graphicsmsp

Os textos que escrevo aqui no blog, normalmente, são de opiniões pessoais sobre um determinado quadrinho que li. Temos um grupo no whatsapp do pessoal do QaQ e surgiu toda uma celeuma sobre as chamadas “Graphics MSP” (os álbuns, graphic novels da Mauricio de Sousa Produções).

O assunto da vez era a mais recente edição dessa coleção: “Mônica – Força”, da Bianca Pinheiro. Trabalho esse, mais umas vez, editado pelo idealizador do projeto, Sidney Gusman.

Sidão, como é conhecido no meio quadrinístico um dos maiores editores de quadrinhos do Brasil, vem fazendo um ótimo trabalho na empresa do principal quadrinista brasileiro. Quem o conhece desde os tempos da Editora Globo e seus textos explicativos sobre Sandman ou sua passagem pela Conrad, sabe que ele não faria menos agora na MSP.

Um dos seus projetos mais interessantes lá começou há alguns anos com o Mauricio+50, onde, após três edições, 150 quadrinistas e ilustradores fizeram ilustrações e pequenas histórias usando os personagens mais conhecidos das histórias em quadrinhos brasileiras, em comemoração aos 50 anos de carreira do Mauricio.

Muitas das histórias ali são interessantíssimas. Ver seus personagens preferidos fazendo coisas diferentes, em situações diferentes e desenhados de formas beeem diferentes foi uma coisa genial. Além de dar um baita cartaz a inúmeros artistas dos mais diversos estilos, alguns que estavam começando, outros já bem consolidados.

Esse projeto foi o embrião das Graphics MSP, proposta que o Sidney levou pro Mauricio para que em um álbum artistas selecionados escrevessem e desenhassem alguns dos mais famosos personagens do Mauricio.

Saíam, em média, três por ano. Desde o ano passado, são quatro edições num ano, e essa última, da Mônica já é a décima-segunda, com a décima terceira (Bidu – Juntos) marcada para meados de outubro desse ano. Astronauta 3 (ainda sem título), também sai até o fim do ano.

Cada uma das graphics tem uma temática diferente: as do Astronauta, logicamente, são de ficção científica; a primeira da Turma da Mônica, Bidu e Piteco, de aventura; Turma da Mata, de super-heróis (tá, é de aventura também, mas eu acho que parece de super herois…); Mônica, é um drama, no mesmo nível da segunda da turminha; Chico Bento e Penadinho, são de humor – o primeiro mais non sense e o segundo um “terrir” -, Louco não tem um gênero específico, acho, seria uma aventura non sense piração total; e, por fim, Papa Capim, de terror .

A minha relação com a Turma da Mônica, assim como a maioria dos brasileiros, é desde muito novo. Para mim foi uma surpresa o Mauricio ter liberado “seus brinquedos” para que outros fizessem uso deles em novas histórias.

Em Mônica – Força, no texto de apresentação, o Mauricio nos conta que só aceitou que tal história fosse contada um dia se fosse numa Graphic MSP. Ou seja, dá a entender que as Graphics não podem fazer parte do cânone, que as histórias dali estão em outra realidade até (como as “E se…” da Marvel ou as “Túnel do Tempo” da DC), ou ainda porque essas revistas são destinadas a outro público e que encararia melhor determinados temas e situações.

Edit: em conversa com o próprio Sidney Gusman, é possível dizer que todas as histórias das Graphics MSP fariam sim parte do cânone, assim como fazem parte as histórias da linha normal com futuros alternativos. A fala do Mauricio para esta última edição é mais por conta do público a que se destinam cada uma das linhas editoriais.

Eu acredito em todas essas coisas do parágrafo anterior, mas fico me perguntando (e esse foi o cerne da discussão entre os Quadrados): qual a representatividade dessas histórias para esses personagens? Na maior parte das graphics, os personagens em questão nos são apresentados da mesma forma que os conhecemos nos quadrinhos originais. Lógico que com desenhos diferentes e tal, mas as situações enfrentadas por eles, algumas das resoluções (e os finais, ah, os finais…), são bem parecidos com o que já conhecíamos.

