Por Danielle Costa*

 

 

 

Paris é uma cidade romântica, antiga, cheia daquilo que Walter Benjamin, grande pensador da escola de Frankfurt, chamou de Aura. Algo que não sabemos definir, mas que nos atinge profundamente.  Descobrir que Paris, além do óbvio para turistas, atende um público muito específico, foi uma grata surpresa. Por mais que saibamos da qualidade e do mercado de Quadrinhos Europeus, ele se torna meio mistificado até nos depararmos com ele e, finalmente, encontrarmos a terra prometida. E acreditem em mim, encontramos o Oásis.

Não pensem que a chamada Bande dessinée é uma seção dentro de uma livraria. Não. Definitivamente não. Há vitrines e mais vitrines dedicadas apenas a quadrinhos. Não só europeus. Quadrinhos dos mais variados. Até Mauricio de Sousa eu achei, na Gilbert Joseph, uma das maiores livrarias do Quartier Latin. No Louvre. No Centre George Pompidou. Na Pinacothèque. Livrarias de um quarteirão inteiro, como a Albùm, perto da Rue dês Ècolles.

Então, qual não foi minha surpresa, ao sentar em um Café para beber uma coca-cola e ouvir dois parisienses, em seus cinqüenta anos, discutirem Corto Maltese e um dizer ao outro sobre a exposição na Pinacothèque sobre Hugo Pratt.

Mais do que depressa eu me virei e perguntei onde ficava a dita cuja. Simpáticos, ao contrário da crença popular, explicaram-me como chegar lá. A facilidade da situação consistia em que eu já estava no bairro certo, Boulevard de La Madeleine. Foi preciso, apenas, andar duas quadras. A Pinacothèque fica em frente de uma famosa Patissèrie, chamada Fauchon. Ou seja: você vai a exposição de Hugo Pratt, depois se senta na Fauchon, pede um café, come um quiche e observa a vida passar, como diria Charles Baudelaire.

Eu fiz isso tudo. O espaço da pinacoteca é lindo, de muito bom gosto. Em uma certa medida, o Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, tem a mesma aura (voltamos a ela). É intelectualmente um espaço atrativo. O que apavora um pouco são os seguranças senegaleses. Não se intimide. Entre.

A exposição toma todo o segundo andar e termina no térreo. Ela está dividida em 3 partes: A apresentação, que conta com um texto primoroso do curador da Exposição, Marc Restelli, ao qual tenho o prazer de transcrever o primeiro parágrafo:

Como a fotografia, a Banda Desenhada nos questiona. Nos Intriga. Nos provoca. Ela suscita e inflama o debate do que seriam as ditas “Artes superiores” em comparação às “Artes inferiores”. O criador de quadrinhos seria um artista de fato? A grande questão a ser estabelecida, no entanto, é se o seu status seria o mesmo de um escultor ou de um pintor, mesmo que supostamente, sua arte seja para as grandes multidões, a massa, e não para as minorias intelectualmente superiores.”

Certo? Errado. E Hugo Pratt provou isso. Eu adoraria ter tido tempo de traduzir ou copiar todos os textos da exposição, mas era proibido tirar fotos. A segunda parte nos apresenta a África retratada por Pratt e todos os seus tipos exóticos. A terceira é dedicada às mulheres.  E Corto. Sempre Corto, por todos os lados. Vemos aquarelas, desenhos com Nanquim, bico de pena, Crayon. E o melhor: todos têm comentários de Pratt escritos por todas as páginas. Coisinhas que ele queria mudar, pensamentos de Corto sobre determinadas coisas.

Na última sala, a melhor parte e a mais demorada. 150 tiras distribuídas pelas paredes, de cima a baixo, de Corto. As quatro paredes. De cima a baixo. E as pessoas, sentadas pelo chão, lendo. Absolutamente…Lindo.

Abaixo veja um vídeo da exposição e de Hugo Pratt trabalhando (em francês, bien sûr):

A exposição sobre Hugo Pratt vai até o dia 21 de Agosto e a entrada custa 10 Euros.  Se você estiver por Paris até esse período, dê um pulo Lá.

Maiores informações no site:  http://www.pinacotheque.com/

Endereço: 28, place de la Madeleine, 75008 Paris 8° arrondissement

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* Correspondente Internacional do Quadro a Quadro.

Mestra em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professora de Literatura Brasileira.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...