Esse texto começou como uma participação para a sessão “Dicas dos Quadrados”, mas acabou se estendendo e achei melhor fazer um post em separado.

Em primeiro lugar, sim, estou atrasado com a leitura. Esse arco é de 2003 e foi publicado no Brasil em 2010. Mas nem é tanto por estar com a leitura atrasada, mas sim por que eu havia decidido ignorar a fase do Jim Mike Carey no Hellblazer

O que me fez pegar essas HQ´s é o fato de que chegou ao meu conhecimento que John Constantine viria ao Brasil nesta saga. Sim, o nome do arco, Terceiros Mundos, faz referência à denominação utilizada até a década de 90 para se referir a países capitalistas subdesenvolvidos. Além do Brasil, Constantine passa também pelo Irã e pela Tasmânia.

Nem sempre as passagens de personagens de quadrinhos americanos no Brasil são memoráveis.  Aliás, todas as passagens que eu conheço são vergonhosas. Vergonhosas para os editores e roteiristas, que fique bem claro não para o Brasil. Bom… pra ser justo, existe uma HQ do Cable que não chega a ser vergonhosa, mas isso é outra história.

A visita de Constantine ao nosso país se encaixa perfeitamente na regra geral (a da vergonha alheia). Na verdade o nome do Brasil não é mencionado, mas se a ambientação é na selva amazônica e a língua local é o português, não dá outra.

Daí que alguém pode dizer: “bom, pelo menos não colocaram os brasileiros falando espanhol”. Huumm… é…! Só que isso não ajudou muito. Seria melhor se Google Translator usado pelo roteirista e pelo editor fosse mais eficiente.

Acontece que em um dos diálogos falados em português – se é que a frase “o conves liga nos ambos” pode ser chamada de frase e português –, refere às cartas do baralho como “convés”. É que a palavra “deck”, dependendo do contexto, tanto pode significar o “pacote de cartas de baralho” ou o “convés do navio”. Como os personagens estavam jogando cartas, não é difícil perceber que o Google Translator fez o Mr. Carey dar uma bela deslizada.

Fora isso, a história não tem nenhum sentido. Um suposto vilão chamado Sr. Goterrez (sim, desse jeito mesmo) entra e sai da história sem qualquer explicação plausível, um mago/bruxo/feiticeiro com cara de Jesus Cristo, também aparece completamente descontextualizado e Constantine, nas três partes do arco, em busca de informações sobre um cão das sombras que, aparentemente, nem ele nem ninguém (incluindo o roteirista) sabe do que se trata.

Mas analisando o arco como um todo, entre 0 e 10 eu ainda daria uma nota 06, talvez um 6,5. É que apesar da baixíssima qualidade do roteiro da edição passada no Brasil e também a mediocridade da segunda parte, passada no Irã, até mesmo os piores roteiristas têm seus momentos de iluminação e a última parte, ambientada na Tasmânia, traz uma história emocionante sobre colonização e fantasmas. Melhor ainda se lida individualmente. Além disso os desenhos das três partes ficam por conta do excelente Marcelo Frusin, o que por si só aumentaria a nota. 

Para os aficionados e nostálgicos. O arco tem também a participação (rápida e quase irrelevante) do Monstro do Pântano.

Terceiros Mundos foi publicada nos EUA em Hellblazer 184 a 186 (julho a setembro de 2003) e no Brasil na revista Vertigo 10 a 12 (setembro a novembro de 2010).

Ah, e o "merda" ficou certinho. Em legítimo português.

— Não gosta de falar sobre si mesmo, mas a sua orelha queima quando estão falando dele.