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Esse é o texto que eu queria escrever para o Quadro a Quadro desde que entrei: uma apresentação da minha série favorita em quadrinhos. Ela teve muito altos e baixos, mas mais altos do que baixos. A fonte utilizada pelo seu criador é quase que inesgotável – os contos de fada – e se ele quisesse poderia ter ido muito mais adiante do que foi.

É preciso frisar que parte desse texto foi retirado de um trabalho que apresentei na matéria Literatura Infanto Juvenil III, do curso de Letras, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas das USP, chamado “A paródia de Willinghan”. Posteriormente, esse mesmo trabalho foi apresentado no Viñetas Serias, Congresso Internacional de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos, na Argentina, no ano de 2012.

 

Fábulas é uma série em quadrinhos criada por Bill Willingham e foi publicada pelo selo Vertigo de quadrinhos adultos da DC Comics nos EUA de 2003 até 2015. Desde o início da série, vários foram os desenhistas desta HQ.

O autor e criador da série já trabalhou em outras séries do selo Vertigo tais como “The Dreaming” e “Sandman Apresenta: A Tessalíada”, ambas originadas da série adulta de maior sucesso até então – “Sandman”, de Neil Gaiman –, onde é contada a história do Senhor dos Sonhos.

  Assim, suas influências vão desde mitologias, os próprios contos de fadas (em todas as suas versões), até o cinema, séries de TV, outras histórias em quadrinhos, o que resulta em uma mistura que faz com que você queira ler mais e mais.

  O principal mote da série é “como seriam os personagens de contos de fadas (as Fábulas) em nosso mundo real?”. Na história, os mundos das Fábulas foram dominados por um ser chamado apenas de “O Adversário” o que faz com que estes seres encantados ou sejam mortos e escravizados, ou fujam. A grande maioria que consegue fugir vem parar em nosso mundo, o mundo dos “Mundanos”, fechando atrás de si todas as possíveis passagens para cá.

  Estabelecem-se na cidade de Nova Amsterdã, no século XVIII, que depois será conhecida como a atual Nova Iorque. A maior parte da história se passa no século XX/XXI, mas temos diversos momentos em outros períodos. Todas as Fábulas (como são chamados esses seres mágicos dos contos de fadas) que não têm aspectos humanos são ‘convidadas’ a morarem em um refúgio no interior do estado de Nova Iorque conhecido como “A Fazenda”.

  Dentre as regras desta nova sociedade das Fábulas estão o de não se misturarem com os mundanos, a menos que seja extremamente necessário, e nunca revelarem sua verdadeira identidade. Todos os crimes cometidos em eras passadas nas Terras Natais foram perdoados em virtude da nova vida que devem começar neste Novo Mundo.

  Vários dos personagens são baseados principalmente em contos, histórias e fábulas Ocidentais, mas personagens saídos de outras tradições já apareceram, como os das histórias árabes na minissérie “1001 Noites” e nas relações da Cidade das Fábulas com as Fábulas Árabes, durante a série regular, ou ainda as lendas japonesas nas histórias de Rapunzel no Japão.

  A personalidade dos personagens, como veremos adiante, foram tomadas dos contos originais. Alguns que aparecem em mais de um conto, foram somados nos mesmos personagens. Mas todos foram retrabalhados imaginando-se como eles seriam se fossem “reais” e vários detalhes são dados, antes do “Era uma vez…” e, principalmente, depois do “…felizes para sempre.”.

Todas as Fábulas são eternas, mas sua força e imortalidade dependem de quanto os Mundanos acreditam em suas histórias. Quanto mais eles acreditarem, mais fortes eles serão.

Com o sucesso desta série, Fábulas deu origem a várias edições especiais: “1001 Noites”, onde Branca de Neve é raptada por um Sultão e no melhor estilo Sherazade conta histórias das Fábulas para entretê-lo; “Cinderela”, na qual a doce princesa dona de uma loja de sapatos é na verdade uma agente secreta estilo 007; entre outras e duas novas séries, ambas com 50 edições, uma focando em João das Fábulas e a outra chamada Fairest (que em português ganhou o nome de “As mais belas”) focando em outros personagens que estavam com menos espaço na série regular, tais como a Bela Adormecida, Cinderela, o Príncipe Encantado, entre outros.

  A série regular chegou a 150 edições, sendo uma das mais longevas do selo adulto da DC Comics. No Brasil já foi publicada por três editoras: Devir, que lançou dois encadernados, Pixel Media que lançou um encadernado e os especiais “O último Castelo” e “1001 Noites” e, que atualmente, é editada pela Panini que lançou o último encadernado da série regular, o de numero 22 (Despedida) agora em agosto/2016. Faltando apenas serem completadas no Brasil a série do João (sem previsão) e de Fairest (em andamento).

