Depois de um primeiro vislumbre (Você leu a primeira parte, não é? http://quadro-a-quadro.blog.br/erraticidade-espirita-nos-quadrinhos-primeira-parte/), obviamente dinâmico, sobre relações entre quadrinhos e espiritualidades, outras questões vêem a tona. Buscando especificidade, tratam, algumas obras, da existência de dois mundos antagônicos naturalmente, de onde um se habita o corpo material e o outro é apenas transponível somente enquanto espírito. Num outro exemplo, a dívida espiritual, ou seja, o carma (ou karma), e a idéia evolutiva da reencarnação bastante defendida pelas diretrizes espiritualistas, inclusive o espiritismo kardecista.

A apropriação fantástica dos elementos singulares das religiões espiritualistas é ocorrência bastante comum em produções para públicos mais maduros. É o caso da obra A Guerra de Luz e Trevas, de Tom Veitch e Cam Kennedy lançada no Brasil em 1990. Nela, um soldado da Guerra do Vietnã mutilado transita sua essência espiritual entre o plano material e o plano imaterial, vislumbrando uma guerra entre tendências morais. Tal obra chegou a ser apresentada como roteiro para o cineasta James Cameron, que a negou e anos depois produziu o filme Avatar com temática muito semelhante.

O carma é a dinâmica espiritual de dívida, onde as ações danosas de alguém deverão prestar contas com uma justiça superior, nesta ou em outra vivência, ou seja, outra encarnação. Entretanto, o carma sugere uma rigidez onde os indivíduos são levados a cumprir e pagar penalidades, diferente do conceito da chamada lei de Causa e Efeito que os espíritas atualmente preferem definir. André Diniz e Antonio Eder lançaram a revista em quadrinhos 7 Vidas: A aventura de uma pessoa e seus passados em 2009, pela editora Conrad com essa questão e a reencarnação como tema.

Tal lei permite, então, que esse ciclo odioso seja encerrado pelo perdão e pela caridade, dentro do livre arbítrio humano. Porém, na história em quadrinhos Void Indigo, uma agressão monstruosa, torturas e assassinatos, justificam a ação do personagem principal em buscar vingança mesmo tendo passado milênios do evento. Com roteiro de Steve Gerber e arte de Val Mayerik, a obra que saiu em edição única no Brasil, em 1989, e nunca foi finalizada.O protagonista reencarna no corpo de um poderoso guerreiro alienígena para vingar a sua morte e a morte de sua amada pelas mãos de perversos magos também reencarnados na terra.

Mas nem tudo são vinganças e batalhas, muitas vezes as reencarnações são tratadas de forma menos violentas, mas nem tanto menos dramáticas. As vidas de Gavião Negro e Mulher Gavião, da DC Comics, são mantidas por um balé de encontros e desencontros, desde que tal estrutura narrativa foi inserida em sua mitologia. E assim, planos espirituais, energias de outros planos da existência, carmas e almas que não descansam, rondam os universos em quadrinhos. Não fazem, porem, tal uso de maneira sistêmica para a legitimação de uma crença, mas como apropriação de uma temática bastante comum para se enriquecer narrativas.

Uma das aventuras do Batman, por conta da tão costumeira desenfreada ação, porém, o deixou em estado de coma. Enquanto seu corpo físico era cuidado pelo seu paternal mordomo, a alma de Bruce Wayne vagou por uma dimensão metafísica e se encontrou com outros espíritos perdidos. Essa trama foi narrada e desenhada magistralmente por Scott Hampton para o título Legends of the Dark Knight, lançada no Brasil pela editora Abril em 1997 como Um Conto de Batman: Coma, em duas partes. A luta de Batman neste mundo etéreo é para voltar ao mundo físico, como tratam muitos relatos de experiências de quase morte.

Longe de esgotar o tema, a reflexão aqui busca apenas entreter os leitores, assim como fazem os quadrinhos espiritualistas. Se há uma aceitação (ou não) de suas estruturas, questão de fé, não são aqui pensadas como verdades ou mentiras, mas como curiosidades dentro de narrativas da Indústria Cultural. Dentro de meu limite em ambos os terrenos, quadrinhos e espiritismo, busquei na memória aquelas obras que me marcaram, me fazendo, hoje, dividir com vocês tal reflexão.

 

 

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!