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 ► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

 

 

 

tiki-keli-2A vida é feita de ritos de passagem. Aliás, toda ela é uma passagem relâmpago! Se você refletir neste exato instante, as palavras que acabou de ler já habitam o passado e sua releitura fará parte de outro passado. Ou seja, são passagens das passagens. Passados por cima de passados. E mesmo que você revisite o que já passou, ele não será tão semelhante quanto antes. Até cinco minutos atrás você estava de um jeito, e os próximos cinco? Sabe-se lá! É novo que já fica velho num piscar de olhos.

Quando li o álbum TIKI – O menino Guerreiro (as histórias foram originalmente publicadas na revista Giornalino – Gibizinho em italiano – no final de 1976), da dupla italiana Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo (de Ken Parker), percebi como essa vida de meu Deus é contraditória e passageira. Exemplo: como uma HQ da Itália vai falar de um acontecimento delicado da história brasileira, a “construção” (com suas devidas aspas) da Transamazônica, e ainda demora quase 40 anos para o protagonista, o pequeno carajá Tiki, voltar às suas raízes? Tomando as palavras de Berardi no prefácio dessa obra, “a vida é estranha, não é mesmo?”.

No enredo, dividido em seis episódios, Tiki, que mal adolesceu, já inicia a sua jornada – e seus ritos de passagem – de maneira forte, até mesmo violenta: a morte do pai Itoto, sua afirmação na aldeia para caçar e matar a fome, enfrentando a tirania do (pseudo) pajé Asoni-Pohiroa, a destruição de sua tribo pelas bombas de napalm, as mesmas usadas durante a Guerra do Vietnã, a fim de abrir as trilhas para a “marcha” da civilização… Ufa, passagens demais para quem está só no início da estrada da existência.

Aliás, falar de existência é tocar nos sentimentos. E é outra jornada que o traço perspicaz de Milazzo e o argumento de Berardi fazem nosso protagonista percorrer nas páginas da HQ. Uma sequência que merece atenção é quando Tiki encontra a única, ainda, sobrevivente dos bombardeios, Minohi. Ali podemos observar a fusão de passagens e de sensações. Enquanto a velha índia relata o que acontecera com sua tribo e prepara-se para seguir ao mundo dos mortos, Tiki tem que lidar com mais um desafio: vingar-se dos “Pássaros Brilhantes” (os aviões que bombardearam a aldeia), em nome de todos pertencentes de sua existência, em especial o espírito de sua mãe Makura.

Enquanto isso, um dos pilotos, Smith, se indigna pelo fato de abrir clareiras no ‘inferno verde’, dizimando populações indígenas, bem como espécimes da fauna e flora. E como ele mesmo proferiu, “bombas e progresso, uma dupla de sucesso”. Mais um personagem que também vê como genocídio o avanço do ‘homem branco’ é o engenheiro Fernandes, que se apresenta ao profissional que o substituiu, o polonês Mate Paskow.  

Sabe, amigo leitor, quantas vezes a gente liga a televisão ou pipoca na Internet notícias sobre crises e mais crises nos povos indígenas, disputas por terras entre fazendeiros e grileiros, tráfico de madeiras? E não é de agora, isso perdura deste dos tempos do seringueiro Chico Mendes, há mais de 20 anos. Como diria Minohi, “não tente entender o que não consegue.” Lembro aqui meu pai, quando ele me vê indignada com algumas situações pessoais e do mundo que esbarro, simplesmente me diz: “Filha, tem coisa na vida que não é pra entender. É pra prestar atenção”. Sábia frase, pai.

Outra questão abordada por B&M é o choque cultural. Imagine adentrar um território distinto do que está acostumado? É o que Tiki sente quando chega à tribo Ianomâmi e salva Petima, sua Flor da Floresta. Ali ele se vê em um mundo novo, um microcosmo inexplorado e de trocas a base de bananeiras ianomâmis e hayahayanas, os balanços Carajás. Ali nasce o amor entre duas culturas. Depois da coragem, só o amor nos move, nos impulsiona! (Ou será que um complementa o outro?)

Mais um dos impactos sentimentais é momento que o carajá, no “ninho dos Pássaros Brilhantes”, sequestra Paskow. O encontro entre o “macaco branco” e o índio que até então não teve contato com outras civilizações gera uma sequência de tensões e ensinamentos. Do conflito de linguagem – quando Tiki explica como sua aldeia foi destruída – até Paskow salvar a vida do índio ao cair numa correnteza, ambos personagens fizeram um intercâmbio de histórias de vida, passados e remissões. Afinal, o engenheiro outrora tinha saído da longínqua Polônia para apenas “construir uma estrada”. Agora, germinou-se uma amizade.          

 Ler TIKI – O menino Guerreiro é descobrir que somos “Metade a Metade”, roubando os versos da Balada de Pat O’Shane, HQ de Ken Parker, citada na resenha de Francesco Manetti e Júlio Schneider, que está no álbum.

“Mas por quê”, você deve se perguntar. Tiki, rasgando a floresta na luta pela descoberta e sobrevivência, nos revela que toda a humanidade necessita de preservação do seu passado, do seu presente e do seu futuro.

Afinal, o tal progresso não pode ser feito somente de destruição, de pisar nos sentimentos e existências de outrem. É muito egoísmo! Progredir é um bichinho constituído de divisões, de passados por cima de outros, de relatos. Assim podemos ver luzes para o que está por vir.

Nunca somos completos, nos completamos. A vã crença de achar que sabemos de tudo só nos engessam!

Penso eu que precisamos evocar os sagrados das florestas e das montanhas, os Hekuras, para dar-nos paciência, resiliência e que abram-nos caminhos para desbravar esta grande floresta chamada viver. 

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...