FIQ - Praça Sergio BonelliVocê já se apaixonou por uma pessoa? Muito provavelmente. Por um lugar? É bem capaz. Por um evento? É possível, conheço gente apaixonada por Carnaval em Salvador. E por uma ideia? Não estou falando do tipo de paixão que faz com que você desenvolva uma ideia, que você construa algo em função dela, mas da paixão pela ideia em si – uma paixão que mexe com sua forma de pensar pelo simples fato de existir, não pelo desejo de realizá-la.

Deixa eu dar um exemplo. Pense que você é um jovem de seus 19 anos e acabou de entrar na faculdade. Você já conhece as delícias do sexo a alguns anos, mas ainda não experimentou sexo com amor. Não que você ainda não tenha se apaixonado, neste exato momento você está apaixonado por uma mulher que dificilmente vai se envolver com você – mas enquanto a mulher certa não chega, você se diverte (e muito) com as erradas. Esse é você.

Por seu curso ser da área de exatas, a presença feminina é escassa (pelo menos era assim antigamente) e a maioria de suas colegas de curso são "pra estudar". Não que algumas não sejam atraentes, mas é que a maioria leva os estudos a sério demais – e você quer mais é se divertir. Um dia uma delas pergunta se você pode ajudá-la com os estudos de alguma disciplina esquisita (como cálculo ou geometria analítica) e você topa, afinal a guria já quebrou seu galho em diversas provas.FIQ - Visão de Cima

A menina é uma gracinha, seria uma das mulheres certas se no momento você não estivesse mais afim é das erradas – e se ela não tivesse namorado. Vocês estudam, batem papo, saem pra tomar um sorvete e depois você vai deixá-la em casa. Na hora de se despedirem ela te rouba um beijo, um longo e delicioso beijo. Você sente que tesão não foi o motivador daquilo, foi algo mais, um sentimento que você até então não conhecia. E você se apaixona por esse sentimento, por essa ideia.

Dois dias depois vocês se encontram na faculdade e fica claro que não vão rolar outros beijos. Não que você ou ela falem sobre o assunto, vocês simplesmente sabem. Sem contar que você está apaixonado por outra e no momento procura apenas diversão. Você nunca vai saber o motivo daquele beijo, mas a paixão pelo sentimento que ela te apresentou, pela ideia que ela colocou em sua cabeça, será responsável por fazê-lo refletir e realizar novas escolhas na sua vida.

Cheguei no FIQ na manhã de sexta-feira, 11/11/2011e parei na porta da Serraria Souza Pinto para apreciar a entrada do local no qual eu passaria os próximos 3 dias. Dois ou três ônibus de excursão estavam na porta e crianças com uniformes de colégio saíam deles em fila. Quando entrei no evento, centenas e centenas de crianças oriundas de colégios da região (e até de outras cidades) ocupavam o local como um exército explorando um novo território – o FIQ era delas!

FIQ - Serraria Souza PintoSó depois fiquei sabendo que nos dias anteriores do evento aquela invasão se repetira tanto pela manhã quanto pela tarde, era simplesmente lindo ver tantas crianças conhecendo e explorando a nona arte. Ainda na tarde daquele dia eu presenciaria a "invasão" vespertina.

Fui direto pro stand do Quadro-a-quadro, abracei o pessoal (Adalton, Lucas Pimenta, Marcello Fontana, Portilho e Lillo), peguei meu crachá, me atualizei com o que havia rolado nos dois dias anteriores e eles me disseram pra ir conhecer o FIQ. Caminhei pelas diversas áreas do evento, conheci alguns stands, apreciei as artes espalhadas pelos murais e quando estava retornando pro nosso stand passei pela exposição de estatuetas (simplesmente perfeitas) de personagens femininas da DC.

Diante da estatueta da Poderosa duas crianças soletravam ES-TÁ-TU-A… ESTÁTUA! E seguiam em frente lendo as informações na etiqueta. Eles estavam aprendendo a ler e já estavam ali, no meio das histórias em quadrinhos e seus personagens!

Em função de minha história com os quadrinhos, bateu uma emoção nessa hora que quase me fez chorar. Para evitar um papelão similar ao que passei quando assisti Cinema Paradiso no cinema (chorei copiosamente e uma senhora me perguntou se eu estava bem), contive (com dificuldade) o choro e segui em frente. Essa seria a primeira das muitas emoções daqueles dias.

