O MUSEU DO CARTUM DA CORÉIA

O prédio da Komacon, do outro lado de um complexo emaranhado de viadutos e passarelas, despontava como um grande navio (um Titanic sem futuro sombrio no fundo do mar). Lá funciona um conglomerado de agências e escritórios ligados ao quadrinho coreano e , no prédio ao lado, o espaço de exposições com auditório e o maravilhoso Museu do Cartum que conheci seis anos atrás. Este museu foi montado em 2001 dentro do Estádio de Esportes de Bucheon e já era um exemplo do respeito que a cidade tem por HQ e Cartum. Mantido pelo Ministério da Cultura e Turismo e pelo Centro de Informação do Cartum, o Museu tem um acervo de originais e reproduções de cartuns e quadrinhos desde 1909. O curador e também cartunista Yong-Cheol Lee estava lá no prédio novo da Komacon, cuidando do Museu. Este é um país que preza a sua memória artística e respeita seus profissionais.

É lamentável relembrar do fechamento do Museu das Artes Gráficas de São Paulo, em 2003, no (des)governo Alckmin por sua secretária de (des)cultura Claudia Costin, atual secretária de (des)educação no Rio de Janeiro. Nesta entrevista, Gualberto, um dos criadores do projeto, explica como tudo aconteceu e uma representante da secretaria tenta responder:

Clique aqui para conferir a entrevista.

Quando participei do World Comics Conference na Coréia, em 2005, senti uma enorme vergonha. Vergonha de ver a cultura sendo jogada na sarjeta de meu próprio Estado, há décadas, por governos tucanos.

OK, tem as Viradas Culturais e a Lei ProaC, que patrocina quadrinhos, menos mal. Mas é POUCO para o Estado mais rico da União. É muito pouco para quem desvia tanto dinheiro público…

Hoje, quase 10 anos depois do fechamento do único Museu do Cartum Brasileiro, continua sendo uma vergonha. É uma demonstração da tal “eficiência tucana”, que constrói pedágios caríssimos, desvia verbas, aumenta tarifas, privatiza (a preço de banana) empresas estatais, sucateia a saúde e a educação, recebe propinas do Rodoanel e da máfia das ambulâncias, utiliza Caixa 2 (que tanto denuncia nos outros partidos) e superfatura a expansão (ou sub-expansão) do Metrô paulistano. E diz que não pode gastar por ano R$ 120 mil com um Museu do Cartum.

 

MOU

Assinei em nome da AQC (Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas SP) dois tratados de cooperação com Korean Cartoonists Association e Cartoon and Animation Society of Korea. Com toda pompa e circunstância. Os asiáticos capricham nessa parte oficial da coisa.

 

AS CONFERÊNCIAS

bicof.com

O 14.º Bucheon International Cartoon Festival aconteceu de 17 a 21 de Agosto de 2011 no Korea Manhwa Museum, Bucheon Media e Culture Complex.

Organizadores: Gyeong-gi Do/ Bucheon-Si / Korea Manhwa Contents Agency

Com o apoio do Ministério da Cultura, Esporte e Turismo, Korea Creative Content Agency, KOTRA, Korea Cartoonist Association, Cartoon and Animation Society in Korea,  Korean Society of Cartoon and Animation Studies, Korea Cartoon and Animation Distribution Association, Korea Cartoon Association, Bucheon Cultural Foundation, Bucheon Philharmonic Orchestra, PIFAN e PISAF.

Na abertura “Prospectos para o Mercado de N-Screen” foi o tema da palestra de Baek Won-Jang, Milton Griepp (ICV2) falou da Produção de Quadrinhos Digitais nos EUA e distribuição no mundo.

Sobre “Quadrinhos e Tecnologia, produção e venda de Quadrinhos virtuais em computadores e Iphones” falou o também norte-americano David Steinberger (ComiXology).

Pak In Ha (professor Universitario) e Oh Tae-Yup (Editora Daewon) fizeram perguntas a ambos.

Eu falei sobre “Mudancas Tecnológicas e Mercado de Quadrinhos no Brasil atual em era de produção globalizada”, enfocando experiências como o Coletivo de Quadrinhos Quarto Mundo e Quadrinhopole Editora.

“Digitalização de Arquivos do Museu de Quadrinhos em Angouleme” ficou a cargo da francesa Catherine Ferreyrolle. Nós dois fomos sabatinados por Hong Jong-Min (Noorook) e Seong Dae-Hun (Kyoubo).

Sérgio Alves explicou primeiramente onde ficava o Brasil no mundo, inclusive editorial. Falou da importância da Escala Educacional/Larrousse no mercado editorial brasileiro, da sua atuação e dos investimentos na área de quadrinhos.

