É sempre uma grande responsabilidade fazer uma resenha sobre o trabalho de alguém, porque você se pega imaginando: E seu eu não gostar? E se for ruim? Como lidar?

Bom, para minha sorte, ainda não tive este problema. Diante do crescimento da produção de quadrinhos autorais no Brasil, a vontade que tenho é de ler tudo e independente do gosto ou opinião, sinto muito orgulho de ver o quanto nossos artistas não devem nada aos artistas estrangeiros.

Outro ponto importante que preciso mencionar é que em novembro estive no seminário de HQs e Horror da Biblioteca Pública de Niterói e o professor e pesquisador de HQs Carlos Patati afirmou que o Brasil não é e talvez nunca seja uma referência em histórias de super-heróis, porém, quando se trata de HQs de terror e suspense, nosso país é pioneiro em diversas formas.

Dito isto, diria com tranquilidade que a HQ Novembro de Victor Freundt e Bruno Bispo, lançada pelo selo BispoFreundt, tem tudo pra se tornar um dos expoentes do estilo detetive noir, que teve seu auge nos anos 40 e 50, cujos ingredientes básicos continuam a atrair um público fiel ao gênero (particularmente gosto muito).

Antes mesmo de ler a história e sem saber do que se tratava, ela já me agradou bastante visualmente: além das páginas duplas, a dupla Bispo/Freundt foi muito feliz ao conferir enquadramentos nada óbvios para a trama, o que no início da leitura pode dificultar um pouco o acompanhamento das falas por quem está mais acostumado ao formato dos gibis tradicionais, o que imagino não seja o caso do leitor deste tipo de HQ.  Há uma sequência onde o mistério é apresentado em forma de quebra-cabeças e cada peça é um quadro representando a perspectiva do policial. Achei sensacional! O uso de quadros no formato tradicional não faria mesmo muito sentido dada a profundidade dos 11910076_1648662698746874_1031500947_npersonagens.

Mas do que se trata a história afinal? Vou falar um pouco da sinopse para não dar spoiler, mas basicamente, um detetive (Lucas) que salva a vida de um garoto (Daniel) em um incêndio passa a encontrá-lo no mesmo banco de uma praça todo mês de novembro. Suas vidas foram entrelaçadas naquele incêndio e a partir daí, o rumo que a vida de cada um toma está ligado a este evento.

Como toda boa história de detetive, existe aquele momento: “Oh, não imaginava que isso fosse acontecer”,“ Oh, não esperava que ele fizesse isso” ou ainda “Oh, eu bem que suspeitava disso”, mas confesso que senti falta de mais páginas e maior aprofundamento das atitudes de Daniel. Acho que com mais detalhes, o leitor poderia construir melhor sua opinião a respeito do personagem e desenvolver seus sentimentos pelas atitudes dele. Como a HQ é curta, por volta de 40 páginas, eu senti que eu precisaria de mais tempo para me revoltar, sentir raiva de um, compaixão ou desprezo pelo outro.

Também achei que leria toda HQ em um embalo só, justamente por ser curta, mas como a trama é densa e com muitos detalhes, eu sugiro que o leitor aprecie sem pressa. Aliás, se você também curte aquelas histórias clássicas de detetive, com uma pegada meio Spirit do Eisner, com certeza vai gostar de Novembro, que pode ser adquirida aqui por apenas R$15,00!

No mais, concluo dizendo que a construção de toda narrativa feita em paralelo com uma das minhas parábolas favoritas, já seria suficiente para curtir demais a HQ, por isso, fiquem aqui com ela e a tenham em mente quando forem ler Novembro. Espero que curtam tanto quanto eu.

"Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio. O escorpião vinha fazer um pedido: "Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?" O sapo respondeu: "Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralisado e vou afundar." Disse o escorpião: "Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos." Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio. No meio do rio o escorpião cravou seu ferrão no sapo. Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: "Por quê? Por quê?" E o escorpião respondeu: "Porque sou um escorpião e essa é a minha natureza." 

 

Quem quiser saber um pouco mais sobre o trabalho de Victor Freundt e Bruno Bispo, segue o link. O Victor foi entrevistado recentemente no programa Papo Digital e falou um pouco sobre seus trabalhos anteriores também e sobre o fato de os dois serem amigos há mais de 15 anos, trabalhando juntos há pelo menos 8!

https://www.facebook.com/Bispo-Freundt-Hist%C3%B3rias-em-Quadrinhos-134120143341376/

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.