Nesta nova coluna nós, Quadrados, comentaremos sobre as obras mais interessantes, as obras de maior valor sentimental, monetário ou imaginário, ou até aquelas obras que estavam lá nas livrarias desprezadas por todos mas que na nossa estante brilham como nenhuma outra. Edições esgotadas, importadas, autografadas, tudo vira motivo para perguntarmos aos  nossos leitores: qual HQ de sua coleção é especial e por quê? Sinta-se à vontade para mandar sobre sua obra de apreço especial pelo email de contato do Quadro a Quadro!

Como não paramos nunca de ler quadrinhos, nossa coleção só tende a aumentar. Sendo assim, a regra é: uma obra comentada por vez!

Guido:

The League of Extraordinary Gentlemen: Black Dossier

A série escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O`Neill conta com 6 publicações, divididas em volume 1, volume 2, volume 3 (que possui 3 partes) e uma edição independente (Black Dossier). Esta edição traz Mina Murray e Allan Quatermain atraz do tal Dossiê, que contém informações sobre todas as ligas secretas existentes. Para impedi-los, um trio de espiões liderados por James Bond (satirizado como Jimmy). O livro se utiliza de toda megalomania de Moore para prestar inúmeras homenagens a literatura britânica como Shakespeare, Lovecraft, Orwell, Howard, etc (além dos próprios personagens, é claro). Neste volume, a metalinguagem se apóia em inúmeros formatos de texto e papel, e inclusive nos guia por uma viagem psicodélica utilizando óculos 3d. São estes diferenciais que aumentam o custo de produção, fazendo com que este seja o único livro da série a nunca ter sido publicado no Brasil. No fim, Moore acaba criando uma obra em tributo a sua própria liga, e esta viagem incursiva é algo cansativo mas muito prazeroso. Estas características incomuns me fizeram ter um apreço especial por este livro, além da história também ser muito boa. Não me lembro de outra obra em minha coleção que seja tão diferente, por isso esta foi minha primeira lembrança para a coluna.

Disponibilidade: Em importadoras ou livrarias de fora do país

Lucas:

Capote no Kansas – Um livro ilustrado (Devir)

Alguns quadrinhos nos marcam por formas que nunca imaginamos. As vezes encontramos quadrinhos que nem sabíamos que existiam, e eles nos surpreendem. Capote no Kansas encontra-se nesses casos.

Estava numa livraria, tinha dinheiro para comprar quadrinhos, mas não tinha muitos quadrinhos na loja que eu já não possuísse. Foi quando então, peguei o pequeno gibi e folheei. Uma rápida lida na 4° capa, e as letras gigantes, em vermelho escrito ASSASSINATO, foram o primeiro indício que eu levaria aquele gibi.

Uma rápida folheada, e a fantástica arte de Chris Samnee me convenceu de vez… Fora isso o livro dizia narrar a verdadeira história que levou Truman Capote a passar um tempo no interior dos EUA, período este que resultou no livro A Sangue Frio – seu ousado romance de não-ficção, eu tinha que comprar, e assim o fiz. Escrito por Ande Parks, num roteiro maduro, bem estruturado e de leitura prazerosa, Capote no Kansas ainda teve a grata surpresa de custar apenas R$ 19,00. Definitivamente um tiro certo da editora Devir. Um gibi que todo fã de bons quadrinhos deveriam comprar!

Disponibilidade: Livrarias, lojas especializadas e lojas on-line.

Marcello:

Zero Zero # 15

Era 1997 e eu estava assistindo a uma palestra do Joe Sacco na Bienal de Quadrinhos (evento que foi a semente do FIQ) que naquele ano acontecia em Belo Horizonte em comemoração aos 100 anos da Capital Mineira. Sacco era um ilustre desconhecido no Brasil e entre perguntas do tipo "você não tem vontade de desenhar o Homem-Aranha?" (é serio! perguntaram isso mesmo!) pelo menos um outro cara da plateia e eu estávamos fascinados com o trabalho que nos estava sendo apresentado e queríamossaber tudo sobre aquilo que parecia ser uma cobertura jornalística-quadrinística de uma guerra (o outro cara, na saída, eu fui saber que era o Lourenço Mutarelli). Quando terminou a palestra me aproximei do Joe (posso chamá-lo de Joe? Por que chamar de Sacco é sacanagem) e perguntei como eu poderia adquirir algum trabalho dele. Muito gentil, ele perguntou se eu estaria no evento no dia seguinte, por que ele poderia trazer alguma coisa para me mostrar. No outro dia, lá estava eu, certo de que ele não se lembraria, mas eis que ele tira da mochila e me presenteia com a edição 15 da revista Zero Zero (Fantagraphics Comics), onde havia sido publicada a história Chistmas with Karadzic, de autoria do Joe.

Taí um item da minha coleção que eu guardo com muito carinho. Um presente de um grande e humilde quadrinista.

Disponibilidade: esgotado.
 

Adalton:

Superpowers #32, Abril.

Este é um exemplar que guardo com bastante carinho. Na edição 32 da finada Superpowers, os leitores brasileiros finalmente conheceram a origem do vilão que viria a causar uma megaconfusão na vida do homem-morcego. Lá, pudemos conferir o nascimento e a vida do garoto que viria a ser conhecido como Bane. Sua luta diária pela sobrevivência na prisão na pequena ilha de Santa Prisca, nos experimentos que o tornaram dependente da droga chamada Veneno, que lhe conferia força descomunal e o despertar da sua fixação em derrotar Batman.

Nada muito de especial essa edição, verdade… Mas o carinho está mais pelo o que ela representa. Na época em que adquiri tal edição, a internet era pré-pré-histórica, logo, não existia as facilidades de compra de números antigos que existe hoje. Nossa única opção era garimpar. E era o que eu fazia.

Naquela época também as bancas eram mais respeitáveis. Claro, sempre havia os atrasos e falhas na distribuição, mas as bancas de ruas eram abastecidas com uma certa frequência. E garimpar significava sair catando banca atrás de banca. Por diversas vezes, ao final dos meus 14 anos, percorri o trajeto de quase 4km entre a escola e a minha casa apenas para procurar por gibis antigos.

E foi essa prática que me fez ir além dos limites de Brotas. E foi essa prática que me fez explorar e conhecer uma Salvador completamente nova, tudo pela busca de sebos para preencher muitas lacunas nas minhas coleções. 

Por esse motivo que não me desfaço deste formatinho. Ele me faz lembrar das minhas origens, da minha infância, do meu espírito desbravador, da minha flânerie.

Disponibilidade: esgotado.

 

* A capa deste post é uma foto da estante do nosso amigo Portilho. Envie para nós fotos da sua estante e o próximo homenageado pode ser você.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.