Tanto é que, para mim ao menos, claro, as mais legais são justamente as que mais fogem dos lugares comuns: (não necessariamente nessa ordem…) a primeira do Astronauta; a primeira da Turma da Mônica (que hoje podemos dizer que tem um quê de “Stranger Things”…), a do Piteco, a da Turma da Mata (mesmo com alguns buracos no roteiro) e a do Louco que não se encaixa em nenhuma das categorias e que ainda estou processando…

As outras todas, por mais legais que sejam –e eu acho que são, sim! – seguem lugares comuns, mantêm o status quo dos personagens, não se arriscam tanto quanto poderiam. E sempre tem os finais, isso em todas: dá a impressão que precisam correr no finalzinho e fazem tudo meio rápido demais no desfecho. Acho ótimo que estamos conseguindo cada vez mais escrever longas histórias em quadrinhos, mas tudo precisa ser mais dosado, quando chegam no final fica meio curto para a finalização.

Focando nesta última edição, que foi dica da Dani Marino no ultimo “Dicas dos Quadrados”, inclusive, Bianca Pinheiro – umas melhores artistas surgidas nos últimos anos – coloca a Mônica em uma situação em que sua força bruta não é solução. É uma história forte, sensível e que sim, não daria para ser vista nas histórias normais da menininha do vestido vermelho. Mas de novo o final compromete o desenvolvimento todo da história. Resolvendo um problema de uma forma muito simples, ingênua, até. Novamente de forma muito rápida, depois de todo um drama ao longo da história. Não que isso não pudesse acontecer, mas no mundo real as coisas não acontecem assim facilmente. E pode trazer mais problemas a quem está passando (ou passou) por aquela situação do que ajudar…

O saldo ainda é positivo para as graphics. Vejo como um dos grandes cartazes para ótimos quadrinistas mostrarem seu talento – mesmo que não se mostrem melhores do que em outros trabalhos deles.  É um jeito de vermos os personagens clássicos do Mauricio em outras situações que normalmente não veríamos nas revistas clássicas. Mas sinto que a fonte está se esgotando. As coisas estão se repetindo e poderiam ser repensadas.

Já há a informação de ao menos mais uma a ser lançada: um título ainda não anunciado que será lançado na Comic Con Experience Nordeste, ano que vem, em meados de abril, mas outras 3 devem ser anunciadas juntamente com essa até o fim do ano.

Esse material está tendo grande sucesso de público, com boas vendas tanto entre o público mais velho como fãs mais novos,  ainda mais com a boa distribuição da Panini, os eventos de lançamento, os eventos com teasers (eu estava no FIQ de 2013 e senti aquilo, é muito legal e o Sidão faz isso muito bem) e que isso só ajude a crescer ainda mais o quadrinho nacional. O próprio Mauricio já disse que não se importa nem um pouco de “criar novos concorrentes” desde que isso ajude a aumentar o mercado de quadrinhos no Brasil.

E.T.: a imagem que abre o post é uma lista de todos os teasers (não são as capas!) divulgados das Graphics MSP já publicadas e ainda a serem publicadas, somando 14, no total.

— "Marcelo é advogado, historiador e professor de história. Nas horas vagas escreve sobre quadrinhos. Deixaria tudo isso de lado se fosse escolhido o Lanterna Verde protetor da Terra. Lê HQs desde que se lembra por gente. Sempre foi cercado por elas em casa ou na chácara do avô. Durante o curso de História as percebeu como fontes inesgotáveis de informação sobre seu tempo (tempo em que foram publicadas e tempos retratados em suas páginas) além de poderem ser usadas em sala de aula. Aí não parou mais e quer difundir ainda mais esse conhecimento sobre a Nona Arte."