A coluna Estante Quadrada começou com nós "Quadrados" do blog, contando sobre cada obra que nos era importante nas nossas estantes físicas. No entanto, agora a coluna evoluiu para uma estante virtual, responsável por armazenar as mais diferentes histórias sobre cada quadrinho de nossos editores, de nossos convidados e de nossos leitores. Mande seu texto também!

Hoje contamos com a participação de Thiago Modenesi, Zeca Delfino, Denis Mello e Fábio Paiva. Pessoas com profissões distintas e contatos com a nona-arte mais diferentes ainda, mas talvez com gosto parecido. Algumas das obras escolhidas por eles possivelmente seriam as mesmas escolhidas por você, leitor. Mas será que o motivo que lhes fez escolher estas obras são parecidos com os seus? 

Sejam bem vindos a mais um Estante Quadrada!

* O conteúdo deste post expressa a opinião dos autores, que são plenamente responsáveis pelas mesmas.

 

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Thiago Modenesi

Mestre e graduado em História, Especialista em Ensino de História, Mestre e Doutorando em Educação, além disso é Professor da Universidade Federal de Pernambuco e Faculdade Guararapes. Autor do livro Educação para Abolição (Editora UFPE, 2013).

 

Obra escolhida: Asterix e os Godos

as1Foi em meados de 1984, quando eu morava em Jaboatão dos Guararapes(na época só chamava Jaboatão)em Pernambuco que recebi de um amigo do meu tio minha primeira história em quadrinhos.

Em um mercado na época abarrotado de publicações Marvel e DC migrando para a Editora Abril que se firmava no mercado pode parecer estranho, mas fui  brindado com um Asterix. Sempre tive uma certa compulsão por colecionar as coisas, antes dos quadrinhos foram os selos, postais, chaveiros, latas de cerveja, figurinhas….mas sempre parecia que faltava algo.

Desfrutando Asterix e os Godos, edição da Editora Record que guardo até hoje com carinho, me senti transportado para outro mundo, tive vontade de rir sozinho, curti cada página como se fosse a última. Obelix e Asterix eram muito divertidos! Me ganharam no primeiro momento me fazendo abrir as portas para uma quantidade infindável de publicações.

Mirando minha estante, para além dos meus 20 mil títulos, lá no cantinho esquerdo tem lugar de destaque minha coleção de Asterix, todos os exemplares publicados pela Record e 2 pela Asa de Portugal.

Na sequência acabei chegando na Marvel e DC, afinal Asterix não era vendido em bancas, era mais caro e eu só tinha 14 anos, uma idade que não foi marcada por uma mesada muito grande, consequentemente poucos quadrinhos…

Acredito que ter começado por Asterix me permitiu uma visão mais ampla dos quadrinhos, fui um dos poucos que fugiu da entrada pela Mônica ou os super-heróis norte-americanos, até para desfrutá-los este caminho me pareceu melhor, me deu uma visão mais apurada do humor e das possibilidades que as HQs possuíam.

Ao olhar para meu exemplar de Asterix e os Godos na estante, já amarelado, com as páginas se descolando pelo tempo, sempre me vem a lembrança de minha avó. Dona Ioni sempre me incentivava a ler, tinha certo entusiasmo com a minha trajetória nas HQs, comentava de sua juventude onde tinha contato com o publicado no Suplemento Juvenil e Gibi.

Os olhos da minha avó brilhavam citando o Agente X-9, Fantasma, Mandrake, Príncipe Valente e o Espírito(The Spirit, de Will Eisner). Sempre tive a sensação de estar continuando seu legado, sempre penso naquela época vinculando o que eu lia ao que eu vivia com minha família.

Meses depois, já em 1985, nos mudamos para Santos, litoral de São Paulo, seguiu comigo uma modesta caixa de revistas, um principio de uma coleção que tenho um carinho imenso, seja pelas memórias que me traz, seja pelas aventuras que me permite viver em suas páginas.

Disponibilidade: Esgotado.

 

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Zeca Delfino

Engenheiro Agrícola de formação, sempre trabalhou com animais e plantas, mas tem verdadeira paixão pelo mundo nerd, culpa atribuída às HQs da Vertigo, aos jogos das Blizzard e aos filmes do Tarantino.

 

 

Obra escolhida: Watchmen

Bom, creio que esta HQ dispense qualquer apresentação, pois se trata de um dos maiores wat1clássicos dos quadrinhos, e fã que é fã de verdade provavelmente já teve a feliz experiência de conhecer essa história que é considerada um marco entre as graphic novels ou “romances gráficos”.

Escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, a HQ foi publicada pela DC Comics entre 1986 e 1987. A trama se passa nos EUA de 1985 retratando um momento delicado da Guerra Fria e a possibilidade eminente de uma guerra nuclear contra a União Soviética. Neste contexto heróis fantasiados são uma realidade e apesar de sua existência junto a sociedade, o mundo não está melhor com eles. Pelo contrário, perseguidos pela mídia, que os transformou em celebridades, e envolvidos por intrigas políticas e problemas pessoais, os heróis perderam a credibilidade e foram tirados de circulação. Até que um deles é misteriosamente assassinado o que desperta a indignação de seus companheiros mascarados. Para investigar o assassinato surge um dos personagens mais icônicos (meu preferido) dos quadrinhos, Rorschach, que em sua loucura e obstinação acaba descobrindo que o assassino sempre esteve mais próximo dele do que ele poderia imaginar.

Claro que toda essa história de investigação do assassinato de um herói é meramente pano de fundo para uma discussão bem mais profunda, com vertentes politicas pesadas e reflexões morais, talvez isso é o que torne a HQ tão apreciada e atemporal. Vale mencionar ainda que a mesma ganhou vários prêmios Kirby e Eisner, importantes prêmios do mundo dos quadrinhos.

Como fã de cinema que sou não posso deixar de mencionar a adaptação que a HQ ganhou em 2009 para a tela grande, que no meu ponto de vista foi sensacional, e sem dúvidas conseguiu passar um pouco da complexidade da história para um publico, que até então, não sabia do que a HQ se tratava, para quem ainda não assistiu, recomendo deixar de lado o preconceito e curtir o filme, que para mim é uma das melhores adaptações de HQ até o momento.

Acho que já deu para entender o porque da minha preferencia por essa HQ, no entanto, outro ponto que pesou muito nessa minha escolha, foi o fato de que quem comprou os exemplares de Watchmen para mim pela primeira vez foi o próprio idealizador dessa coluna, meu amigo Guido, junto com seu pai, um eterno professor e outro grande fã de quadrinhos também. Sou muito grato a eles por me apresentarem essa tão sublime obra que guardo até hoje com o maior carinho e cuidado.

Disponibilidade: Comic shops ou Livrarias.

 

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Denis Mello

Estudante da Escola de Belas-Artes (EBA-UFRJ), quadrinista e ilustrador. Desenhista da Web-série Beladona.
Web-site pessoal: http://www.denismello.com/

 

 

Obra escolhida: V de Vingança

Bom, é possível que alguém já tenha escolhido essa hq, não só porque ela é foda, mas à luz dos CAPA_PANINIrecentes acontecimentos é uma ótima indicação. V de Vingança retrata uma Inglaterra totalitarista e fascista fortemente repressora aonde a população não tem acesso a cultura e informação, até mesmo música e cinema das décadas anteriores (se passa no fim do séc XX, foi escrita nos anos 80) só pode ser lembrada, e não acessada. O governo controla todo o fluxo de informação e adotou toques de recolher, atuando através de 4 órgãos governamentais principais: O Dedo, o Olho, a Boca e o Nariz. O personagem principal é um revolucionário conhecido por V, ou codinome V. Um cara misterioso que usa a máscara que a essa altura todos já conhecem. Nós não sabemos absolutamente nada dele e ao longo da leitura descobrimos muito pouco, mas ele luta contra esses sistema, em seu esconderijo, resistem a cultura popular perdida pelo restante da população, e ele "adota" Evey, uma garota salva por ele na primeira cena do quadrinho, procurando passar para ela seus ideais e visão de mundo. Então basicamente a HQ mostra essa figura misteriosa porém carregada de simbolismos lutando contra um governo absolutamente opressor e limitador cultural.

Felizmente tive a oportunidade de colocar ele na minha estante numa reimpressão recente, até então eu havia lido a anos quando um amigo me presenteou com uma versão digital num CD-ROM (antes dessa febre de baixar HQ que tem de um tempo pra cá). Esse quadrinho para mim é um manifesto, ele mexeu com meus sentimentos e ideologia desde o primeiro momento. Muita gente se interessa por leitura começando por quadrinhos. Eu certamente tive meus primeiros interesses por política puxado por essa hq, e mais recentemente planejava uma série de HQs diretamente inspiradas em V de Vingança, passadas no Rio, sobre alguém que queria mudar tudo sozinho, porque a massa é alienada de forma paradoxal à HQ original: pelo excesso de informação e satisfação, que os impedem de olhar em volta e sentir vergonha da merda que os governantes estão fazendo. Pensava em colocar esse cara explodindo a ALERJ por exemplo, raptando e torturando caras como Cabral e Paes.

