"Para nós colecionadores, cada gibi tem uma história, e este é o espaço onde podemos contá-las."

estante-radysson-keliExplicar de algo tão pessoal como preferências de leitura é bem complicado, porque implica revelar e relembrar fatos que preferimos deixá-los para si. Mas aí você percebe que dividir nossos passados é importante e até bom, claro, na medida do possível.

Minha estante, que você confere neste post a convite do Guido (obrigada, Guido!), é enfeitada de caixas plásticas coloridas (pavor de traças e amassados!), cada uma com coisas que resguardei e outras com descobertas. Vão de presentes a sugestões, de achados a autores de lia em bibliotecas e, tempos depois, adquiri os trabalhos. Confesso que foi punk separar os que considero melhores, mas acho que são histórias interessantes para compartilhar e até mesmo sugerir.

Lá vai!

Um menino chamado Raddysson e mais os meninos de Portinari – Ziraldo (Melhoramentos): Se for para contar um dos autores que me influenciaram a estudar Comunicação, priorizo Ziraldo (e Sylvio Pereira, de A primeira reportagem – da coleção Vagalume/Ática, aquela que todo mundo lia na escola!). Comecei a ler as aventuras do Menino Maluquinho logo após de me alfabetizar, porém, na estante aqui não tinha um livro dele. Em 2014, comprei esta obra e Ziraldo mesclou com primor suas ilustrações e texto e pinturas de Candido Portinari, outro artista que adoro, uma delas Jogos Infantis para retratar o menino de rua. A carência dos pequenos moradores da Praça do Lido, RJ – sua inspiração –, de nomes repletos de ípsilones, enes, dáblios, foi escrita com maestria, poética e tons de reportagem.

Maus, a história de um sobrevivente – Art Spiegelman (Quadrinhos na Cia./selo da Cia. Das Letras): Já tinha ouvido falar de Spiegelman na faculdade, e até cheguei a ler por cima, mas só depois de um bate-papo despretensioso pela internet que adquiri Maus. O legal da obra não é tão somente a questão do Holocausto, dos campos de concentração e da Segunda Guerra, mas a forma como o autor mostra sua relação com pai, sem floreios, sem máscaras – mesmo se mascarando de rato, e, principalmente, com muita coragem. Ali, lendo aqueles quadradinhos com desenhos bem miúdos, vi um pouco de meu pai, retirante nordestino. Ele passou o que considero um holocausto da seca, que o fez chegar a São Paulo. Rendeu até uma resenha neste QaQ.     

estante-keli-detalhe1Chobits/Sakura – Clamp (JBC): Embora sejam mangás com tramas completamente distintas, ambas são do grupo Clamp, o mesmo de Guerreiras Mágicas de Rayearth. Revirei, dia desses, algumas caixas e encontrei as coleções, Chobits com 16 volumes e Sakura com 24, intactas. E o que mais me espantou foi a data: meados de 2000, ou seja, estava na universidade e a bolsa-auxílio do estágio ia para os mangás. O que me atraiu nos enredos (um é a robô Chi e suas emoções; já menina Sakura tem a vida transformada após achar cartas mágicas) é tratar de temas tão fortes para nós ocidentais, como a descoberta do desejo e o valor da amizade. Hoje, porém, o meu gosto mudou, leio muito pouco mangás, mas as histórias e o interesse pela cultura oriental permaneceram.

 

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— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.