Antes de começar essa resenha eu tenho que confessar algumas coisas: 1) odeio pagar caro por gibis; 2) raramente compro reedições de histórias que eu já li, mesmo que tenha sido em formatinho; 3) me apaixonei quadrinhos por causa dos X-Men de Claremont e por isso sinto um certo afeto pelos personagens; 4) às vezes me sinto meio idiota por gostar dos X-Men; 5) detesto o politicamente correto; 6) estou com a leitura de quadrinhos mega-ultra atrasada, tenho pilhas de quadrinhos comprados e ainda não lidos. Bom… essa última é só pra justificar uma resenha uma HQ que nem deve estar mais nas bancas.

Como a maioria dos leitores velhos meu gosto pelos quadrinhos começou a ser bancado pela economia do lanche da escola.  Considerando que a grana não dava pra comprar mais do que uma Coca e uma coxinha, ficamos acostumados a pagar relativamente pouco pelas revistas. Daí que crescemos e nos dividimos em duas espécies de leitores (os barrigudos e os carecas? não!): os que passaram a cultivar um verdadeiro fetiche por capas duras, edições de luxo e coisas pra pôr na estante; e uma minoria, na qual me encaixo, que acha tudo isso uma grande frescura, deixa que a mulher escolha o que colocar na estante, guarda sua coleção em armários fechados e só compra capa dura se estiver em promoção.

Alguns meses atrás vi na loja onde eu compro meus gibis o número 1 de um novo título da Panini: Marvel + Aventura. Tinha uma aventura do Wolverine, publicada orgininalmente nos EUA em 1985. Eu já havia lido aquela HQ e sabia que eu tinha o gibi em alguma edição da Superaventuras Marvel ou outro formatinho da Abril, mas… pô… custava só R$1,99 e era impresso em um papel legal. Só dois contos! Vou levar! Eu poderia ter comprado aquele gibi com umas poucas moedas. Há quanto tempo eu não via isso?

A HQ fcou lá na pilha das ainda não lidas, até que num belo dia eu precisava com urgência de um gibi para leitura rápida (não me pergunte por mais detalhes) e lá estava a Marvel + Aventura n.º 1, com a republicação de Animal Ferido.

Na história, a surreal origem da Lady Letal e seu primeiro confronto com Wolverine. É natal em Nova York e a participação da Chispinha (Energizer, no original – quem foi o tradutor disso?) a caçula do Quarteto Futuro, passa longe de dar uma alívio na tensão da história. Muito pelo contrário. E o Wolverine? Aparece na história depois de ter tomado uma sova tão grande que o fez  perder até a razão. Nada parecido com o personagem de hoje, dono de um fato de cura sem limites. Aquele é o Wolverine animalesco, violento e imprevisível.

O argumento é de Chris Claremont – digam o que quiser, mas o cara é um dos maiores roteiristas de quadrinhos de todos os tempos – e os desenhos e cores de Barry Windsor-Smith, outro grande mestre dos quadrinhos. E as cores de Windsor-Smith são um show à parte. À mão e sem qualquer efeito brega de photoshop.

Ler esse gibi me fez voltar no tempo e tirar uma dúvida nerd-existencial: como eu podia ser tão besta a ponto de gostar tanto de uma coisa tão idiota quanto os X-Men? Como aqueles personagens podiam me agradar tanto? A resposta é que, se há algum problema não é com os fãs, mas com as histórias atuais. E muito do que me agradava e que me fez tornar um fã, roteirista e articulista de quadrinhos estava ali naquelas poucas páginas vendidas a menos de R$ 2,00.

Quem lê esse texto pode achar que se trata de uma obra-prima. Não é. É apenas uma HQ como as HQ's devem ser:  acessíveis, bem feitas, depretensiosas e marcantes. Eu, particularmente, não procuro nada além disso em uma revista em quadrinhos e fico muito feliz quando encontro algo assim, o que é cada vez mais raro. Talvez por quê o mundo seja mais chato hoje do que era há 25, 26 anos atrás. As crianças não cantam mais "atirei o pau no gato", os quadrinhos indie não trazem mais andróides amantes de prostitutas juvenis, mas sim melodramas pessoais absurdamente chatos, as editoras pensam seus quadrinhos para vender para o governo, pra comprar gibi com o dinheiro do lanche o guri tem que comer caviar na cantina e o  Wolverine agora é membro dos Vingadores.

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.