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► Keli Vasconcelos¹

 

 

 

 

Solar_OrigemDeparei com a notícia no jornal da morte de um pajé muito respeitado por outras etnias no Xingu. Seu grande temor não era a ida à terra dos ancestrais, mas o crescente desinteresse dos mais novos pelas pajelanças. Presumo, então, que ele ficará contente pela HQ Solar: História de Origem (Wellington Srbek/Abel Vasconcellos/Cleber Campos – Mais Quadrinhos), que tem em seu enredo as nuances do xamanismo.

A trama inquietante nos apresenta Gabriel Nascimento, de Belo Horizonte (MG). Um jovem comum que vai à Gruta da Água Funda em um sábado qualquer e ao tocar na pintura do Deus-Sol tem a vida mudada por completo. A saga Solar foi retratada em meados de 1994, repaginada entre 2008-2009, com um Gabriel mais maduro, algumas diferenças da versão atual (2014), e sem deixar de lado os dilemas enfrentados para proteger aqueles que ama e seu semelhante.

Em História de Origem, Gabriel ainda bebê recebe do pai Uiraçu da tribo coracipor (“O Povo do Sol”), a marca do Sol no peito, grande signo dos pajés, durante um batismo de fogo como forma de relevância e missão neste mundo (a passagem está também em Solar: Renascimento, 2009). Os coracipor, habitantes da Amazônia, são dizimados pelos homens gananciosos e a mãe, professora Sofia, não vê escolha e foge para salvar o seu filho.

Os anos passam e o garoto vive em BH, assim, simplesmente: ouve música no fone de ouvido, estuda e bebe água minera Ingá, passeia pelas avenidas Afonso Pena e Amazonas (as principais do centro da capital mineira, mas isso é só dedução desta que vos escreve), sai com a namorada Cris, diverte-se com o melhor amigo e “meganerd” Beto.

No episódio da gruta, Gabriel desmaia e é avisado da habilidade de voar por nada menos que um pássaro de luz. No outro dia, coloca os pés na do quarto de sua casa e, em vez de cair, ele voa, sem capa, sem máscara. O dom é usado para salvar um menino de um incêndio em uma comunidade carente, na manhã de terça-feira. Proezas dos corações puros que agem assim, simplesmente.

Não muito distante dali, na agitada Avenida Paulista, em São Paulo, um homem sabe dos feitos e da predestinação de nosso protagonista: é o professor Zarkan. Se pensou que o encontro dos dois teve tiros, luzes coloridas e frases de efeito, engana-se. O desafio agora é Gabriel enfrentar essas mudanças com perseverança em meio ao turbilhão de responsabilidades. Terá êxito? Seria o jovem o futuro discípulo do tenebroso Zarkan? Mistérios que se desenrolarão nas próximas aventuras da série, amigo leitor.

Com traço de Vasconcellos, balonamento de Campos e roteiro de Srbek, que conta para nós o seu convívio com o personagem nessas duas décadas, a HQ nos mostra que ser herói é valorizar o grande bálsamo de nossa origem, de nossa base. Pensar em quem está perto, principalmente conhecer em profundidade a cultura indígena, o nosso alicerce.

Uiraçu, o grande pajé da tribo coracipor, não marcou no peito de Gabriel uma simples marca, mas perpetuou no coração a tradição de um povo. Faz parte da ciranda que é nossa vida, neste Solo Sagrado (referindo-me ao título do último capítulo da antiga versão, de 2009), a nossa Terra sedenta de cuidado.

Fiquemos, então, com a certeza: não devemos esquecer de nossos xamãs, inclusive o do Xingu, que citei no início deste texto. Lembre-se, leitor, que nas trevas somos seres do Sol, afilhados da Lua, determinados e destemidos.

Gente Solar, enfim.

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¹ Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo e freelance para revistas. É colaboradora do Portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br), em que conta histórias sobre São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista. Saiba mais em http://twitter.com/keliv1

*O conteúdo deste post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pelo mesmo.

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...