Há até pouco tempo, se você perguntasse para qualquer aficcionado por quadrinhos ou cultura nerd em geral quem é Kenneth Branagh, muitos não saberiam dizer; outros, depois de consultarem os arquivos mentais, poderiam dizer: “Ah, Lockhart!”. E muito provavelmente a coisa terminaria por aí.

Hoje ele é mais conhecido por ser o diretor da versão cinematográfica de Thor, personagem criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby.

E quem de fato é Kenneth?

Nascido em 10 de dezembro de 1960, na cidade de Belfast, Irlanda do Norte. Aos 23 anos ingressou na Royal Skakespeare Company, a maior companhia britânica de teatro. Lá, participou de montagens de "Henrique V" e "Romeu e Julieta". Em 1984, saiu da companhia, alegando que ela era grande e impessoal. Montou então a Renaissance Theatry Company, tendo o Principe Charles como um dos patronos. Em 1989, foi indicado ao Oscar pela tradução de "Henrique V" para o cinema. Desde então ele passou a ser conhecido no mundo da sétima arte mais pelas suas versões das peças de Shakespeare do que pelos seus outros trabalhos.

Partindo das suas traduções para o cinema – que além de Shakespeare tem também o "Frankstein" de Mary Shelley – podemos notar que sua abordagem é o que muitos classificam como tradicional. Ou seja: não mexer muito. Isso no sentido de não fugir do lugar de fala do texto: se tal obra é ambientada na Dinamarca medievo/renascentista, a tradução também deverá ser ambientada lá. As únicas mudanças que ele praticamente efetua são no que concerne a linguagem, afinal a tradução de um texto teatral para o cinema sempre acarretará mudanças na sua linguagem, no modo como se comporta. Talvez a mudança mais brusca que já realizou foi em "As you like it", ao transpor a peça da França medieval para uma colônia europeia no Japão.

O que tudo isso quer dizer? Nada de muitas mudanças em uma obra.

Isso significa que veremos um Thor extremamente próximo dos quadrinhos? Não neste quesito, mas na forma como ele é apresentado. Kenneth possui uma bagagem muito bem estruturada em termos de drama enquanto gênero literário. Ele é muito bem versado na arte de não transformar enfadonho um monólogo extremamente denso e prender a atenção do expectador, de trazer sentimentos a falas que há séculos são tão usadas. Muito do seu destaque em cima do texto de Shakespeare foi trabalhando com nobres: Henrique V e Hamlet mostram muito dominio e atenção com as diversas relações de corte.

Sendo Thor um príncipe e com toda uma relação com a corte asgardiana, nada mais justo do que aproveitar essa bagagem shakespereana, dar um toque mais “refinado”; afinal, a sua própria forma de falar é diferenciada, rebuscada, mais uma forma de confirmar o seu papel como deus do Trovão.

Em entrevista ao site Collider (em inglês), Kenneth afirma que, apesar da sua bagagem shakespereana, não gostaria que os personagens soassem shakespereanos, que gostaria de mostrar que apesar de deuses, eles são como os meros mortais que vivem na Terra.

Depois de tal afirmação, sou obrigado a dizer que já não espero mais nada do filme. A relação de Thor/Odin é tão plebeia quanto Hamlet Pai/Filho – ambos sofrem com a sombra do pai; a arte de criar intriga de Iago e Loki é tão comum da natureza humana que  não é necessário muito esforço para haver uma identificação.

O “shakespereano” a que Kenneth se remete é o que então?

Espero responder a esta pergunta amanhã…

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.