Vou ter que repensar isso tudo! Haha! Felizmente as pessoas se mostraram menos alienadas do que eu contava, e mostraram que não precisa vir um maluco sozinho bolar atentados, todos podemos parar as cidades juntos, e me deram o grande prazer de me deixar fazer parte no dia em que a ALERJ pegou fogo. Algo que eu só conseguiria desenhar daqui uns 2 anos, eu pude emocionado participar. É meu quadrinho predileto já a algum tempo, sem dúvida. Gosto da ideia de um quadrinho que te leva pra além do entretenimento, do quadrinho que te acrescenta algo novo, te tira da sua zona de conforto, e se você ler com o coração e cabeça abertos, pode te levar além ainda.

Disponibilidade: Esgotado. Em processo de reedição.

 

Fábio

Fábio da Silva Paiva

Fábio da Silva Paiva, leitor de HQs, sempre quis ser super-herói, mas virou professor. Hoje é doutorando em Educação na Universidade Federal de Pernambuco e autor do livro "Educação e Violência nas HQs de Batman" (Editora UFPE, 2013).

 

 

Obras escolhidas: Batman – O cavaleiro das trevas, Super-Homem – Entre a foice e o martelo

Minhas primeiras HQs foram umas do Hulk, especialmente quando ele lutava contra o Coisa (a bct-capa-500x731Marvel fazia isso sempre!). Eu adorava a pancadaria e as piadas, mas não me lembro mais quais revistas eram aquelas.

Logo em seguida comecei a procurar algumas para comprar nos Sebos e encontrei a minha primeira saga: Desafio Infinito!  Era a busca de Thanos pela manopla do Infinito e pelas gemas do poder (pelo que lembro). Essa saga foi muito importante pra mim, porque me lembro de me divertir e me empolgar muito lendo!

Continuei e fui para a Guerra Infinita e a Cruzada Infinita… todas elas juntando um universo inteiro de heróis para lutar contra Thanos e sua manopla. Legal saber que um pouco disse será retomado pelo filme dos Vingadores! 🙂

Quando comecei a ler Quadrinhos eu não fazia nem ideia da distinção DC/Marvel e de seus distintos universos, aí ficava me perguntando qual seria o motivo de não colocarem o Super-Homem para lutar contra Thanos…. mas depois decobri! Então comecei a acompanhar a DC e logo me encantei muito mais…

Acompanhei então a saga Zero Hora, que depois de terminada zerou os formatinhos, foi quando comecei uma coleção numerada, comprando sempre a cada 15 dias um novo exemplar de Batman!
Muitas boas histórias nessas revistas, como as mega sagas Terremoto, Contágio e Terra de Ninguém (algumas referências fortes nos filmes do Nolan).

Aliás, era bacana também comprar formatinhos sempre e de vez em quando comprar uma "formato americano" que era sempre uma minissérie ou edição especial. Era uma emoção a parte.

Superman - Entre a Foice e o Martelo

Entre essas edições especiais, a mais marcante pra mim: BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS.
Um dos maiores clássico dos quadrinhos de todos os tempos. Empolgante, eletrizante. As edições da Editora Abril eram sempre cruéis, por que saiam a cada 15 dias e as vezes com atraso… então imaginem que eu li o primeiro número e sofri para ler o segundo e depois para ler o terceiro foi mais sofrido e para ler o final então… terrível. Mas mesmo assim, picadinho, foi um deleite. Que obra fantástica! Sem contar que eu, meio anarquista naquela época, ver o Super-Homem descrito como um capacho dos Estados Unidos e levando uma surra, foi fenomenal. Se eu já era fá do Batman, fiquei mil vezes mais!

Por fim, para não parecer que eu odeio (tanto) o Homem de Aço, eu aponto como favorita de minha coleção a SUPER-HOMEM ENTRE A FOICE E O MARTELO. Uma viagem fantástica, demonstrando o que ocorreria se a nave do filho de Krypton tivesse caído em uma fazenda Soviética ao invés de uma fazenda de Pequenópoles. Muitas referências históricas, muita sacada boa e, o que mais me agrada, um Super-Homem realmente Super. O autor mostra a capacidade dos poderes do azulão (ou seria vermelhão?) levados ao extremo. Algo que sempre quis ver, algo que sempre imaginei. O final é meio fraco, mas ainda guardo as revistas com muito carinho pelo poder da imaginação fantástica do autor. E eu que sou comunista, curti muito essa ideia (com exceções, claro!).

Disponibilidade: Batman (Comic-shops ou livrarias), Super-Homem (Esgotado).

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.