco desnecessário.

Mas outro dia a coisa estava tranquila. Não tinha gato, não tinha criança e o Arthur milagrosamente não estava por ali, então resolvi antecipar a tarefa da noite.

Qual não foi minha surpresa quando o porteiro entregou um pacote destinado ao Sr. Willians Parra – Gibi Rasgado/Quadro a Quadro.

Adoro receber pacotes com gibis…

Enquanto a Boo farejava algo aparentemente intrigante num pedaço de pneu velho, aproveitei pra abrir o tal pacote.

Dentro havia um exemplar de A Garagem Hermética, novo volume da Coleção Moebius, da Editora Nemo.

Garagem Hermética

Mas antes de começar a falar sobre A Garagem Hermética, gostaria de falar dessa coleção da Nemo.

Com esse, já são 4 os exemplares da Coleção Moebius. Antes a editora havia publicado Arzach, Absoluten Calfeutrail & Outras Histórias e O Homem é Bom?.

Apenas um ano separa este A Garagem Hermética de Arzach, nunca Moebius havia sido publicado com tanta regularidade em terras brasileiras. Pela primeira vez estamos tendo a oportunidade de conhecer a magnífica obra desse gênio incontestável das HQ da maneira como ela realmente deve ser conhecida: sem cortes, sem interrupções, com uma tradução decente e um trabalho editorial que valorize o talento de seu autor.

Não por acaso, Arzach deu a Nemo o prêmio HQMIX na categoria Publicação de Clássico.

Méritos de Arnaud Vin e Wellington Srbek, responsáveis pelo primoroso trabalho editorial.

Mas é claro que sempre tem alguém que vai dizer:

– Ah! Mas você só está falando essas coisas porque trabalha pros caras.

É verdade, eu trabalho pros caras.

Mas então deixa eu contar uma ou duas coisinhas que descobri com esse A Garagem Hermética

Garagem4

À medida que ia lendo A Garagem Hermética, fui retornando décadas no passado.

Eu sei que esse período da obra de Moebius é considerado um divisor de águas no mundo dos quadrinhos, mas A Garagem Hermética literalmente chuta o balde.

Página após página, vamos sendo apresentados à misteriosa figura do Major Grubert, uma espécie de explorador intergaláctico e interdimensional.

Os termos te lembram algo?

Se você tem, como eu, 40 anos ou mais, sabe exatamente onde quero chegar. Se não tem, fique tranquilo, vai acabar entendendo o que vou falar, afinal, todos fomos crianças um dia.

No meu tempo de moleque, crescíamos assistindo seriados como Jornada nas Estrelas, Terra de Gigantes, O Elo Perdido ou Túnel do Tempo. No cinema, podemos dizer que acompanhamos a virada de página da história da indústria ao assistirmos filmes como Guerra nas Estrelas (a trilogia original), Indiana Jones e De Volta para o Futuro.

Palavras como Intergaláctico eram praticamente uma senha pra se pegar uma pistola de plástico e cairmos no mundo à caça de alienígenas maus, muito maus.

E o que nos reserva esse novo volume da Coleção Moebius é exatamente isso: um reencontro com o melhor sabor da Ficção Científica das nossas infâncias.

Afinal, o que é um cabeiro? E um impulso thynico? Será que eu encontro um transmissor de matéria a um preço barato no Mercado Livre?

Que raios é uma garagem hermética e quem diabos é Jerry Cornelius?

Ler A Garagem Hermética é um desafio à nossa imaginação. Preencher seus espaços vazios é uma tarefa para poucos. Uma tarefa que só aqueles que nunca se esqueceram que um terreno baldio pode também abrigar um portal interdimensional conseguirão cumprir.

Mas não é só a nostalgia e uma aventura maluca em mundos insanos que tornam esse gibi algo memorável.

Ao viajarmos no Ciguri do destemido Major, vamos pouco a pouco vislumbrando resquícios e inspirações das mais inusitadas fontes. De pitadas dignas dos melhores faroestes a referências visuais que nos remetem à civilização pré-colombiana, Moebius vai criando, desconcertando e reinventando os quadrinhos existentes até então.

A Garagem Hermética, de tão caótica e divertida, nos faz entender exatamente todo tipo de quadrinhos que lemos durante nossas vidas e nos faz perceber a importância de gênios como Eisner e Kirby, ajudando-nos a compreender o quanto eles foram realmente grandes. Até páginas soltas em nossa deficitária história de leitor, como Little Nemo ou Fantasma assumem uma outra dimensão ao lermos A Garagem Hermética.

E como se não bastasse, também nos dá uma idéia bastante precisa do quanto a obra de Moebius influenciou todo tipo de quadrinhos em todos os cantos do mundo, seja da esquerda para a direita ou ao contrário.

Além disso, a obra de Moebius possui uma estranha mania de se recusar a envelhecer. Passados quase 40 anos da publicação original, A Garagem Hermética ainda diverte, instiga, inspira e reinventa conceitos.

E a única coisa que lamento é nunca ter visto isto antes, quando eu ainda era um moleque que não tinha medo de alienígenas e nem de portais interdimensionais.

Mas em 1982, esses gibis não chegavam às nossas mãos.

Garagem3

Mas se eu tivesse a oportunidade de entrar num transmissor de matéria, voltaria num sábado qualquer daquele ano e deixaria esse exemplar de A Garagem Hermética naquela barraca.

Não tentaria mudar aquele desastre em Sarriá. Todos choramos aquela derrota.

Não tentaria mudar a vida que levávamos naquela época.

A falta de grana, a doença de meu pai, os tombos da minha irmã… eu não tentaria mudar absolutamente nada.

Apenas deixaria esse gibi lá.

E tenho certeza de que tudo teria sido diferente…

image.axd

Para saber mais sobre Moebius:

http://maisquadrinhos.blogspot.com.br/2008/05/os-70-anos-de-um-gnio-chamado-moebius_08.html

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.