Voltar do cinema com a sensação de satisfação, de que aquilo que os meses me prometeram em trailers e imagens fora atendido. Capitão América: Guerra Civil já ferveu as telas dos celulares e computadores e incendiou no cinema. Temos tudo na medida certa: Ação de tirar o fôlego, conflitos morais a serem pensados, as performances ainda mais maravilhosas dos antigos personagens e a estonteante estreia dos novos. Cada aparição é digna dos aplausos que ocorreram em minha sessão, e nem vou falar do Pantera Negra que é um dos meus prediletos e deu origem a alguns artigos científicos (um deles pode ser lido na íntegra aqui: http://periodicos.est.edu.br/index.php/identidade/article/view/618/685).

Na saída da sessão, minha cabeça fervilhou com uma questão que eu já havia me deparado com a leitura da mesma saga nas histórias em quadrinhos. E não faço aqui muita análise sobre o roteiro (que existe, viu, Warner-DC?), mas dos conflitos filosóficos presentes na questão que divide o grupo de heróis. Diante de uma crise política, ambos querem pontos de vista distintos em prol de um bem comum, apesar de que paixões guiam as condutas de vários personagens, como disse T´Challa, o Pantera Negra. Tony e Steve são ambos eudemonistas, ou seja, prezam pelo bem de todos, mas discordam nos caminhos a serem levados a isso.

Em seus caminhos conflituosos para atingir essa doutrina de felicidade social, ambos se valem de dois veículos bastante diferentes: o utilitarismo e a deontologia. Não é nenhuma grande inovação se pensar os dois conceitos aqui, já que no texto de Mark D. White chamado Por que o Batman não mata o Coringa? no livro Batman e a Filosofia. Mas dentro da Filosofia Moral, Capitão América e Homem de Ferro estão em balanças opostas. Enquanto Steve Rogers preza a liberdade e a autonomia individual da escolha, onde a moral é legitimada pela vontade livre, Tony Stark, por sua vez, defende as decisões pela maior quantidade gerada de bem-estar social.

Nesse processo de entender as escolhas pela liberdade ou de se abrir mão dessa liberdade pelo bem comum, não temos vilões (ainda). O filme constrói essas diferenças com eficiência, fazendo com que o telespectador, ainda que tenha sua escolha por um dos lados, entenda claramente o que o outro lado abona. Os efeitos colaterais fatais das ações dos super-heróis promovem eventuais perdas de vidas, ainda que se conquiste um resultado vitorioso.

O utilitarismo de Tony considera que as ações precisam ser úteis na promoção de felicidade do grupo, ainda que isso afete na felicidade do indivíduo. Por isso, assinar um documento em que as ações dos super-heróis serão de decisão da ONU surge como útil para a resolução do conflito. Isso afeta em cheio a posição deontológica e moral de Steve, que acredita que as decisões devem sempre partir do indivíduo para o bem comum da sociedade, sem isso macular seu dever e sua liberdade, ou seja, sua ética particular.

Esses dois personagens são responsáveis pela ruptura no grupo que vai sendo magistralmente orquestrada no roteiro do filme em discursos convincentes e reviravoltas empolgantes. Um dos princípios do utilitarismo, bastante comum ao personagem Tony Stark, é a racionalidade nas decisões, enquanto que a deontologia moral de Steve Rogers está atrelada a um modo de ser (e pensar) justo. Essa axiologia, essa maneira de se pensar os valores aqui em conflito, está presente na obra em quadrinhos e no filme.

Se esses dois conceitos já ponderados por Jeremy Bentham ainda não conquistaram conclusões consensuais entre os filósofos, quiçá entre nós. Talvez a sedução que aqui faço de ir buscar entende-los além de uma simples postagem sobre filme nos ajude, também, a entender o que nos falta no atual cenário político brasileiro. Por mais ação, violência, que o gênero cinematográfico possa trazer para as telas (com suas bem colocadas pitadas de drama, viu, Warner-DC?), existe um zeloso respeito entre os envolvidos. Se tivéssemos mais consciência desses valores, quem sabe, teríamos embates muito mais saudáveis e resoluções muito mais respeitáveis na nossa Guerra Civil política atual.

Ah, o filme tem DUAS cenas finais. Divirtam-se!

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!