Antes que alguém me pergunte: não.

 O QaQ não mudou o foco, digo, o quadro. E nem eu vou começar a fazer resenha de livros. Ainda estamos falando de quadrinhos, mas daqui a pouco.

Primeiro vamos falar sim de livros. E de um particularmente surpreendente – ao menos para a maior parte da população.

Lembro-me de quando, ainda criança, indo de ônibus para o centro de São Paulo, ficava impressionado com a quantidade de gente em frente à antiga unidade da FEBEM, na Avenida Celso Garcia. Não entendia o que aquelas pessoas todas faziam por ali.

Anos mais tarde, ainda criança, mas já com carteira assinada, fui fazer um trampo pro banco perto da Estação Carandiru. Fiquei uns quinze minutos olhando para aquelas janelas cheias de roupas e toalhas penduradas. Nessa época eu já entendia bem o que aquela gente fazia por ali.

E muito tempo depois e pouco tempo atrás, fiz uma apresentação com o Teatro Popular União e Olho Vivo na Penitenciária Feminina Dra. Maria Cardoso de Oliveira, na Rodovia Raposo Tavares, extremo Oeste da cidade.

E novamente fiquei impressionado. Gente comum, conversando, rindo, chorando, te filando um cigarro e aproveitando a oportunidade pra puxar papo. Não sou nenhum galã  (sou até bem comum, diga-se) mas recebi umas cinco cantadas naquela tarde – e isso com minha esposa ao lado!

Definitivamente, o sistema carcerário no Brasil (e em qualquer parte do mundo, acredito) é um Universo à parte, com códigos próprios, leis, sinais e comportamentos únicos. O tema já foi bastante explorado na mídia e nas artes, o que contribuiu muito na criação de uma visão romântica e distorcida de um mundo que deve ser – para se dizer o mínimo – um inferno. Obras mais sérias, como o livro Estação Carandiru de Drauzio Varella ou o impressionante filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, tem contribuído para desmitificar o tema e promover um debate mais amplo sobre a real validade do atual modelo de carceragem utilizado no país.

E é dentro desse segmento que podemos incluir um livro altamente instigante: Loucas de Amor, de Gilmar Rodrigues.

Gilmar é jornalista e roteirista de TV. Mas também não é nenhum aventureiro no mundo dos quadrinhos: foi editor da revista Dumdum Quadrinhos, além de diversas colaborações em outras revistas.

E seu livro lança luz a um tema muito pouco discutido e cercado de preconceitos, que o subtítulo na capa entrega de cara: Mulheres que Amam Serial Killers e Criminosos Sexuais.

Curioso? Eu também fiquei. Mais ainda por ter encontrado esse livro no meio da seção de quadrinhos da HQ Mix. A primeira folheada explicou o mistério: entremeado ao texto, temos diversas histórias em quadrinhos retratando o making off do livro reportagem, ilustradas por Fido Nesti.

Estava pronto para pagar quando o Gual (Gualberto Costa, cartunista, dono da HQMix e um dos caras mais gente boa e interessantes dos Quadrinhos) me perguntou se eu ia levar o outro também.

– Que outro, Gual?

– O que só tem os Quadrinhos.

Isso é oferecer doce pra criança. Então havia uma versão só com os quadrinhos do livro? Não só havia como trazia também material inédito que não estava no livro. É claro que comprei os dois e é aqui que começa essa nossa viagem.

 

O Livro

Não se enganem pela capa. Loucas de Amor é um livro sério, apesar da divertidíssima ilustração de Fido Nesti.

Gilmar trata com seriedade um tema altamente obscuro, cercado de lendas e preconceitos e, aparentemente, contraditório. Mas o faz com uma linguagem leve, alternando momentos de puro horror com passagens divertidas e se permitindo até alguns retratos de beleza poética incomum, conseguindo assim uma leitura pra lá de atraente, que captura o leitor da primeira à última página.

Mas é uma coisa de doido…

O que faz uma mulher desejar um homem condenado exatamente por crimes bárbaros contra outras mulheres? Que caminho tortuoso da alma faz alguém depositar seu amor em um estuprador? Como perdoar alguém que violentava, matava e mutilava suas vítimas?

Se você está pensando “porque é uma vagabunda”, errou feio. As respostas são muitas e muito mais complexas que a simplicidade dos rótulos “mulher de bandido” ou “vagabunda” oferecem.

E são essas respostas – ou ao menos um debate mais aprofundado em busca delas – que Gilmar propõe com o seu Loucas de Amor.