  É preciso comentar também que a série já arrebatou quase todos os possíveis prêmios dados a quadrinhos nos EUA e no Brasil: melhor série, melhor mini-série, melhor edição, melhor desenhista, melhor roteirista, melhor capa, em vários anos seguidos.

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As Personagens

Na HQ Fábulas, as personagens preservam grande parte das características originais encontradas nos contos de fadas. Algumas características se apresentam tal e qual na obra de origem; outras são potencializadas num sentido em que se percebe a tentativa do autor de contestar a moralidade dos contos, e também de aproximar essas características o máximo possível de uma figura humana.

É interessante lembrarmos que muitos dos personagens eram figuras constantes de mais de uma fábula. Por exemplo, como o Lobo Mau, que apareceu nas histórias da “Chapeuzinho Vermelho”  e dos “Três Porquinhos”. Nesse caso, essas personagens aparecem “mescladas” na HQ. Em outras palavras, temos um único Lobo-mau, que representa o Lobo-mau de todas as fábulas em que ele aparece. O mesmo ocorre com a Bruxa, o Príncipe Encantado, entre outros. Mas esse detalhe será mais bem explorado quando observarmos as personagens individualmente.

 

Lobo Mau (Bigby)

O Lobo Mau da Cidade das Fábulas tem forma humana, e um nome humano: Bigby (provavelmente algum trocadilho com a expressão “big bite”, que significa “grande mordida”). Bigby possui uma origem bastante peculiar; ele é fruto de uma união do Vento Norte em forma de lobo (que lhe deixa de herança o conhecido poder de “soprar, soprar e soprar”), com a loba “Inverno”. Era o irmão caçula, o mais fraco dentre uma ninhada de sete lobos (o sétimo lobo é uma referência a origem de um “lobisomem”, o que explica o fato da liberdade com que Bigby manipula as formas humana e animal). Após a morte de sua mãe e a fuga de seu pai e irmãos, Bigby foi deixado para trás, ficando à mercê da natureza. Esse fato fez com que desde cedo aprendesse a caçar para se alimentar, e com o passar do tempo se tornasse cada vez mais forte. Seu apetite, à (sem crase) princípio, era sanado com pequenos animais, como gafanhotos e ratos; com o passar do tempo esse apetite foi aumentando, e Bigby começou a devorar porcos (talvez, três porquinhos…) e até humanos (alguma chapeuzinho?).

Por conta de todos esses atributos citados acima, Bigby é nomeado xerife da cidade das Fábulas, responsável por manter a lei e a ordem do local. Para tanto, mantém-se o máximo possível na forma humana, com trajes que lembram o de um detetive de histórias noir. Só que manter a lei e a ordem na Cidade das Fábulas significa bater de frente com João das Lorotas e suas “armações”, e resolver pequenos e complicados crimes que não deixam de acontecer.

 

Branca de Neve

A Branca de Neve é baseada em duas histórias; sim, duas histórias. Embora conheçamos habitualmente apenas a história da “Branca de Neve com os sete anões”, há outro conto dos irmãos Grimm no qual ela é protagonista, e se chama “Snow White and Red Rose”, cuja tradução literal seria “Branca de Neve e Rosa Vermelha” (no Brasil, esse conto já foi traduzido com o nome “Rosa Branca e Rosa Vermelha”). A história fala de duas irmãs órfãs, muito unidas (Branca de Neve e Rosa Vermelha) que um dia abrigam um urso durante o inverno (para protegê-lo do frio), e após diversas “peripécias”, esse urso se revelará um príncipe encantado que se casará com Rosa Vermelha (Branca de Neve se casa com um irmão do príncipe, que não tinha aparecido na história). Há uma versão em que a Branca de Neve casa-se com o Príncipe e a Rosa Vermelha com o irmão dele.

Esses fatos, somados aos da Branca de Neve que conhecemos (dos sete anões) serão usados como “mote” por Bill Wiilinghan para desenvolver a Branca de Neve da Cidade das Fábulas. Na HQ, Branca de Neve será a prefeita da cidade. Branca foi uma das esposas do Príncipe Encantado, e se divorciou dele após pegá-lo na cama com sua irmã “Vermelha Rosa” (personagem importante no enredo). É uma personagem que tem as características do conto original potencializadas. Sua ingenuidade (afinal, ela mordeu a maçã, lembra?) é trazida para o campo humano de modo que, apesar do “pulso firme” como prefeita, ela é incapaz de perceber coisas óbvias que acontecem a seu redor (por exemplo, a atração que Bigby sente por ela). Também tem uma sensibilidade extrema, chegando a ser “chorona”.

