Por Bárbara Zocal da Silva

Sabe quando você para um segundo (que seja) pra observar o mundo. E entende que existem vááários mundos dentro do Mundo. Foi assim que me senti ao entrar no Festival de Quadrinhos 2016. Logo na chegada, com o jornal do evento na mão, já se podia ter ideia da amplitude do festival. Esse ano ela dobrou de tamanho! Foram 70 expositores, entre eles editoras que expunham seus catálogos e lançavam novos títulos; lojas de produtos geek com adesivos, chaveiros, canecas, action figures, camisetas e (muitos) etcéteras; sebos; colecionadores, que “por falta de espaço” desapegavam de seus quadrinhos antigos; e artistas espalhados entre as 28 mesas. Muitos deles compartilharam mesas com seus parceiros de criação, amigos, o que mostra o perfil bastante democrático do festival. Desde 2009, ela tem esse poder de reunir diferentes tribos de apaixonados que dedicam um final de semana à troca de quadrinhos, experiências, discussões… “Por que a DC apostou no Aquamen?”, “Herois da DC com cara de Vertigo?”, “Cada país atribui uma característica diferente aos personagens Disney” foram assuntos fomentados nas mesas-redondas do evento, proporcionando um diálogo espontâneo entre editores, artistas e leitores.

Me senti numa expedição, abri meu mapa – em cores e bem explicadinho – e me lancei à exploração. Apesar de ter gasto todo o dinheiro do mês, o festival me rendeu muitos encontros e diversão! Foi muito bacana ver um personagem consagrado como o Batman retratado nos mais diferentes traços e relembrar – não que eu seja dessa época, claro! – a série televisiva sobre ele que completou 50 anos.

Como numa sala de comando, os artistas ocuparam o núcleo do festival. Qualquer um deles poderia se sentir aspirante, ao dividir o IMG_20160409_163832565corredor com Marcatti – são 40 anos de história! Um exemplo de quadrinista que deu sangue, suor e outros fluídos mais para publicar suas histórias de forma independente. Ele próprio reconheceu que em todos seus anos de coprólitos, nunca vivenciou um boom dos quadrinhos brasileiros como agora. Mas entende que as demandas estão superando as ofertas e que, se novos leitores não forem conquistados, o mercado dos quadrinhos pode dar uma estagnada num prazo de dez anos.

Os mais jovens já não pensam assim. Vigor da idade? Quem sabe… A questão é que com a popularidade dos eventos de quadrinhos, a exigência em relação ao trabalho dos quadrinistas e roteiristas aumentou, entre eles próprios, ao pensar na qualidade de seus trabalhos, e entre os leitores. Eles estão se profissionalizando e tendo que lidar com questões de marketing e distribuição, por exemplo, de acordo com Marcio R. Gotland, frequentador de feiras há oito anos.

Modelos de publicação que tem funcionado entre os independentes são os financiamentos coletivos online. Em 2013, o roteirista Daniel Esteves e o quadrinista Jorge Otávio Zugliani (‘Jozz’), lançaram a primeira HQ da coleção São Paulo dos Mortos com esse tipo de financiamento. Outra opção tem sido a participação em editais governamentais de produções artísticas. O próprio Daniel Esteves, junto com o quadrinista Alex Rodrigues e o colorista Alberto de Stefano (‘Al Stefano’) ganhou o Edital Proac 2015 e lançaram a novela gráfica Por mais um dia com Zapata. Maravilhosa, a propósito! Hector Lima, roteirista e tradutor de HQs, acredita ser “uma das maiores alternativas de fomento das publicações de quadrinhos no Brasil”. Para ele, os profissionais dos quadrinhos estão amparados por esses pilares. E talvez a maior dificuldade encontrada por alguns quadrinistas seja a pesquisa anterior ao projeto de elaboração do quadrinho, “para os novatos, ainda faltam referências de onde conseguir informações para compor sua história”.

Sem dúvida, trocar experiências com os artistas contemplados pelo ProAC (Programa de Ação Cultural) e observar o trabalho dos mais experientes é uma boa fonte de pesquisa. A feira proporciona esses diálogos. Um grande exemplo é Laudo Ferreira, o homenageado da Feira. Ele e seu parceiro Omar Viñole lançaram Yeshuah Absoluto, o resultado de um trabalho de 13 anos, publicado pela editora Devir. Laudo garimpou

a História para compor uma “história em quadrinhos de Jesus dentro de uma perspectiva pessoal”, mas com a preocupação de contá-la “de maneira honesta com o amor de quem cria um filho”. Uma vez que se lançou ao desafio, Laudo fez uso de diferentes fontes de pesquisa para compor a trama visual e textual da narrativa, na qual roteiros e desenhos foram criados simultaneamente: livros religiosos consagrados, textos apócrifos (não aceitos pela igreja católica como verdadeiros), pesquisas sobre esses textos, textos budistas, islâmicos e xamânicos, tratado alquimista – que inclusive intitulou o primeiro livro da série “Assim em cima assim embaixo”. Essas referências podem ser consultadas na extensa bibliografia ao final da obra. Laudo também se inspirou em trilhas sonoras de filmes e IMG_20160409_184512612músicas étnicas, árabes, judaicas, indianas… São 548 páginas com muitas curiosidades para deleite. Algumas informações não compuseram o enredo da história, mas serviram para ambientá-la. Um exemplo curioso é o de Herodes, o grande, que mantinha uma criação de pombos em seu castelo e os servia como refeição aos seus visitantes ilustres. Essa imagem serviu como cenário.

Yeshuah Absoluto, em especial, permite ao leitor uma visão menos ingênua da religião. “A caminhada de Jesus e seu Deus interior sendo construído é a possibilidade que todos temos de gerar sempre o melhor dentro de todos nós”, nisso acredita Laudo. E eu também!

A Feira de Quadrinhos – e tudo o que ela envolve – sem dúvida é uma forma de legitimar as histórias em quadrinhos brasileiras, estimulando os quadrinistas a tratar de assuntos controversos entre as diversas culturas – sim! é possível falar de política e religião -, e a reflexão sobre o mundo a partir de uma visão crítica. Nos vários mundos dentro do Mundo, há lugar para todos.

************************************************************

Bárbara Zocal da Silva é tradutora. Como desculpa para ler mais quadrinhos fez deles seu objeto de pesquisa na universidade. Em 2015, defendeu sua dissertação "As tiras de Mafalda no Brasil: tradutores e traduções" (FFLCH-USP). Participa do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP e sonha em traduzir mais quadrinhos latino-americanos, estreitando a relação entre os brasileiros e nossos hermanos

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.