Na noite de ontem, finalmente pude apreciar o prazer de ler a edição comemorativa da criminologa mais charmosa que esse país já conheceu: J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga #100 trouxe-me parte de um sono apaziguante, pois convenhamos, como não se encantar por uma personagem que foi baseada na Audrey Hepburn?

Logo de cara, o roteirista e criador da série, Giancarlo Berardi fala um pouco dos encantos pelo Brasil em uma mensagem especial feita exclusivamente para esta edição brasileira. No editorial, apresenta algumas reflexões sobre o processo e criação de Júlia e os agradecimentos. Nesta parte, ele se utiliza de uma fala do magistral Sergio Bonelli: "Eu aposto no roteirista, não no personagem!". É bom ler este tipo de coisa, é bom perceber que mesmo numa industria em franca ascenção, o fator humano é valorizado com tanta honestidade.

A trama desta edição não difere das muitas outras da série, entretanto, sob o traço do Giorgio Trevisan (que também já trabalhara com Berardi em vários momentos do Ken Parker), tudo parece uma coisa nova. Nesta, Júlia tenta desvendar os mistérios da morte de um homem e tal busca a leva para o mundo do circo. Berardi é um homem que gosta de sutilezas, gosta de fazer referências bem inteligentes e o exagero nas atitudes de alguns personagens nos faz pensar que algo que os leitores vivem esperando finalmente se concretizou ou está muito próximo. E algumas reflexões de Júlia nos leva a crer que algo a mais está acontecendo com ela.

 

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O ponto negativo da edição é o coito interrompido do fato da impressão ter sido em preto e branco. A edição estava prevista para sair colorida, assim como a versão italiana e a possibilidade de ver o traço do Trevisan em cores me deixava com água na boca. E então a edição é lançada em pb, trazendo aquele clima de frustração tão chata que existe quando as boas coisas da vida não se completam.

A justificativa é aceitável. A muito desgosto. Como a série vinha tendo problemas com atrasos com as gráficas, a Mythos decidiu não acentuar esse atraso com a impressão a cores. E claro, mais uma justificativa para não espantar os leitores: o encarecimento da edição. É compreensível? É sim. É frustrante? É sim. E o que podemos fazer com isso? Seguir com a vida.

Ok, podemos fazer alguma coisa sim. Estes problemas de distribuição e impressão acontece pelo fato de Júlia ter parcela muito pequena de leitores em relação a outras vertentes da industria de quadrinhos publicadas aqui no Brasil. Até mesmo dentre os leitores de outros títulos da editora, a parcela é pequena. A série foi ameaçada de ser cancelada por esses motivo e até agora ela vai sobrevivendo aos trancos e barrancos.

Sim, e o que podemos fazer mesmo? Atrair novos leitores. E como se faz isso? Incentivando a leitura. Como? Sacrificando duas cerveja ou três refrigerantes do seu mês, comprando mais uma edição de Júlia e oferecendo a um possível novo leitor de Júlia. E como reconhecê-los? Se você possuir a percepção de notá-los, a conversa fará o restante.

Resultando em boas vendas, a Mythos poderá investir em usar o serviço de gráficas mais profissionais, prazos serão cumpridos e quem sabe até mesmo o relançamento da edição #100 colorida?

Não custa nada sonhar. 

E para finalizar este texto longo, ergamos nossas taças imaginarias em façamos um brinde em homenagem a todos aqueles envolvidos na produção desta série que muita alegria me dá em sua leitura. Em especial aos leitores, pois é com eles que o texto se transforma.

 

Saúde!

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.