A agenda de nosso stand foi bastante movimentada durante todo o evento. Além das sessFIQ - Stand do Quadro-a-Quadroões de caricaturas, reuniões de desenhistas criando artes originais e da divulgação (com venda de pôsteres) de Never Die Club, tivemos sessões de autógrafos com  Oliver Borges e Dan Borges (Aurora Comics); Dennis Rodrigo, Wellington Santos (Mihály Oláh – Destemido); Miguel Rude, Wendell Cavalcanti e Gabriel Andrade (Terra de Ninguém, Quantum e Fábulas Modernas); Marcelo Lima (Lucas da Vila da Feira de Sant’Anna); Lucas Pimenta e Adalfan (Silêncio);  Wellington Srbek (Solar 1 e 2, Muiraquitã e Estórias Gerais); Felipe Assumpção (Botamem e Os Notáveis); Marcello Fontana e André Leal (São Jorge da Mata Escura); Beto Potyguara (Carcará Cabra Pió num Há!); Flávio Luiz (O Cabra e Aú, o Capoeirista) e Aloísio de Castro (Carcará).

Todos trabalhamos muito, muito mesmo, no stand do Quadro-a-quadro – e o calor de mais de 30 graus durante todo o dia não facilitava as coisas. Mas organizamos um sistema de rodízio que permitiu a todos participarem de algumas das atividades, visitar alguns stands, bater papo com seus autores favoritos, conhecer gente nova e, claro, conseguir autógrafos e artes originais. Só não consegui participar das atividades na Arena Carlos Trillo.

Ainda na sexta-feira, participei da oficina Quadrinhos em Tiras, ministrada pelo André Dahmer. Como todo bom aluno da área de exatas fui pra lá cheio de expectativas cartesianas sobre o processo criativo, a composição de uma história e essas coisas. Ao invés disso o Dahmer compartilhou conosco sua história de vida, detonou todos meus conceitos sobre arte e pediu que falássemos sobre nós.

Sabe quando FIQ - Minutos de Sabedoriaalguém demole os seus paradigmas e você fica sem ter nada sobre o que se apoiar? Pois é, foi isso que aconteceu comigo naquela oficina. A sensação de ter suas concepções transformadas em escombros é esquisita, mas os escombros dos velhos conceitos são o adubo ideal para novas ideias. Dá pra sentir ideias novas germinando por entre estes escombros, dentre elas a utilização de outros elementos (que não apenas texto, fontes, balões, cores e quadros) nas tirinhas Balões.

Tive o prazer de bater um bom papo com Marcelo Saravá, que publica tirinhas sem desenhos desde 2008 e estava no stand do 4 Mundo divulgando sua revista 1000 Palavras. Conversei com ele sobre o processo que me levou até Balões mesmo sem conhecer seu trabalho e percebi que foi mais ou menos a mesma coisa: ambos queríamos fazer quadrinhos mas não sabíamos desenhar.

A grande coincidência é que utilizamos o mesmo programa de computador para preparar as tiras, o que acaba fazendo com que elas fiquem com o mesmo jeitão. As diferenças ficam por conta da temática e estilo do texto de cada um – enquanto ele é formando na área de comunicação eu sou um matemático aprendendo a escrever. Quando estava conversando com ele, na sexta-feira 11/11/2011, o relógio marcou 11h11min e ele distribuiu 11 exemplares de 1000 Palavras na porta do stand, e eu acabei ganhando meu exemplar autografado. O Saravá também publica, em conjunto com o Marcelo Oliveira, o Banda Non Grata.

Como sou neófito em feiras de quadrinhos, cruzei com um monte de gente que não sabia quem era e só depois identifiquei como um autor que eu gostava muito e que havia levado algo para autografar. Pois é, além das coisas que comprei lá ainda levei algumas de casa pro evento.

Nos dias de FIQ não apenas peguei autógrafos, mas troquei ideia com Estevão Ribeiro (Pequenos Heróis; Os Passarinhos e Outros Bichos),  Mário Cau (Pierces), Daniel Esteves (O Louco, a Caixa e o Homem; Nanquim Descartável; 3 Tiros e 2 Otários), Gabriel Bá (The Umbrella Academy – Dallas), Danilo Beyruth (Necronauta e Bando de Dois), Alex Mir (Orixás – Do Orum ao Ayê), Marcelo Costa e Magno Costa (Matinê), Wellington Srbek (O Senhor das Histórias; Ciranda Coaraci; Muraquitã; Solar – Solo Sagrado; Solar – Renascimento; e também editor da Nemo), Milena Azevedo (GHQ), Denis Mello (Saidêra 1 e 2; A Poderosa Comic Cow; Palestina – As Pedras do Caminho); Pedro C. (Bolhas), Dennis Oliveira (Mihály Oláh – Destemido), Eduardo Damasceno, Luis Felipe Garroucho, Bruno Ito (Achados e Perdidos), Eduardo Medeiros (Neeb), Felipe Nunes (SOS), Beto Potyguara (Carcará – Cabra Pió não Há!), Wendell Cavalcanti (Quantum; Depois de Tudo…), a galera do Ruimcomelas.com.br e a turma do 23,5 (Daniel Bicho, Giba, Luisa Pires, Marília Bruno, Renato da Mata, Igor Chaves). Acabei descobrindo que melhor do que pegar autógrafo é conversar com os artistas – sempre que tiver oportunidade farei isso.FIQ - Da esquerda pra direira: André Leal, Laudo e eu (Sergio Barretto)