O norte-americano John apresentou os projetos editoriais da Blue Water. Representantes das Filipinas e Myanmar falaram de seus mercados. 

 

ENTREVISTA

Eu e Sérgio Alves fomos entrevistados pela equipe do brasileiro Rodrigo Febrônio (do programa Banca de Quadrinhos, que esteve na Coréia recentemente para produzir um vídeo detalhando o mercado do Quadrinho Coreano) e do coreano Min Cheol (Agência Creeck&River). Falamos sobre a entrada do Mahwa no ocidente, da importância desse contato Brasil-Coréia e do impacto da grandiosidade e profissionalismo que permeava todo o evento.

É só imaginar que num país de 49 milhões de habitantes, o mercado de Manhwa move quase US$ 40 milhões.

Sérgio Alves, Bira Dantas e Park

GIBI DE ÚLTIMA HORA

Sexta-feira. Passo a tarde pintando oito páginas de quadrinhos que mostram como a cultura oriental tem influenciado o Brasil nos últimos 40 anos, em especial ao meu trabalho. Na última pagina (que carrego na charge que ilustra este artigo) estão as caricaturas de Mestres do Cartum coreano. Imprimi cem cópias e deixei com o pessoal da Komacon para entregar aos amigos que conheci. No último dia, depois de comprar uma mala extra para carregar os quase 30 quilos a mais de Manhwas, fomos com os intérpretes Che e Mina, Kim e Cho a um parque próximo de Seoul.

Animais soltos, muito verde, montanhas e um museu no meio. Na entrada vi algo que parecia uma coxinha de galinha com um palito espetado. Sim, a legítima coxinha brasileira. E grande! Minha boca encheu de água. O National Museum of Contemporary Art tem destaque no cenário local. Mas achei chata a exposição de artistas franceses contemporâneos. Tudo muito conceitual e vazio, décadas depois de Marcel Duchamp, sem a sua genialidade revolucionária. Vídeos estranhos, pessoas brigando, temas insólitos. Para completar, as inspetoras com a sua chatice asiática reclamavam de cada comentário nosso, de cada assovio, mesmo quando o tema era música. A mostra de artistas coreanos foi tudo de bom. Gravuras em estilo antigo, telas experimentais – mas com arte – e fotos da época da guerra com o Japão. Lindamente tristes em seu preto e branco maravilhoso, sombras projetadas ao toque do medo.

Na saída, lembrei da coxinha. Disseram que era um empanado de salsicha, algo como um hotdog sem pão. Declinei. Mas o Cho resolveu que experimentaríamos larvas num inocente copinho de papel. Isso mesmo, LARVAS! Minha fome me fez devorar umas quniza. Estranhas, mas úteis num momento como aquele. Sérgio engasgou com uma, que ficou atravessada na goela.
No último jantar antes da viagem, fomos ao restaurante "Amigo" comer  – acreditem! – pizza e espaguete.

 

DESPEDIDA

Chegando ao aeroporto encontramos Kim Soo Yong (criador da série de Manhwa Hip-Hop), que filmou uma despedida emocionada: Cho falou da importância de nossa visita e de como nos considerava irmãos.

Essas demonstrações de amizade e respeito são muito bem-vindas em tempos em que a humanidade parece tão imersa na intolerância, na invasão, na guerra, na prepotência.

Há seis anos, o contato com os coreanos demorou para esquentar. No primeiro abraço – susto! – percebi que as maneiras asiáticas ainda imperavam. A troca de cartões, com apertos de mão e meneios de cabeça eram o “forte”.

Agora, abraços e beijos – já de início – mostraram que os coreanos estavam meio abrasileirados, apesar da infindável troca de cartões.

E a gente falando anniong hassaiô pra todo mundo, comendo com chopstick (hashi coreano), tomando soju e kimchi, mostramos que estamos um pouco coreanos.

Espero que essa aproximação continue rendendo frutos, muita amizade e, como diria o vulcano Spock: VIDA LONGA E PRÓSPERA!

 

Kamsá hashiminida (obrigado)!

 

Para conferir mais fotos, basta visitar o meu fotolog, clicando aqui.

 

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* Texto também publicado no site do Quarto Mundo.

— Como o Bira falhou na tentativa de virar herói, publica seu Tatu-man nos jornais Correio Popular e Graphiq. Faz parte do Coletivo Quarto Mundo e da AQC (Associacao de Quadrinhistas e Caricaturistas) SP. Toca gaita nas horas vagas, em eventos quadrinhisticos ou quando nao esta arrancando cabelo ( e tem muito) com os prazos apertados. Deve se mandar pra Coreia do Sul, pra falar do mercado dos Quadrinhos brasileiros, que acredita, nao esta desmoronando.