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Em um mundo onde a exigência é ver e ser visto, a mais difícil das tarefas é descobrir-se dentro de nós próprios. E as maneiras podem ser diversas: uns peregrinam, outros buscam na mística, na música, já muitos só querem uns dias de descanso. Mas, amigo leitor, em algum momento da vida, se faz necessária essa busca. E nesse encontro, percebemos que somos nada além de produtos do passado. Thiago Souto (autor de "Mikrokosmos") usa do passado que adentra nosso ser para a construção do Quadrinho “Time Lapse” (número 5; Ugrapress). 

O segundo trabalho do autor é pertencente da coleção Ugrito, gibis de bolso, de tiragem bimestral, produzidos por vários autores (cada edição é um diferente) e com temas mais ainda variados, do escatológico ao escândalo para ser mais exata.

Em “Time Lapse”, um homem está com um presente para ser despachado no correio e, durante a espera de atendimento, encontra nada menos que ele mesmo, só que mais idoso! Ou seria o contrário? 

O autor toca em um ponto que, em geral queremos sempre ignorar: a brevidade. É bom fixar essa lembrança, porque em tempos de “tudo-pra-agora-já”, a velha negação do inevitável fim, inclusive o de nosso próprio, fica para escanteio. Esforçamos para fazer traquitanas revolucionárias, objetivadas principalmente em economizar tempo, porém não conseguimos nem analisar com serenidade o que acabamos realizar no exato instante. 

ugrito_5_c“Alguém te perguntou como foi o seu dia?”, eis a questão que ecoa nas canções e nos peomas, mas Souto foi além em sua HQ, usando para isso o seu traço sutil, que lembra, aliás, um devaneio, rascunhos que brincam nas páginas. Ele nos convida a adentrar nas sinapses do destino para falar de fragmentos de subjetividades, desses lapsos que teimam em aparecer quando menos esperamos, dos espelhos que quebramos todos os dias para parar (em vão) o tempo, quando não queremos congelá-lo e por vezes rejeitá-lo.

Não sei se Thiago Souto chegou a tal conclusão, mas o caminho em “Time Lapse” foi, como diria os poetas, “deveras” perturbador. Afinal, a vida é uma corrida eterna contra o tempo. 

E nesses contratempos, quando pensamos que estamos perdidos e desventurados, encontramos nosso verdadeiro ser. Se assim permitimos, obviamente.  
 

  
 

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1