Monstros!, primeira Graphic Novel de Gustavo Duarte (Có!, Taxi, Birds) a ser publicada pela Quadrinhos na CIA, conta a história de Seu Pinô. O improvável protagonista é um proprietário de bar da cidade de Santos, que se vê obrigado a reagir a invasão de três improváveis monstros, uma vez que o movimento de seu estabelecimento foi diretamente prejudicado pela invasão.

Que os trabalhos do Gustavo são um espetáculo visual a parte, isto é inegável. Seus quadrinhos são mudos mas são tão expressivos, e sua narrativa flui tão bem que em pouco tempo conseguimos viajar por um mundo e por uma históra que parecem tão bem construídos quanto improváveis de se caberem em tão poucas páginas. Monstros! tem um pouco mais de páginas do que os anteriores, e um pouco mais de cores também, mas no fim fica o sentimento nostálgico e insaciável de sempre, do quanto gostaríamos que o livro fosse mais longo e os desenhos ainda mais coloridos.

 

Este álbum, porém, trouxe algo mais para mim. Gustavo parece motivado por suas lembranças da infância, ao  trabalhar diversos personagens clássicos como Spectreman e Mr. Magoo. Do meu lado, porém, nunca gostei de nenhum destes, e nem  de monstros como o Godzilla e o King Kong. Foram duas as coisas que me fizeram gostar tanto deste quadrinho, e ambas podem ser resumidas em sentimento: heroísmo.

Lance!, 2002Lembro-me que tive o privilégio de ler o diário esportivo Lance! durante vários anos morando no estado de São Paulo. Sempre gostei de esporte e futebol, e tive o hábito da leitura de jornais incentivado por um pai-trocínio de um R$1,50 toda manhã. E quase que a cada dia, logo na segunda página tinha uma charge do Gustavo. Mas o interessante é que num mercado tão difícil de lidar, de entrar e de sobreviver como o mercado de quadrinhos brasileiros, grande parte dos artistas ainda começam suas carreiras nas páginas dos jornais. A internet facilitou muito, é verdade, mas na minha infância ver um artista trabalhar com charges, colocando todo seu estilo e expressão sempre tão pessoais e característicos, era uma inspiração diária. Lembro me bem quando decidi que iria seguir outra carreira e que não seria quadrinista profissional. Naquele momento, o Gustavo ainda não havia publicado Có!, mas já era um herói tão improvável para mim quanto Seu Pinô.

Se a primeira coisa que me fez gostar tanto de Monstros! foi a grata lembrança de que Gustavo Duarte era uma inspiração antiga, a segunda coisa está guardada ainda mais na minha infância. Cresci no interior de São Paulo entre quadrinhos, desenhos animado, bonecos de ação e futebol. Mas desconsiderando o esporte, tudo na minha infância se resumia a histórias. Ler, contar, assistir e ouvir trajetórias de heróis, perfeitos ou imperfeitos, improváveis ou óbvios. E um pouco de cada um, juntamente com meus heróis mais próximos (meus pais), que ajudaram a formar meu caráter, e definir quem eu sou. E em todas estas histórias, o herói poderia ter muitos defeitos, mas seu heroísmo era sempre inquestionável.

E é por isso que gostei tanto de Seu Pinô. Você pode ter todos os preconceitos do mundo, mas ele é um herói. E quantas pessoas tão comuns quanto esse velhinho não estão por aí fazendo a diferença, e saindo de cena tão discretamente quanto ele? Não é preciso matar nenhum monstro pra fazer a diferença no mundo, basta inspirar os outros a acreditar no bem. Mesmo sem querer, podemos fazer isto diariamente, pois é reflexo de um bom caráter e boas intenções. Muito obrigado Gustavo, por me fazer lembrar de minha infância e por (mesmo que sem querer?) me lembrar das coisas que acredito e me fazem seguir em frente.

E pra finalizar, devo lembrar que o Gustavo também já impressionava um outro amigo meu desde os tempos de Lance!. Clique para ler as resenhas de Lillo Parra para Có!, Taxi e Birds. Boa viagem!

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.