Mulheres comuns, com histórias bastante parecidas em alguns pontos e diversos em outros, mas com uma característica em comum: a irrefreável atração por criminosos sexuais – ou simplesmente “Jacks”, apelido roubado do serial killer mais famoso da história, Jack – o Estripador. Mulheres com uma devoção cega, capaz de perdoar até o crime mais hediondo ou – pior – creditar a seu autor uma inocência amplamente desmentida pelas investigações policiais e geralmente confessada pelo próprio acusado.

Mulheres desesperadas por um pouco de afeto, de atenção.

São relatos inquietantes, sobretudo daquelas apaixonadas por Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque (inspiração original para o livro) e a quem Gilmar reserva boa parte das 162 páginas da obra. Mas o assédio feminino não é exclusivo do mais famoso serial killer brasileiro, o livro também aborda casos de presos não tão midiáticos. E entre eles, o autor também reserva um capítulo especial a João Acácio Pereira da Costa, o famoso Bandido da Luz Vermelha, imortalizado no imaginário popular pelo (excelente) filme de Rogério Sganzerla, de 1968.

E entre um capítulo e outro, frente ao olhar atônito de seus leitores, o livro nos presenteia com pequenas doses de descanso e humor, num recurso genial – ainda que diabólico – Gilmar se alia a Fido Nesti para nos contar histórias ligadas ao processo de produção do livro. E isso em quadrinhos.

E quem conhece os quadrinhos do Fido já imagina o que vem por aí…

 

O gibi – dentro e fora – do livro

Muito já se falou sobre a universalidade e a capacidade de infiltração da linguagem dos quadrinhos. Disso eu, particularmente, não duvido. Não foi lendo Joyce que aprendi a produzir um texto, foi com Stan Lee, Alan Moore e Neil Gaiman, embora admita que Garcia Marquez e Chico Buarque tenham um grande papel sobre a minha (pouca) habilidade em produção textual.

Gilmar e Fido também devem saber desse poder inerente às narrativas gráficas. A ideia não é original, ninguém inventou a roda, mas eles fizeram isso de maneira deliciosamente competente…

As histórias em quadrinhos ali, narrativamente falando, possuem uma função bastante clara, aliás, várias funções: funcionam como uma fixação de conteúdo, contextualização do ambiente em que o autor se inseriu para a produção do livro e contraponto humorístico a um tema extremamente delicado.

Mas isso é assunto de acadêmico – o que definitivamente não sou.

E quer saber?

Elas funcionam – e muito – como quadrinhos.

É curioso ver as roubadas e saias justas em que Gilmar se meteu para pegar seus depoimentos. Ele poderia ter escrito quarenta páginas de texto para nos contar, mas de oito em oito páginas em histórias curtas deu o recado de uma forma brilhante.

E daí temos que reservar um capítulo à parte ao Fido. Seu traço irreverente é genial e seu domínio narrativo invejável, transformando eventos relativamente comuns na vida de qualquer jornalista – ainda que inusitados – em histórias em quadrinhos deliciosas. Um simples passeio na periferia se torna uma aventura nas páginas iniciais de “As Mulheres dos Jacks”, um amor de adolescente assume tons shakespearianos em “O Bandido Uiva pra Lua” e a desolação se instala na crua e cortante “Cartas Marcadas de Batom”.

Prova dessa funcionalidade é a publicação de “Loucas de Amor em quadrinhos”, que reúne as histórias publicadas no livro e outras inéditas, feitas especialmente para a edição e onde somos novamente presenteados com pérolas sobre o tema. “Os Tranqueiras” dimensiona com exatidão os sentimentos que movem mulheres a se apaixonarem por essa categoria de criminosos, “Eu não sou Jack” denuncia um verdadeiro caso de inocência num tipo de crime em que todos assim se declaram, “Querido Diário” mostra um trágico desfile dos criminosos mais famosos da história e o “Anão de Ananindeua” fecha o material inédito na mais divertida aventura do álbum.

Em poucas palavras, as histórias dentro do livro fazem toda a diferença e a publicação solo dos quadrinhos se sustenta por si.

Mas o melhor mesmo é ler as duas publicações, uma em sequência da outra, aliando informação e entretenimento na tentativa de entender um quadro único, estranho e por vezes asqueroso, mas ainda assim com dimensões sociais reais e identificáveis, familiares a qualquer pessoa comum – com ou sem conhecimento de causa – e, supreendentemente, humano.

 

 

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.