Pense rápido: você é feliz?

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Sinceramente se perguntassem isso para mim, que vos escreve e fica contente por saber que você, amigo leitor, lê estas linhas, teria de fazer uma visita ao analista, o que não é ruim. E existem tantas coisas que nos deixam com essa sensação boa, não é mesmo? Do singelo elogio ao grande prêmio… Esse questionamento perturbador é trabalhado na (anti)narrativa sequencial Todo Mundo é Feliz (Mateus Acioli – Balão Editorial), integrante da coleção Zug, que retrata como cada um supera as derrotas e os infortúnios da vida.

Para entender o conceito, o termo vem de Zugwang, situação no xadrez em que o jogador está, literalmente, enrascado, ou seja, mesmo com um golpe de mestre, sairá prejudicado do jogo. Todo Mundo é Feliz é o peão branco, a primeira jogada da coleção, com cinco títulos no momento, de autores diversos (um deles, Pobre Marinheiro, de Sammy Harkham, conquistou um HQMIX em 2014).
 
Na história, Acioli pega na nossa mão (e também no pé) e acompanhamos seres comuns, que mostram ‘momentos felizes’, tudo isso em ilustrações fortes com acentos que vão do noir ao minimalismo. E pasme, o livro tem (só) 28 páginas em formato 13X13cm, mas com um conteúdo que nos leva à reflexão e ao olhar mais apurado sobre nossa existência.

miolo-feliz-keli (2)Do urso que se apaixona pela trapezista, as gêmeas idênticas que planejam o assassinato do gato Bartholomeu até o misterioso sorriso do Astronauta, embarcamos nessa viagem em texto e traço rumo a controversa e desejosa felicidade.

Não julgue, porém, que a ‘alegria’ é descrita como êxtase, pois é discernida no livro em forma de caretas, facetas, olhares (pro)fundos e outros gestos que serão interpretados de maneira totalmente diferente pelos leitores.

 
Desafiador, né? Afinal, convenhamos, rir é sinônimo de júbilo? E é sempre o melhor remédio?
 

miolo-feliz-keli2 (2)A provocação em Todo mundo… é (tentar) entender o que faz alguém feliz, levantando inúmeras  questões, tabus e outros assuntos que muitas vezes precisamos levar para o divã. E sairemos de lá sem respostas, certamente, ou até mesmo com outros dilemas na bagagem.

Sabe por quê? Porque felicidade, meu caro, é um mergulho abstrato.

Recordei-me, então, de duas frases, uma de Tim Maia e outra de um vendedor que me atendeu, certa vez. A primeira, acho que já ouviu ou cantarolou – “um nasce para sofrer enquanto o outro ri”; já a segunda,é mais incisiva, e ganhou o título desta (humilde) resenha – “Felicidade de um é tristeza de outro”.

 

Obrigada, Acioli, a consulta está marcada. 

— Jornalista freelancer, moradora de S. Miguel Paulista - SP e também colabora para o portal Jornalirismo (www.jornalirismo.com.br). Nas horas vagas, lê Quadrinhos. Nas outras também. Mais em http://twitter.com/keliv1