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► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

 

MausTem coisa na vida que não há como explicar, muito menos ficar indiferente. Como descrever as dificuldades no sertão nordestino, por exemplo? Os ataques de 11 de Setembro? O Holocausto? A fome? Complicado, convenhamos.

Meu pai, que está beirando os 60 anos, conviveu com a seca no Nordeste, mais pesada na década de 1970. Morador de um casebre de pau-a-pique no agreste pernambucano, com onze (isso mesmo, 11!) irmãos, veio para São Paulo jovem, por volta dos 18 anos. Ele lembra da mãe ‘jogando-o’ na caçamba de um caminhão (o famoso ‘pau de arara’) com uma malinha recheada de poucas roupas e a benção: “Meu filho não vai morrer aqui de fome. Vás-te embora, João, que Deus o acompanhe”, ela disse.

Essa passagem veio em mente quando li a HQ ‘Maus – A história de um sobrevivente’ (obra completa, Quadrinhos na Cia./selo da Cia. Das Letras) de Art Spiegelman, que caiu nas minhas mãos por acaso, naquelas conversas virtuais que aparecem do nada e depois somem, mas deixam coisas boas, como essa (grata) sugestão. Até então, só sabia do trabalho de Spiegelman pela internet mesmo, lendo alguns artigos sobre guerras. Acho que é influência de papai, que gosta do mesmo assunto.

‘Maus’, que significa ‘rato’ em alemão, foi dividida em duas partes, uma publicada em meados da década de 1980 (‘I – Meu pai sangra história’), a outra por volta dos anos 1990 (‘II – E aqui meus problemas começaram’) e em 1992 o conjunto recebeu nada menos que um Pulitzer. (Em 2011, foi lançado Metamaus’, um compilado da obra, com curiosidades, rascunhos e DVD com áudios do pai, vídeos e entrevistas. Ainda inédito no Brasil.)

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Spiegelman conta a história de seu pai, Vladek, judeu polonês sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, bem como a trajetória de sua família. Interessante foi a maneira como as personagens são descritas: judeus são ratos, já os poloneses não-judeus têm traços de porcos, nazistas como gatos, franceses, sapos, americanos, cachorros, suecos, alces.

O mais intrigante é que o autor não ‘empurrou com a barriga’ fatos íntimos e delicados, tampouco usou a fórmula ‘água com açúcar’ para descrever as infâmias de Hitler. Singeleza, preto e branco e sensibilidade formulam, quadro a quadro, o suicídio (considerado no judaísmo imperdoável, e Spiegelman transpareceu isso em ‘Prisioneiro do Planeta Inferno’, presente nesta HQ) de sua mãe, Anja, os conflitos com o pai, as idas ao terapeuta, as propostas de outrem para tornar ‘Maus’ um mero produto.

Inclusive, provocou: será que falar do Holocausto é ‘exorcizar’ uma culpa? Afinal, trata-se da história de um sobrevivente contada a alguém que não passou por tal atrocidade. Spiegelman, literalmente, correu o risco.

A comparação que fiz no início (Nordeste e Holocausto) não foi à toa: tratam-se de situações-limite, em que nossa condição humana mostra-se ainda mais frágil. É ‘quando o sapato aperta’ que percebemos o que podemos fazer por si, pelos outros e vice-versa.

Exemplo? Logo nas primeiras páginas de ‘Maus’, o autor relata uma passagem de sua infância, na Rego Park nova-iorquina de 1958. Numa aposta para ver quem chegava primeiro na corrida com patins, ele escorrega e sai mancando, sem a ajuda de seus companheiros. Choroso, fala a Vladek o que acontecera, que, sabiamente, responde: “Amigos? Se trancar ‘elas’ em quarto sem comida por ‘um’ semana, aí ver o que é amigo!”

 “É a lei do cão”, diria meu pai.

Ou seria a do gato, a da ‘febre do rato?’, eu questionaria.

Coisas para pensar.

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...