Livros, Filmes, Séries e Quadrinhos. A abordagem de uma mídia para a outra nem sempre é parecida, tanto em suas obras únicas quanto nas adaptadas. No entanto, é fato que quando nos interessamos por um tema, procuramos usufruir dele nas mais variadas maneiras possíveis. 

Foi com O Poderoso Chefão, filme de 1972, que comecei a me interessar pelas máfia no cinema. Passei aos outros filmes do gênero, e também naturalmente aos gangesteres, de Scarface a Inimigos Públicos, por exemplo. Parelalamente, busquei nos livros de Mario Puzzo e Mark Winegardner, toda a saga da família Corleone (O Poderoso Chefão) e de outras famílias mafiosas. Assiti séries de Tv, li e assisti filmes sobre o crime organizado brasileiro. Uma vez apaixonado pelas grandes histórias que esta categoria do gênero policial me proporcionou, fica difícil resistir quando me deparo com algum quadrinho com o tema nas prateleiras.

Neste post, pretendo deixar minhas breves impressões sobre as obras que se incluem nesta temática e que li ao longo do tempo: Violent Cases, Homem de Honra, Batman: O longo dia das bruxas e Scarface. Estas obras foram escolhidas por abordar um leque grande de possibilidades conjuntas a temática do post.

 

Violent Cases (de Neil Gaiman e Dave McKean):

A primeira obra de Gaiman e McKean, foi idealizada ainda quando ambos faziam faculdade. O jornalista e o artista plástico gostariam de fazer um quadrinho para leitores não convencionais, algo sem super heróis ou ficção científica. Com um editor como Paul Gravett e uma introdução de ninguem menos que Alan Moore, o álbum levou a dupla aos prêmios logo nas primeiras edições. Mas é fato que o roteiro profundo e dramático de Gaiman, aliado as artes de Dave, que já eram expressivas desde aquela época, funcionam perfeitamente para contar uma dais mais belas histórias do gênero. As lembranças e os pensamentos distorcidos de um menino, vítima da violência de Gangsteres que guardam suas metralhadoras em estojos de violinos é mostrada aqui de uma maneira que somente pode ser feita nos quadrinhos. O título segue o costume intraduzível de usar a língua em que foi escrito para sugerir mais de uma interpretação, aproximando Violin Cases (Estojos de violino) de Violent Cases (Estojos violentos). Obra totalmente original, que defende a visão de que um tema pode gerar boas histórias em todas as mídias. É Gaiman e McKean em grande nível já na estréia.

 

Homem de Honra, Os 10 mandamentos da Máfia (de Wagner Patti e Edson Leal):

A obra desta dupla brasileira busca imaginar a ação da Cosa Nostra, a mais famosa organização mafiosa italiana, em terras brasileiras. O problema é que a premissa não é tão fácil quanto parece, e a obra acaba parecendo mais com um trabalho de um fã de obras do gênero do que de um trabalho excepcional. A imigração italiana chegou a América trazendo consequentemente suas famílias mafiosas, mas foi muito mais notável neste aspecto nos Estados Unidos. Com diversas oportunidades para se desenvolver, novos negócios e acontecimentos históricos, se dissolveu em novas famílias, novas gangues e novos criminosos. Porém imaginar que a estrutura organizada e secreta seria análoga no Brasil de hoje, acaba se revelando raso demais. Se a proposta é simplesmente contar uma história ao melhor estilo O Poderoso Chefão situando-se no Brasil, bem, seria melhor que se passasse em Nova Iorque ou na Sicília, onde ela faz mais sentido. Nosso país tem suas particularidades que torna a tentativa parecer um pouco artificial. A obra, no entanto, transpassa o amor de seus autores pelo gênero, e por isso merece ser lida. É uma homenagem aos fãs do tema, arrisco dizer de fã para fã. A história acaba por ser interessante em diversos momentos, e os desenhos alternam entre imagens vetorizadas por softwares gráficos com ilustrações bem bonitas, essas sim, associadas as melhores partes da narrativa.

 

Scarface (de Armitage Trail e Christian de Metter):

O livro homônimo de Armitage Trail data do começo do século, e já havia gerado duas adaptações para o cinema, datadas de 1932 e 1983. Christian de Metter, então, teve a árdua tarefa de adaptá-la pela primeira vez para os quadrinhos. Sua narrativa por certas vezes fragmentada acaba funcionando muito bem, e os desenhos falam por si só. Desprentesiosa, diverte e representa muito bem o gênero, sem tentar se comparar ao livro e aos filmes. Já havia sugerido a leitura na dicas dos quadrados do mês, onde pode ser lido um pouco mais sobre.

 

Batman: O longo dia das bruxas (de Jeph Loeb e Tim Sale):

Nesta obra acontece a inspiração mais interessante que a máfia italiana e a famiglia Corleone (O Poderoso Chefão) trouxe para os quadrinhos. Já nas primeiras páginas, a família Falcone (mafiosos de Gotham City) aparece em cenas diretamente relacionadas com o filme. Além disso, o que mais cativa nos roteiros de Jeph Loeb é que ele resgata a personalidade de detetive do homem morcego, fugindo do herói sobrenatural com adversários mais exóticos possíveis, bastante comum hoje em dia. Os desenhos de Tim Sale são sempre maravilhosos, e ele consegue marcar seu estilo assim como Bruce Timm e Frank Miller fizeram com o personagem. A dupla de artistas também escreveu  Batman: Dia das bruxas, uma história que precede esta (mas que podem ser lidas separadamente),  Batman: Vitória Sombria (a sequência), e Mulher Gato: Cidade eterna (história paralela as tramas), todas com referências aos gangsteres famosos do cinema, mas nenhuma como O Longo dia das bruxas. Esta sim é o ponto alto, uma das melhores histórias do Batman e uma das melhores histórias de máfia nos quadrinhos. Duplamente recomendado.

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.