O Escalpo, antigo costume dos indígenas norte-americanos, consistia em arrancar o couro cabeludo das vítimas, de forma a amedrontar os inimigos, demonstrando poder e violência. A comunidade indígena dos Estados Unidos, que fora tão importante na história dessa nação, se desenvolveu, e apesar de manter muitos de seus costumes, muita coisa mudou.

Desde a colonização do país, que foi feita como povoamento (e não exploração como no Brasil), os índios americanos enfrentaram batalhas por seus direitos e crenças. Assentando-se em comunidades independentes, preservaram terras e hábitos, e mesmo tendo a colonização sido feita de forma diferente do que em outros países, ainda sim foram caçados e tiveram suas terras invadidas. No século XIX, por exemplo, sobre pretextos arranjados e mal explicados, realizou-se um massacre indígena, matando milhões. Isso paralelamente a Guerra de Secessão, onde estados do norte do país entraram em conflito com o sul, principalmente por divergências em questões escravagistas e latifundiárias. No ano de 1854, uma emocionada carta do chefe Seattle em resposta a proposta de compra de territórios tornou-se famosa. Porém tal proposta era uma exeção, já que o genocídio continuava com a disseminação de doenças, tomada de terras e confinamento dos Indígenas em reservas cada vez menores.

 

"_ Você é daqui?

 _ Nascido e criado.

 _ Beleza, então me diz… O homem branco botou teu povo aqui pra subjugar vocês certo? Pra mantê-los longe das ferrovias e fas minas. Basicamente deixá-los fora do caminho. Então por que ficar por aqui todos esses anos? Por que não mudar par um lugar onde haja trabalho e o solo não esteja atulhado dos ossos dos teus ancestrais massacrados?

_ Por que este é o único lugar onde podemos permanecer autônomos e manter a nossa cultura viva. Cê ta certo, os brancos nos puseram aqui pra morrer. Mas a gente resiste ao viver. Nós revidamos todos os dias, apenas sobrevivendo. Cê é antropólogo ou algo assim? Veio pra estudar modos antigos?

_ Não, senhor. Sou apenas um aficionado por história.

_ Justo. Bom, cê veio ao lugar certo, então. Temos um monte dela aqui. Cê devia ir ver Wounded Knee, o Little Bighorn e a Escola Nuvem Vermelha. E talvez não seja histórico, mas nós temos um cassino também.

_ Um cassino, hein? Pode ser que eu vá conferir."

Diálogo extraído das páginas 6 e 7 de Escalpo 25, publicado em Vertigo 25, Panini, Janeiro.

 

É fato que os cassinos também foram parte importante da história norte americana. Cidades como Las Vegas, por exemplo, foram feitas em função do jogo. E os direitos indígenas adquiridos estão diretamente de acordo com estes interesses. Hoje, as reservas indígenas possuem certa independência do país, aflorescendo sua sociedade e suas culturas, mas ainda sim possuindo cidadania norte americana. Com isso, possuem diversas regalias como certas isenções fiscais, que possibilitam a abertura de cassinos com mais vantagens do que cidadãos norte americanos não indígenas.

E é sobre este panorama que Jason Aaron (roteiro) e R. M. Guéra (arte) construiram esta que é considerada por muitos o melhor título atual da Vertigo. A reserva Rosa da Pradaria, na Dakota do Sul, é o lar de Lincoln Corvo Vermelho, administrador local e dono do recém inaugurado cassino Cavalo Louco. Os negócios locais são obviamente sujos, com a associação de Licoln com criminosos da reserva e gangsters de fora. E é por isso que o FBI envia Dashiell Cavalo Ruim como agente infiltrado para prender o chefão. Mas Dash, que nasceu na reserva e fugiu quando criança, tem muito a descobrir, pois o crime e o silêncio possuem raízes fortes nesta comunidade. Sua mãe, Gina Cavalo Ruim, é uma antiga ativista local, que lutou muito pelos direitos de seu povo. Uma narrativa tensa, com uma arte rígida, rabiscada e suja formam a combinação perfeita para manter os fãs lendo número após número.

Escalpo não erra. Diferentemente dos outros títulos do Mix, que apresentam altos e baixos, a história se mantém sempre constante. Com excelentes diálogos, cenas de ação, violência e sexo não censuradas, e argumentos dignos, é o verdadeiro quadrinho adulto, que respeita o leitor sem apelações ou atitudes forçadas. 

Finalmente, em minha opinião, o mais interessante de Escalpo é a profundidade do roteiro. Além de toda a pesquisa e as informações que representam dignamente a realidade indígena, os personagens são de uma riqueza e de um argumento que dificilmente se encontra igual. Coadjuvantes como o sádico Sr. Fodão, o jovem Dino Urso Pobre e o Golpista (até agora não identificado), que detém o diálogo recortado nesta resenha, tornam a história cativante. São eles que nos possibilitam diversas reflexões, que é o que eu atualmente busco nos quadrinhos.

A série, prevista para ter 60 edições, terminará de ser publicada no segundo semestre de 2012 nos EUA.

Referências:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Povos_nativos_dos_Estados_Unidos

http://pt.wikipedia.org/wiki/Genoc%C3%ADdio_dos_ind%C3%ADgenas_dos_Estados_Unidos

http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_de_Secess%C3%A3o

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.