Simplesmente sensacional.

Posso começar uma resenha assim? Acham que está passional demais?

Tá bem. Vou começar diferente, afinal sou um resenhista sério e comprometido com a isenção jornalística…

O lançamento de Fierro nesta semana, em São Paulo, marca uma importante retomada na publicação de antologias sobre quadrinhos no país, além de um estreitamento nos laços de amizade com os artistas argentinos.

Ah! Vá passear pelado em Bariloche! Fierro é simplesmente sensacional e eu vou escrever do jeito que sei. E ponto.

Primeiro, é necessário entender o que é Fierro Brasil

Lembram-se da Chiclete com Banana, Canalha, Animal, Heavy Metal Brasil ou Pau Brasil? Já ouviram falar de O Lobinho, Gibi ou Guri? Revistas que publicavam de tudo um pouco?

Pois é disso que estamos falando. Guardadas as proporções e as preferências de público e linhas editoriais de cada época, Fierro Brasil é exatamente isso: uma antologia de quadrinhos.

Já tinha tempo que uma publicação não chamava tanto a atenção antes mesmo de seu lançamento. Culpa de um recente interesse nos quadrinhos hermanos. Interesse esse, aliás, muito bem vindo e a quem devemos – muito – a Paulo Ramos e seu ótimo livro Bienvenido e, claro, à Zarabatana Books, que vem investindo pesado na publicação de material argentino.

O que nos traz uma pergunta no mínimo curiosa: como nunca nos interessamos antes?

Ok, além de Mafalda, alguém pode responder de bate e pronto sobre os quadrinhos argentinos? E os caras estão do lado…

Pode ser culpa do futebol, mas isso seria infantil. “Não leio quadrinhos argentinos por que eles acham Maradona melhor que Pelé” ou pior “Não vou ler quadrinhos argentinos porque foram eles que nos desclassificaram na copa de 90”…

Como pode um mercado que teve talvez o melhor roteirista de quadrinhos de todos os tempos ser tão pouco conhecido no país vizinho?

Não sabem de quem estou falando? Héctor Germán Oesterheld, criador de El Eternauta, um mestre “desaparecido” pelo sangrento governo argentino em 1977, numa época em que em toda a América Latina pessoas desapareciam apenas porque pensavam e faziam pensar.

Pois essa imperdoável falha começa a ser parcialmente corrigida.

Fierro é ótima. E é ótima por culpa de argentinos e brasileiros. Em determinados momentos, inclusive, o leitor terá dificuldades em perceber o que é verde e amarelo e o que é azul. Prova irrefutável que a velha rixa definitivamente não tem lugar no mundo dos balões.

O lançamento da Zarabatana cumpre toda a expectativa criada nos últimos meses.

Há como falar bem de tudo?

Não. Fierro é uma antologia, publicações desse tipo costumam apresentar variações qualitativas em suas histórias.

Mas há como falar mal de algo?

Também não! Ao contrário, sobram elogios à publicação.

Você tem ali um verdadeiro passeio sobre variados gêneros dos quadrinhos: ficção científica, policial, fantasia, terror e, claro, muito humor (de todos os tipos – dos ingênuos aos não tão ingênuos assim).

Momentos de pura beleza como “O Desmistificador Argentino”, de El Tomi, ou “Little Nemo”, de Oscar Chichoni, nos dão a medida exata da competência narrativa dos argentinos. As surreais “Mondragon”, de Marcelo Birmajer e Alfredo Flores, e “Lancheira Infernal”, do nosso Danilo Beyruth, provavelmente lhes tirarão o sono.

Para quem curte vanguarda, “Keko, o Mágico”, de Carlos Nine (o pai) e “Bruno Maravilha”, de Lucas Nine (o filho). Ou então se inebrie com a beleza gráfica e a sensibilidade de “Calhandra Cinza”, de Carlos Trillo e Pablo Túnica, ou na sensível e inesperada “E Deus me faltou…”, de Eloar Guazzelli (talvez a melhor história de toda a antologia).

Hot Lá”, de Horacio Altuna, poderia figurar em qualquer roteiro de Tarantino ou se passar tranquilamente por um capítulo da ótima “100 balas”, poesia pura com muito sangue. E “Ernie Pike” , de Oesterheld e Juan Giménez, apesar de sua brevidade, explica bem o que disse há pouco sobre o cara ser o melhor roteirista de todos os tempos: uma verdadeira aula de narrativa.

Mas é no humor que argentinos e brasileiros dão um show. Os dois capítulos de “O Banheiro”, de Gustavo Sala, são simplesmente doentios, “O Vendedor de Respostas”, do Adão Iturrusgarai transpira uma irreverência que não cabe em suas apenas duas páginas.

Mas há três momentos de genialidade pura quando falamos de quadrinhos de humor:

A Família Bolchevique”, de El Nino Rodriguez é cínica, mordaz e extremamente eficaz. Já imagino os velhos decanos do socialismo defendendo abertamente a deportação de seu autor para alguma colônia de férias da Sibéria.

Paolo Pinocchio”, de Lucas Varela, manda o politicamente correto – talvez a coisa mais chata que aconteceu com os quadrinhos de humor em todos os tempos – às favas. Seu boneco mentiroso é compulsivo, sujo, imoral e deliciosamente divertido.

E por fim, “Sem Sal”, de Gustavo Duarte

O que eu posso dizer dessa história? Nada. Vocês terão que ler. Só posso adiantar que é de uma genialidade narrativa e de uma beleza plástica tão grandes que já credenciam seu autor a um dos melhores em atividade no país. Seu humor é rápido, seu traço preciso e sua capacidade em contar histórias é simplesmente assustadora.

Fierro é uma das melhores publicações dos últimos tempos.

Eu comecei essa resenha de forma passional.

Vou termina-la da mesma forma: Fierro é simplesmente indispensável.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.