Reflexos do Real é o tema das 2a Jornada temática de Histórias em Quadrinhos que acontecem nos dias 12 e 13 de julho da Unifesp de Guarulhos. A exemplo do que ocorreu na primeira, a ideia é que os trabalhos apresentados foquem em um tema específico.

As HQ, como qualquer outra produção cultural, podem fornecer muito mais que entretenimento e no caso das narrativas biográficas ou até mesmo em algumas ficções, podem nos entregar pistas sobre contextos históricos dos quais não dispomos de muita informação, a exemplo do que ocorre durante as ditaduras ou golpes.

Por muito tempo, estudar o período ditatorial que se estendeu de 1964 a 1985 por meio da produção cultural da época era o único caminho para tentar compreender o caos e o terror que se instauraram no país naquele período. A documentação precária impedia a reconstrução do contexto da época e sobravam as artes e alguns depoimentos de ex-presos, exilados e políticos cassados, de pessoas que sofreram direta e indiretamente com a ação do regime militar, para que fosse possível sondar os escombros da história daqueles anos. As insubstituíveis relações entre literatura e história permitiram, entretanto, reconhecer algumas das forças atuantes no período. (AGAZZI, 1999, p. 2)

Quantos de nós não ficamos conhecendo mais sobre o horror dos campos de concentração a partir de filmes como o premiado a Lista de Schindler e Bestseller como A Menina que Roubava Livros? E HQ também podem compor esse enorme quebra-cabeças que se forma no intuito de se compreender estes momentos históricos.

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Por isso, os trabalhos apresentados este ano na Jornada versam sobre essa relação entre a ficção e a realidade sob uma perspectiva acadêmica. Entre os títulos que serão apresentados estão: O Eternauta, de German Oesterheld; Pílulas Azuis, de Frederik Peeters; Dois Irmãos, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá; Retalhos, de Craig Thompson; Maus, de Art Spiegelman e Bordados e Persépolis, de Marjani Satrapi.

O Eternauta, por exemplo, ficção considerada por muitos especialistas a melhor produção latino-americana, traz em sua segunda história uma grande crítica ao golpe militar e problemas sociais que seu país enfrentava nos anos 70. Nos EUA, Art Spiegelman retrata a vida de seu pai em Auschwitz com o premiado Maus e no Brasil também temos uma obra que aborda o nazismo em uma história em quadrinhos.

Ima – Sempre em Frente, de Eric Peleias, narra a trajetória de uma sobrevivente e fugitiva da segunda guerra e que eventualmente vem parar no Brasil. Com desenhos simples e uma narrativa leve, Peleias consegue contar a história de Júlia de forma muito didática, mostrando como sua personagem saiu da Áustria em um navio clandestino até sua vinda para o Brasil.

Biográficas ou ficcionais, as HQ estão sempre inseridas em um contexto e se elas o reproduzem de forma explicita ou implícita, o fato é que possuem grande potencial pedagógico no sentido de nos apontar certos elementos de nossa história e de como estes elementos são interpretados com o passar dos anos.

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Especificamente no caso da autobiográficas, além do conteúdo em si, o processo catártico por meio do qual o autor expressa e exterioriza suas angústias e problemas também funciona como um elo com o leitor, que ao experimentar as sensações do outro, pode se colocar em uma posição que o propicie um exercício de empatia.

Sendo assim, é sempre válido lembrar que embora a produção mainstream foque nas histórias de super-heróis, há muito tempo o mercado oferece uma gama muito mais ampla de opções de narrativas que podem agradar os mais diversos públicos, por isso, o que você está esperando para dar uma variada na sua coleção?

               

Referências:

 http://www2.eca.usp.br/jornadaquadrinhos/programacao.html

http://www.peleias.com.br/

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8149/tde-01122014-152012/pt-br.php

 

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.