E no quesito conversa, não posso deixar de destacar os papos com o Laudo (Auto da Barca do Inferno; Histórias do Clube da Esquina; entre outros), o Will (O Louco, a Caixa e o Homem; O senhor das Histórias; Ciranda Coaraci; entre outros)  e o Flávio Luiz (Aú, o capoeirista; O Cabra; entre outros). Caras, espero encontrar com vocês muitas outras vezes para mais prosa e risada – valeu!

A atividade extra-curricular da sexta me permitiu conhecer a banda Power Trio, que, de acordo com o site do Studio Bar"está na estrada há quatro anos e conta com Glauco Mendes (Tianastácia) nas baterias acústica e eletrônica, Danilo Guimarães (Falcatrua) no baixo e teclados, e Gleison Túlio nos vocais e violões eletroacústicos". Só digo uma coisa: rock da melhor qualidade!

Sábado, o dia dos dias no FIQ, amanheceu quente – e com o evento lotado desde cedo. Na tarde de sábado mais uma emoção me aguardava, o lançamento de Sonho de Uma Noite de Verão, com texto do Bardo adaptado por Lillo Parra e belíssima arte por conta do Wanderson de Souza. Pra quem acompanhou, torceu e sofreu junto com o Lillo, vê-lo ali sentado autografando o resultado final de seu trabalho foi pra lá de emocionante – de fazer segurar as lágrimas mais uma vez. Só isso já teria valido a viagem.

Às 2FIQ - Lillo Parra (esquerda) e Wanderson de Souza (direita) no lançamento de Sonho de Uma Noite de Verão2:00 de sábado circulou no FIQ a informação de que apenas naquele dia 30 mil pessoas compareceram à Serraria Souza Pinto para apreciar a nona arte. Ao final do FIQ a organização contabilizou um total de 148 mil visitantes!

Como atividade extra-curricular de sábado fomos conhecer o Clube da Esquina. Trata-se da esquina, esquina mesmo, cruzamento de duas ruas, onde se reuniam Milton Nascimento e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô) na década de 60 do século passado. Da amizade surgida nesta esquina, neste clube, nasceram músicas que fazem parte da história da MPB, como "Tudo Que Você Podia Ser", "O Trem Azul", "San Vicente" , "Paisagem da Janela", "Paixão e Fé" e "Maria, Maria".

No domingo, último dia de FIQ, já cheguei na Serraria com saudade. Parei por longos minutos na porta e fiquei olhando meus colegas de evento (a feira ainda não estava aberta, apenas o pessoal com crachá de participante passava pela portaria) entrar. Em algumas horas todos voltaríamos a nossas vidas normais – seja lá o que fosse normal para cada um de nós.

Durante o domingo o FIQ permaneceu cheio da abertura até a hora em que eu precisei sair em função do horário de retorno a Salvador. No momento em que eu estava saindo da Serraria, já do lado de fora, virei pra me despedir do evento que tantas emoções havia me proporcionado durante aqueles dias e aconteceu exatamente o que eu desFIQ - Crianças se divertindo, era lindo de se ver!crevi no início desta narrativa.

Apaixonei-me pelo sentimento que estava experimentando, pela ideia (ou ideias) que aquele evento havia colocado em minha cabeça, por ter estado ali, por ter vivido aqueles dias de um FIQ que, pelo que li na Internet, foi o melhor de todos os tempos. Até 2013 FIQ, vou passar estes setecentos e poucos dias que nos separam com tudo isso no coração.

Não imagino o que vai acontecer comigo e nem como esta paixão vai influenciar minhas escolhas, mas estar apaixonado desta maneira é simplesmente magnífico.

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P.S.: Uma vez que eu esqueci de levar máquina fotográfica, agradeço aos quadrados que me disponibilizaram suas fotos e à organização do FIQ, que colocou dezenas de imagens em sua página do Facebook.

FIQ - Estátua da Poderosa (à direita)

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.