macanudo-keli-capaO mais interessante em um Quadrinho é quando sua história não está envolta tão somente em personagens com superpoderes (nada contra, aliás eu os adoro), e sim quando existem superpessoas com a grande aptidão de rir de si mesmas. É esse o pulo do gato (Fellini) que o argentino Ricardo Liniers Siri, o Liniers, literalmente pinta e borda em seu Macanudo (volume número 3 – Zarabatana Books).

Um dos destaques da coletânea de tiras é o casal Lorenzo e Teresita, que faz coisas comuns, como ir ao cinema e esperar o que ocorrerá na telona depois dos créditos, e não acontece coisa alguma, mas para os dois são grandes feitos. 

Mas o mais instigante é o toque ingênuo sem-vergonha do autor, que trabalha com as sutilezas tão presentes em nosso cotidiano, e muitas vezes passam despercebidas. São tesouros recheados de duendes que se desviam de dentes-de-leão, ovelhas que ditam moda, pinguins da Patagônia que brincam com bexigas coloridas, mistérios advindos de um Homem de Negro e o seu olhar, hum…, misterioso. Pode surgir de uma ingenuidade um robô sensível, ou o Oliverio, a Azeitona, que se apaixona pelo sapo.   

Macanudo05gÉ nessa capacidade risonha que Liniers coloca orelhas compridas em si próprio, concretiza as imaginações do sobrinho de cinco anos, imagina as adversidades na vida de Picasso ou engrandece os sonhos e criatividades de Enriqueta, e seus amigos Fellini e Madariaga. Estes formam um time que constrói seus próprios universos por meio dos livros, na beleza inocente de uma menina, de um gato e de um ursinho de brinquedo. Ali (re)descobrimos nossa própria e fértil infância.

Liniers tem a sensibilidade de pensar até na “gente que anda por aí”. Quer um exemplo? Neste exato instante que lê as linhas presentes neste texto, várias pessoas se abraçam, soluçam ou simplesmente desmaiam. É, amigo leitor… lembre-se que na complexidade do simples podemos nos arrebatar, e nos estrepar, também. Por isso que viver é a verdadeira aventura!

 

Bom, para resumir de uma maneira brilhante Macanudo, faço minhas as sábias palavras da pequena e encantadora Enriqueta: “Isto que é o bom de algumas pessoas. Emprestam um pedaço da imaginação delas para que a nossa aumente”.
 

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1