Tenho demorado muito a escrever meus textos pro QaQ, mas acho um bom sinal eu ficar pensando em vários que eu gostaria de escrever. Este tratará da série que adapta o personagem Lúcifer, saído das páginas de Sandman, para a TV e pode ser o início de uma série de textos falando de adaptações de quadrinhos para outras mídias.

Lúcifer Estrela-da-manhã (Morningstar, no original), como personagem de quadrinhos, surge no primeiro arco de Sandman, obra-prima de Neil Gaiman, quando o Senhor dos Sonhos, recém-liberto, precisa ir ao Inferno buscar um objeto que lhe pertence. Para tanto, não é tão cortês com o Rei do Submundo e tem um duelo (memorável, por sinal) com o demônio que está em posse de seu pertence.

Mais tarde, cansado de tudo aquilo, Lúcifer resolve largar o Inferno para trás e deixa a chave do mesmo com Morfeus, que depois de muito confabular com vários deuses, acata a decisão do Todo-Poderoso e um par de anjos “desce” para cuidar das almas condenadas, já que o Inferno precisa continuar a existir.

Carismático, Lúcifer ganha série própria, escrita por Mike Carey, figurinha carimbada nos quadrinhos Vertigo. Com alguns altos e baixos, chega aos 70 números e então o Primeiro dos Caídos alcança o que sempre quis: o poder de criação divina, mas não sem antes se aliar e enfrentar panteões inteiros de diversos deuses (orientais, nórdicos…), anjos, demônios e outras criaturas incrivelmente poderosas.

Meus estudos sobre anjos e demônios são bem rasos, e tudo o que sei aprendi nos quadrinhos. Lúcifer, também chamado de “Portador da Luz”, foi o primeiro anjo criado por Deus, seu preferido desde sempre. Porém, a criação dos seres humanos, dotados do livre arbítrio, deixou-o enciumado e, com um exército enfrentou seus irmãos e o próprio Deus. Derrotado, foi condenado ao Inferno onde deveria cuidar das almas condenadas à danação eterna.

A série de TV parte da premissa de que, entediado, Lúcifer deixa o Inferno para trás e vai tirar ferias na Terra, mais precisamente em Los Angeles. Não traz nenhuma referência ao Senhor dos Sonhos…mas aguardemos a adaptação de Sandman sair, um dia…

Diferente dos quadrinhos, nosso protagonista tem cabelos pretos, ao invés do loiro da HQ e possui “poderes” sobrenaturais (bom, ele é um anjo caído, ainda…) tais como descobrir o real desejo das pessoas, ser invulnerável e mostrar sua verdadeira face e o Inferno aos condenados.

Quando a série começa, Lúcifer já está na Terra há 5 anos. Nesse tempo ele abriu um bar-balada chamado Lux (luz, do latim, sacaram?) e continua fazendo seus pactos, dando oportunidades a jovens artistas principalmente, desde que façam um favor a ele depois. No meio dessa vida luxuriosa, regada a muita bebida e sexo, um crime à porta de seu bar, quando é morta uma de suas protegidas, coloca-o em contato com uma detetive da polícia local e ele decide, por conta própria primeiro, depois ajudando a detetive, desvendar o crime.

Basicamente, a cada episódio surge um crime e lá vai o demônio-mor ajudar a desvendá-lo. Não é um processo de redenção, de querer ajudar os outros, mas muito mais de poder condenar aquele que fez a coisa errada (afinal, é para isso que ele serve, não?).

No meio disso, surgem alguns personagens interessantes, deixando a série mais legal (como se apenas os diálogos de Lúcifer não fossem suficientes…): Mazekeen, a general demônio, companheira de Lúcifer, por ora na função de bartender, mas apenas esperando pra voltar ao Inferno. Amenadiel, anjo mensageiro que vem exigir a volta de Lúcifer ao Inferno e personagem que lembra a real função de Estrela-da-Manhã além da relação dele com seu Pai.

Outra coisa que não havia nos quadrinhos: Lúcifer começa a ficar cada vez mais humano, talvez pela relação com a detetive ou sabe-se lá o quê. Chegando ao ponto, até, de se consultar com uma psicóloga (!!!).

Conforme já mencionado, uma das melhores coisas da série são os diálogos do protagonista, que com seu sotaque britânico super carregado sempre deixa claras suas intenções (nem sempre muito boas, ele é o Diabo, oras), nunca esconde sua real natureza, mesmo que ninguém acredite nisso e, em alguns momentos, é até meio inocente. Outra coisa ótima na série é a trilha sonora, focada principalmente no Rock.

Não é a oitava maravilha do mundo. Séries policiais nunca me chamaram tanta atenção. A mais próxima dessa, só que incrivelmente superior, foi Dexter, com um dos anti-heróis mais legais ever. Mas Lúcifer, o anti-herói primordial, consegue segurar as pontas trazendo muitas coisas interessantes de se pensar, principalmente quando ele coloca em questão a relação dele com Deus. Ah, não tem a ver com os quadrinhos…Não, não tem tanto a ver, mas ainda assim diverte. A achei, por exemplo, melhor que Constantine, que até tinha muito dos quadrinhos, mas naufragou na 1a. temporada.

A série está sendo exibida na Fox nos EUA e está no 10o. episódio da primeira temporada, com a 2a. temporada já encomendada. Ainda não há uma emissora transmitindo a série no Brasil.lucifer1 lucifer2

— "Marcelo é advogado, historiador e professor de história. Nas horas vagas escreve sobre quadrinhos. Deixaria tudo isso de lado se fosse escolhido o Lanterna Verde protetor da Terra. Lê HQs desde que se lembra por gente. Sempre foi cercado por elas em casa ou na chácara do avô. Durante o curso de História as percebeu como fontes inesgotáveis de informação sobre seu tempo (tempo em que foram publicadas e tempos retratados em suas páginas) além de poderem ser usadas em sala de aula. Aí não parou mais e quer difundir ainda mais esse conhecimento sobre a Nona Arte."