Não me lembro quando comecei a ler Y – O Último Homem. Nem me lembro em que formato, pois a série foi publicada por diversas editoras no Brasil. Só me lembro muito bem que terminei de ler poucos dias depois, em scan mesmo. Na época eu não tinha a segurança e a paciência com as editoras como tenho hoje (que fui conquistando com a melhoria nos trabalhos das mesmas). Brian Vaughan é um especialista em escrever roteiros que prendem o leitor como se fosse em uma série bem escrita de TV, mas não foi isso que me cativou em primeira instância. Eu poderia perder um bom tempo comentando como ele, com sua técnica de mudar de cena rapidamente, mostrando horário-data-local e contando com desenhistas competentes, faz um trabalho diferente de outros quadrinistas. Mas, se não foi por isso que gostei de seus quadrinhos, não vai ser por isso que vou escrever este texto.

A premissa inicial de "Y" é de fato interessante, analisando as diversas possibilidades que se abrem logo nas primeiras edições, mas nunca gostei de cinema de catástrofe. Uma comparação com o seriado LOST se tornaria inevitável, mas evito de fazê-la já, pois considero este seriado muito mais sobre o ponto de vista da redenção humana do que do ponto de vista trágico. O que realmente me atraiu foi, logo nas primeiras edições, o diálogo entre Yorick (o protagonista) e Beth, sua namorada. (Figura 1)

"Você é minha melhor amiga, Beth. Você é brilhante e divertida, e seu filme favorito é Miller`s Crossing*. Eu não sabia que existia uma mulher como você."

Opa, quer dizer que Brian Vaughan é fã dos Irmãos Coen, exímios na arte de escrever diálogos, e mais ainda, é fã de filmes de Máfia? De imediato pensei em Quentin Tarantino, outro roteirista famoso por criar personagens e imortalizá-los por suas falas. Será que Brian seria capaz de absorver estas influências e utilizá-las dignamente? 

Em sequência, lembrei também do bom trabalho executado por Jeph Loeb na mini-série Batman: Longo dia das Bruxas. A família Falcone foi inspirada na famosa família Corleone (O Poderoso Chefão), e as cenas iniciais são uma homenagem as cenas imortalizadas por Marlon Brando no papelo de Vito Corleone. No entanto, o exemplo veio a minha mente pois meu pensamento seguia no sentido de procurar obras que se inspiravam em filmes ou livros bem conhecidos. Não poderia imaginar, que mais tarde Vaughan homenagearia outra das cenas mais famosas do primeiro filme da trilogia de Francis Ford Coppola. (Figura 2)

Bem, com o continuar da história, percebi que Brian Vaughan não iria caminhar no sentido de criar uma obra inspirada em outras. Ele iria homenagear o cinema a todo momento (com as falas de Yorick), mas o trabalho era difetente e não parecia tão genial quanto o de Loeb, que fizera as duas coisas. Porém, é mais ou menos no meio da história, que Yorick conhece outra personagem chamada Beth e se mete em uma confusão dentro de uma igreja. E é vestido de sacerdote que ele protagoniza minha cena preferida, e a que acho mais criativa do quadrinho. (Figura 3)

Brian Vaughan usava um diálogo criado por Quentin Tarantino para resolver uma cena de seu próprio quadrinho. Isso misturava influência e homenagem de uma maneira que me surpreendia tanto quanto o próprio texto citado surpreenderia um ouvinte ao vivo. No filme Pulp Fiction, o personagem de Samuel L. Jackson é um matador de aluguel que utiliza um suposto trecho da Bíblia para justificar suas ações. Vaughan utilizava a linguagem do cinema para caracterizar e enriquecer seu personagem principal.

Este trecho da história, e este encontro marcante de Yorick com sua nova amiga, são o ápice que levam ao desenrolar final. Muito ainda estava por vir, mas a partir daí eu já havia sido conquistado, e já havia percebido que a história se tratava unicamente sobre o último homem, e não sobre o que acontecera com o resto deles. Depois de um ponto como este, e aí volto a trazer LOST, é difícil eu me decepcionar com o final. Este é o cume que me traz infinitas possibilidades, e não a simples idéia de uma catástrofe e seus desdobramentos. Além do que, LOST (na minha opinião) se trata muito mais da história de Jack Shephard, assim como "Y" com Yorick. 

No fim de tudo, não gostei da história apenas pelas referências ao cinema. O que quis dizer é que foram elas que me trouxeram a grata sensação de imaginar que tudo seria possível na mão daquele roteirista, e que quando isso acontece, eu me contento com a infinidade de finais que eu posso imaginar, apesar do que ele teve que escolher. É como lembrar da batalha entre O Sonho e o demônio Choronzon, em Sandman. Depois daquela, eu posso passar minha vida toda imaginando histórias, apesar do final da série.

Escrevi este texto com o intuito de tentar mostrar uma das coisas que mais me cativa nos quadrinhos. E você, o que mais te cativa na nona arte?

* Miller`s Crossing no Brasil saiu com o nome de Ajuste Final.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.