Absolute Dark Knight (desenho)Quero deixar claro que estou muito satisfeito com as histórias em quadrinhos da forma que as conhecemos atualmente. Acho que o bom e velho papel dá liberdade aos artistas (diagramações arrojadas, páginas duplas, formatos inusitados, etc.) e vantagens para o leitor, como leitura em qualquer lugar e encadernações de luxo que são dignas de qualquer estante. Mas pelo que acompanho nos boletins de tecnologia e publicações especializadas em gadgets , as HQs em papel podem tornar-se item de colecionador ou presente chique – como está acontecendo com os discos de vinil.

Não é novidade ler documentos e revistas no computador, se faz isso desde que foi possível digitalizar a primeira página de papel, o problema era que ler no computador nunca foi muito prático nem confortável. Isso nunca permitiu a criação de um grande mercado baseado em livros e revistas digitais – apesar de algumas iniciativas neste sentido.

A falta de praticidade vinha da interação entre homem e computador se basear essencialmente em teclado (e depois mouse).  O desconforto tinha duas origens: um computador é muito pesado para ser carregado por aí exclusivamente para ler documentos, e ler em tela de computador provoca fadiga visual muito mais rapidamente do que ler simples páginas impressas.

A TECNOLOGIA

Em 1971 o Projeto Gutemberg começou a digitalização de livros sob dKindle DXomínio público e popularizou o conceito de livro digital. Inicialmente pensado para serem lidos em computadores comuns, os livros do Projeto Gutemberg foram fundamentais na disseminação deste novo paradigma.

Ainda na década de 70 do século XX, as pesquisas em busca de uma forma de papel eletrônico mostravam seus primeiros frutos. Vinte anos depois os primeiros leitores de livros digitais chegaram ao mercado e na década seguinte, 2006 e 2007, surgiram os primeiros dispositivos que podem ser considerados um sucesso comercial: o Sony Reader e o Kindle, respectivamente.

O ECOSSISTEMA

Apple iPadAlém de ser um dispositivo de leitura, o Kindle incorporava outro conceito interessante: através dele era possível adquirir os livros a serem lidos (através da rede 3G de telefonia celular). Posteriormente foram disponibilizados jornais como o NY Times e o US Today – ou seja, o leitor eletrônico passou a fazer parte de um ecossistema de conteúdo digital. Aí veio o iPad.

A Apple já havia utilizado o conceito de ecossistema digital com o iPod, comercializando música e vídeos através da iTunes Store, e amadurecido o modelo com o lançamento do iPhone, através da venda de aplicativos pela App Store, mas o iPad é claramente um dispositivo criado para tirar o máximo proveito deste ecossistema.

O tamanho da tela (9,7 polegadas), a qualidade da imagem, o peso (860 gramas), a conectividade sem fio, o conforto na leitura e, principalmente, a interação baseada no contato e em movimentos da mão – praticamente dispensando a utilização de teclado, que só existe na própria tela do iPad, se o usuário quiser ativar – apontam para um gadget voltado para a exploração do conteúdo existente no ecossistema digital.

O sucesso do iPad foi tão grande que causou uma verdadeira corrida dos fabricantes de computadores e celulares em busca de um iPad killer, um tablet que consiga o mesmo volume de vendas o iPad conseguiu no lançamento e mantém até hoje.

EU VI O FUTUTO, BABY

A biodiversidade e o sucesso do ecossistema da Apple cresceram e inspiraram o surgimento de outros ecossistemas, a Nokia com sua Ovi Store é apenas um exemplo disso. Mas e onde estão os quadrinhos? Muitos deles podem ser encontrados no Chrome Web Store, o ecossistema da Google.

A Marvel Comics disponibiliza, através de um programinha que pode ser baixado da Chrome Web Store, vários de seus títulos – e ainda oferece um test drive com diversas histórias que podem ser lidas gratuitamente. Algo como aquele cara da barraquinha que te deixa ler algumas revistas ali mesmo, pois sabe que você sempre acaba comprando algo – só que neste caso usando tecnologia.

Atualmente o programa que permite acesso aos títulos da Marvel podMarvel Store Bannere ser instalado em computadores de mesa, notebooks em iPads. Mas com a chegada ao mercado de diversos tablets com o Google Chrome instalado de fábrica, existe uma grande chance desta nova forma de ler quadrinhos tornar-se tão comum quanto ir à banca e comprar um gibi.

Para se ter uma idéia do tamanho da tela de um tablet em relação a uma página de gibi, a tela do iPad (9,7 polegadas) é um pouco menor (aproximadamente 30% menor) que uma página no que chamamos de “formato americano” e bem maior que uma página do defunto “formatinho”.

Alguns dos concorrentes do iPad estão chegando com telas de 10,1 polegadas, e se um dia tivermos tablets com tela de 12 polegadas uma página no formato americano se encaixará com precisão. Digo “se”, pois uma tecnologia para exibição de imagens chamada OLED promete mudar tudo (imagine imagens em uma tela flexível) – mas isso é assunto pra outro post.

E ELE É PASSADO

Apesar de tecnologAbsolute Sandmanias novas ocuparem os espaços das antigas e torná-las obsoletas (como os DVDs fizeram com os saudosos Videocassetes), quando falamos de bens culturais não é incomum ter paradigmas diferentes convivendo juntos. Quando o cinema surgiu, dizia-se que ela ia acabar com o teatro – mas não acabou. Quando a TV surgiu, dizia-se que ela iria acabar com o cinema – mas não acabou. Quando a Internet se popularizou, afirmava-se que ela iria acabar com a TV – mas não acabou (pelo menos não ainda).

Mesmo diante do crescente número de entusiastas e defensores da nova mídia, muitos vão dizer que o uso de tablets para consumo de quadrinhos vai matar as histórias em quadrinhos. Já outros vão torcer o nariz e passar boa parte do tempo procurando os defeitos do novo paradigma (provavelmente serei um deles). E no final eu  torço para que não seja nada disso.

Apesar de ainda ser muito cedo para afirmar, espero que (gostemos ou não) o futuro repita o passado e tenhamos histórias em quadrinhos nas duas mídias – papel e meio digital – convivendo juntas por muitíssimo tempo (coAbsolute Dark Knight (foto)mo teatro, cinema e TV fazem até hoje). Cada mídia com suas vantagens, desvantagens e, mais importante, seu público.

Afinal de contas, que graça teria um volume de Absolute Sandman sem a capa dura e o papel especial? E em qual estante colocaríamos um Absolute Dark Knight digital? Mais ainda, como emprestar um gibi digital sem ferir direitos autorais? Aliás, esta questão de direitos autorias no meio digital também é assunto para outro post. Até lá!

Atenção: o título deste post foi emprestado do disco homônimo (Abril Music, 1998) de Marcelo Nova.

— Sergio Barretto teve um passado nebuloso sobre o qual nunca fala. Ninguém sabe ao certo o que ele fazia, mas alguns indícios de ações secretas e aterradoras já desestimularam muita agente a continuar investigando. Hoje é um homem sério, cumpridor de seus deveres e apaixonado por histórias em quadrinhos desde que se entende por gente, e a cada ano faz mais tempo que ele se entende por gente. Faz parte do Quadro a Quadro desde sua criação e costuma ser gente boa, mas as vezes passa a impressão de que seu passado sombrio pode retornar a qualquer momento, pondo a todos em perigo.