Nestas férias, de Janeiro a Março, tive a oportunidade de realizar um intercâmbio na Ucrânia e um mochilão por alguns países da Europa. E foi por isso também que meu número de postagens no Quadro a Quadro caiu drasticamente. Mas a pergunta que fica, pra quem vai de mochila nas costas, com tanta coisa nova pra ver, sobra espaço para um quadrinho? A resposta está no meu relato abaixo.

Confesso que quando parti, no dia 6 de Janeiro em direção a Milão, não levei nenhuma HQ comigo.  E ainda avisei os amigos: farei mochilão, tendo que enfrentar vôos que permitem 20 kilos de bagagem, e por isso não poderei trazer encomendas. Sabia também que visitaria muitas cidades na correria, e ainda mais na companhia de amigos que não são apreciadores da nona arte. E aí, vou ter que voltar uma outra vez pra Europa por causa disso? Vai ser difícil…

O primeiro destino foi a Itália. Entre uma espiada e outra nas bancas de revista, não vi nada mais do que os Fumetti tradicionais: Tex, Zagor, Dylan Dog. Também nada de eventos anunciados, nem em Milão nem em Roma. Paciência, não tinha tempo para procurar e arriscar comic shops ou exposições que não valessem tanto a pena quanto uma visita aos principais monumentos históricos. Segui viagem.

The Britolz

Após uma semana, cheguei a Ucrânia, meu destino principal. Logo de cara reparei nas bancas de revistas: nada de quadrinhos americanos! Nem Batman, nem Super-Man, nem Homem Aranha. Meu intercâmbio envolvia lecionar aulas de inglês nas escolas, e em uma delas encontrei um gibi do Aranha, em inglês é claro. Conversando com duas amigas interessadas em arte, perguntei onde poderia encontrar quadrinhos ucranianos ou russos. Eis a surpresa: antigamente era mais fácil de encontrar, elas me disseram. Hoje em dia elas sequer sabiam se havia produção de histórias em quadrinho em um desses países.

Procurei na Internet. Nada. Procurei em fóruns, achei registros de encontros independentes antigos. Perguntei (do jeito que deu) em bancas de revista, e nada. Após seis semanas em Kiev (capital), conheci muita gente interessada em arte clássica, moderna, desenho, design e literatura. Mais nenhuma especificamente interessada por quadrinhos. Eis que no último dia, já no aeroporto, aquelas duas amigas que citei chegaram para salvar o dia, trazendo consigo dois quadrinhos russos! Um chamado Kazka, e o outro chamado The Britolz.

Kazka é um quadrinho mudo produzido na Rússia, cuja arte lembra muito o Mangá, apesar de a ordenação das páginas e dos quadros ser da maneira mais comum no ocidente. A história psicodélica de um garoto que tenta recuperar sua namorada após um tragicômico acidente de uma nave. Narrativa divertida, roteiro interessante, e uma leitura diferente que me agradou muito. Para as informações do site oficial em inglês, clique aqui.

The Britolz, como o nome indica, é uma paródia de The Beatles. Noentanto, este é escrito em Russo, com alfabeto Cirílico. Apesar de ter aprendido um pouco deste alfabeto, confesso que até traduzir para o alfabeto que utilizamos e digitar no tradutor as muitas palavras que não conheço, lá se foram 20 minutos para ler uma página. Ainda não progredi muito, mas a narrativa e os desenhos trazem uma boa premissa!

 

Seguindo viagem, fui a Budapest. Relato que não topei com nenhum quadrinho nas bancas, nem sinal de produção independente Húngara, também não vi eventos ou museus anunciados. Que pena…

Em Praga, a história foi diferente. Topei por acaso com um Bar e Museu sobre 

quadrinhos. Bar e Museu? Como assim? Pois é, até hoje não sei direito. Sei que é um bar,chamado Batalion, todo decorado, que emite seus próprios gibis independentes, menus personalizados e ainda tem emoldurados todas as edições anteriores bem como trabalhos de outros autores que por lá passaram. E além disso não é qualquer bar, é um dos mais antigos da cidade, datado de 1880! Muito interessante! Segue foto do menu de fevereiro de 2013, com as famosas cervejas tchecas, para vocês darem uma olhada.

Até chegar em Bruxelas, passei por Amsterdam, da qual não tive relato "quadrinístico", infelizmente. Seria legal ter encontrado uma HQ psicodélica. Já na capital internacional dos Quadrinhos, como a capital da Bélgica é conhecida por lá, evitar a nona arte seria impossível, mesmo passando pouco mais de um dia na cidade. Nem precisei procurar onde ficava o prédio pintado com as escadarias de Tin Tin, pois o mesmo apareceu na minha frente.Também é relativamente fácil encontrar, ao lado das lojas de souvenir, miniaturas de Lucky Luke e Jolly Jumper, bem como de Tin Tin, Asterix, Smurfs, Gaston e outros personagens famosos da Banda Desenhada Franco-Belga. Além disso, é bem perceptível que várias ruas possuem dois nomes: um original, apresentado nos mapas, e outro homenageando quadrinhos. A primeira que vi foi a Rua Mafalda.

 

 

Ainda sobrou tempo para uma visita ao Museu do Quadrinho Belga (Centre Belge de la Bande Dessinée). No primeiro andar, estátuas e modelagens dos personagens mais famosos se intercalavam com infográficos e textos informativos sobre cada quadrinho famoso, bem como com reproduções de objetos e trajes conhecidos dos fãs. Para falar a verdade senti falta de encontrar mais páginas originais, roteiros e sketches. De antigo mesmo, nesta área, só revistas publicadas no início do século. Fotos no final do Post!

No segundo andar, aí sim apresentavam-se originais dos mestres dos dias de hoje, como Reinhard Kleist, Craig Thompson, Amir & Kalil, Catel & Boucquet e vários outros. Mas lamentei mesmo não ter visto originais de Hergé, mesmo por que não tive tempo de ir ao Museu próprio do autor.

Em Barcelona preciso registrar que… não registrei nada de quadrinhos. Mais uma vez uma pena.

 

Em Paris, grata surpresa. Chego no Louvre para visitar o clássico andar dos pintores italianos e franceses, bem como o andar das esculturas, sem esperar nada sobre quadrinhos, é óbvio. E isto resume o meu post, não importa, na Europa sempre encontramos alguma coisa relacionada a nona arte: Exposição itinerante sobre o gênio Enki Bilal. 
Parti para Suíça, na qual realizei meu último registro. Em uma das cidades por quais passei, chamada Luzern, estava tendo uma exposição internacional de quadrinhos chamada Fumetto, e o cartaz desenhado por Robert Crumb. O fino da bola. 

Bem, chegamos ao fim da minha viagem. Para uma aventura que não foi focada em quadrinhos, voltei com gibis muito legais na mochila, mas mais do que isso, tendo conhecido muito sobre a nona arte sem nem ter me esforçado. Existiam duas opções, focar a viagem só para o turismo, focar só para os quadrinhos. Na verdade existiam três pois a opção que escolhi foi uma terceira: só fui. E aproveitei de tudo um pouco, voltando com dicas pra quem precisar!

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.