Em primeiro lugar tenho que contar uma coisa: já fui Dom Pedro I e não me orgulho disso.

Não, não, não… guardem a  camisa de força! Eu tinha uns 10 anos e foi num teatrinho da escola, lá em Divinópolis. O nome da minha professora era Merilu. Na época ela tinha lá seus 30 e poucos anos, magra, rosto delicado, pele bem branquinha contrastando com longos cabelos muito pretos (o nome é fictício – vamos evitar processos – mas a descrição é real). Pré-adolescência, professora gata e a matéria mais legal do colégio. As aulas de História eram as mais aguardadas, certo? Errado! A Sra. (ou seria senhorita?) Merilu mais parecia professora de matemática de tantos números que havia nas suas aulas. Era pura decoreba de datas. Além disso a bonitinha era mais conhecida pelos seus berros com os alunos do que pela capacidade de nos envolver com o conteúdo das aulas.

Nisso, ser escolhido para o papel de Dom Pedro I não foi uma coisa legal. Para o pequeno leitor de X-Men que eu era, aquele personagem não passava de um tiozão com um chapéu ridículo e um bigode pior ainda. Dei lá meus gritos de "diga ao povo que fico" e de "independência ou morte", mas sem nenhum entusiasmo. E assim caminhava o ensino História do Brasil…

Mas antes que comecem a reclamar, estamos aqui para falar de HQ, não dos meus traumas escolares. 

 
O ano é 1808, auge das guerras napoleônicas. Dom João VI, Carlota Joaquina e toda a patota Real Portuguesa se refugiam no Brasil.
 
1822. Pedro Mão de… digo, Dom Pedro I proclama o Brasil como estado independente de Portugal.

Essa história você conhece, certo? O que ninguém imaginava era a participação dos mortos-vivos nisso tudo. Sim, mortos-vivos, zumbis, walking deads! Esse é o plot de Independência ou Mortos, álbum assinado por Abu Fobiya (roteiro) e Harald Stricker (desenhos), lançado no último dia 7 de setembro (óbvio) pelo selo Nerdbooks, do site Jovem Nerd.

Na trama, uma peste de zumbis acomete a nau Príncipe Real, que trazia Dom João VI e família para o Brasil. Anos mais tarde, já em terras tupiniquins a praga está devolta, fazendo com que o bombado e bigodudo Pedro I – ou, se preferirem, Pedro Mão de Martelo – tenha que recrutar um "time" para defender o Brasil dos portugueses e dos mortos andantes.
 

Tenho que admitir que gosto bagarai de HQ's ficcionais com uma contextualizacao histórica bem feita e o roteiro de Abu transborda uma detalhada pesquisa histórica, o que ao mesmo tempo em que enriquece muitíssimo a trama, em alguns momentos desfavorece o ritmo da narrativa pela quantidade de informações que o autor insere no texto. Mas nada que torne a leitura truncada ou cansativa, pelo contrario, são quase 150 páginas de quadrinhos estreladas por Dom João, Dom Pedro e outras figuras históricas (não se esqueçam dos zumbis) proporcionando uma leitura bem agradável, que passa num instante. Mérito do roteiro bem elaborado e das ilustrações caprichadas.

Aliás, para quem ainda não fez a ligação, o roteirista Abu Fobia não é estreante nos quadrinhos, este é o pseudônimo de Fábio Yabu, autor dos Combo Rangers (por onde andam?) que já tiveram até HQ mensal pela Panini. Yabu, alias, dá uma certa indicação de esquizofrenia nessa edição, por que ao mesmo tempo em que assina o roteiro como Abu Fobiya, recebe os créditos pelas letras e balões como Fábio Yabu. Típico caso de dupla personalidade quadrinística.

 Outro grande destaque da HQ é a arte rica em detalhes de Harald Stricker. Seu traço o sombrio traz algumas pitadas cartunescas, o que casa perfeitamente com o clima do roteiro: uma história de horror com bom-humor.
 
Também é um grande mérito da arte de Stricker – não me deixem esquecer de dizer o quanto às vezes seu traço me remete ao Kelley Jones (Batman – Chuva Rubra) – é o cuidado com a ambientacao, as embarcações, os prédios históricos, os símbolos e tudo mais: só pra citar alguns destaques entre muitos: as naus da travessia Portugal-Brasil, a Quinta da Boa Vista, a Universidade de Coimbra, o globo da Ordem de Cristo enfeitando um navio em alto mar… são muitos os quadros para se deter e apreciar por alguns longos minutos.

Algumas coisas na HQ podem parecer estranhos para quem não contextualizar a edição. Lembrem-se que é uma HQ da Nerdbooks, do site Jovem Nerd.  Portanto são comuns alguns anacronismos com o objetivo de dar maiores referências ao universo nerd, como o chamado "Time" Dom Pedro (pelo menos não usaram team) e à Princesa Leopoldina apoiando um fuzil na altura da cintura, ao melhor estilo Chuck Norris.  Mas nada disso prejudica a obra, só reforça que não é uma HQ com objetivos didáticos e acaba tornando o conjunto mais divertido. 

Entre várias liberdades históricas usadas pelos autores, uma não pode deixar de ser considerada verdadeira "canelada": é quando o "Time Dom Pedro" passa por uma Belo Horizonte enladeirada e cheia de casarões. Acontece que o cenário é de Ouro Preto (na época em que se passa a HQ, Vila Rica).  Belo Horizonte na década de 1820 era só um pequeno arraial. Veio a ser cidade mais de 70 anos depois. Ok? 

 

Vale mencionar o ótimo e raro trabalho de edição feito pela dupla Deive Pazos e Alexandre Ottoni, conhecidos como Azaghal e Jovem Nerd. Raro por que  o trabalho de edição de quadrinhos adultos no Brasil quase sempre se resume em traduzir e compilar edições estrangeiras ou selecionar obras autorais, dificilmente influindo no conteúdo. Não é o que aconteceu aqui, pelo que se vê – ou melhor, se ouve – no podcast comandado pela dupla. Ainda quanto ao trabalho de edição, o livro também ficou muito bonito. Capa dura, papel couchê de alta gramatura e impressão bem feita, formato 26,5×17,5 com. Mas apesar da bela apresentação eu trocaria a capa dura ou mesmo a gramatura do papel por um formato um pouco maior, que privilegiasse mais a arte detalhada do Stricker e aumentasse um pouco o tamanho das fontes no letreiramento.

No fim, uma HQ que merece ser lida, feita por autores e editores competentes, tratando a História do Brasil como deve ser tratada em uma HQ: sem didatismo, sem ter o governo como público alvo e de uma forma bem divertida. Sem dúvida um dos melhores quadrinhos brasileiros lançados este ano.

Se Independência ou Mortos existisse quando fui Dom Pedro no teatro da escola eu teria gostado muito mais de fazer o papel. Só que algum colega ia ter que fazer o papel do Chalaçafiel escudeiro do Pedro Mão de Martelo, só pra eu poder dizer: Chalaça, segura a minha camisa!

Serviço:

Título: "Independência ou Mortos"

ISBN: 9788591327720

Páginas: 160

Apresentação: Capa dura, miolo preto e branco em papel couché

Autor: Abu Fobiya

Ilustrador: Harald Stricker

Arte-Finalistas: Victor Estivador, Vilmar Rossi Júnior, Michel Borges, Evandro Bertol

Preço: R$ 49,90 + frete (à venda somente no site da editora)

 

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.