 

O Príncipe Encantado

O príncipe encantado tradicional é sempre retratado com um herói perfeito e sem defeitos, que após enfrentar inúmeros desafios salva a princesa / mocinha. O príncipe encantado da Cidade das Fábulas, que também é uma mescla de todos os príncipes encantados (e leva o nome de Encantado, simplesmente), tem uma personalidade que exagera suas qualidades a ponto de torná-las desvios de caráter.  Permanece o aspecto galanteador de seu original, entretanto isso é usado pelo nosso “herói” como arma de sedução contra jovens incautas.

O Príncipe Encantado casou-se com a Branca de Neve, a Cinderela, e a Bela Adormecida (uma depois da outra); mas a essa altura do campeonato já está divorciado de todas elas. Sua personalidade é uma releitura do príncipe tradicional, na qual o conquistador passa a ser também um mulherengo, e o nobre é equiparado a um playboy fútil.

Durante a fuga da Terra Natal, o Príncipe Encantado não conseguiu carregar sua fortuna, o que faz com que, para viver, ele se utilize de seu charme para conquistar mocinhas e viver às custas delas.

 

Pinóquio

Quem conhece a história de Pinóquio sabe que se trata de um boneco de madeira cujo sonho era se tornar um menino de verdade, sonho esse que foi atendido pela Fada Azul. Na HQ Fábulas temos o mesmo tema, no entanto, o pedido de ser um “menino de verdade” foi levado “extremamente ao pé da letra” pela fada azul, ou seja, Pinóquio se tornou um menino de verdade “para sempre”, nunca cresce nem se desenvolve corporalmente. Sua maior queixa é de que possui quase três séculos e ainda não passou da puberdade. Pinóquio tem aspirações adultas, e um corpo de menino, e isso o frustra bastante (por esse motivo ele tem sempre o semblante “emburrado”).

Pinóquio se torna um dos personagens centrais por conta de seu pai, Gepeto. Isso porque, desde a fuga da Terra Natal, Gepeto está desaparecido (não conseguiu fugir de lá), e não se sabe se está vivo ou morto. A certa altura do primeiro ciclo, durante a guerra das fábulas, o Adversário envia para combate soldados que são de “madeira”. Isso reacende em Pinóquio a esperança de que Gepeto esteja vivo, e tenha sido escravizado pelo Adversário. No entanto, a leitura da HQ traz importantes surpresas a respeito desses dois personagens.

 

João das Fábulas (ou das Lorotas)

João, nas palavras dele, inclusive, é a fábula mais poderosa que existe. Se imaginarmos que ele é a somatória de todas as histórias que possuem um João como protagonista, e elas são inúmeras, ele realmente é a fábula mais poderosa que existe, praticamente imortal. Tirando características de todas as aventuras em que, no inglês, um Jack ou John (e seu diminutivo Johnny) são os protagonistas, no espanhol Juan e em português João, temos um personagem esperto, carismático, mulherengo, corajoso, oportunista, egoísta, trapaceiro, líder, sacana e que tenta de todas as formas “se dar bem”.

Ele não é apenas o João do pé de feijão ou o matador de gigantes, ele é também o João Geada (Jack Frost), o João da Lanterna (Jack O’ Lantern), o Don Juan (um dos maiores mulherengos de todas as histórias já contadas), o João Grilo (herói das histórias de cordel brasileiras), o João Sem-Braço (aquele que sempre tenta levar vantagem) e outros tantos Joãos que existem nas histórias.

 

Muitos dizem que Sandman é uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos, justamente por se apropriar excepcionalmente do conteúdo dos sonhos e pesadelos e terem surgidos personagens tão cativantes como os Perpétuos. Para mim, Fábulas foi a melhor sucessora de Sandman. Em Fábulas, o material em que as histórias são baseadas fazem parte da nossa cultura há gerações e por isso é tão interessante a forma como Bill Willinghan trabalhou com seus personagens. Ele parou na edição 150 por conta que seus personagens tinham um começo e um fim. Mas se ele quisesse ele podia seguir adiante por mais 150 edições fácil, utilizando personagens de diversas culturas diferentes. E mais Fábulas nunca seria demais!

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— "Marcelo é advogado, historiador e professor de história. Nas horas vagas escreve sobre quadrinhos. Deixaria tudo isso de lado se fosse escolhido o Lanterna Verde protetor da Terra. Lê HQs desde que se lembra por gente. Sempre foi cercado por elas em casa ou na chácara do avô. Durante o curso de História as percebeu como fontes inesgotáveis de informação sobre seu tempo (tempo em que foram publicadas e tempos retratados em suas páginas) além de poderem ser usadas em sala de aula. Aí não parou mais e quer difundir ainda mais esse conhecimento sobre a Nona Arte."