A Editora Nemo estreou e já colocou nas livrarias brasileiras excelentes álbuns em quadrinhos e o seu editor conta o que vem por aí e quais são os objetivos da editora.

Por Lucas Pimenta e Lillo Parra

 

[QaQ] Você é um dos roteiristas mais respeitados e experientes do mercado, além de já ter recebido diversos prêmios. E agora é o editor de um projeto desde o nascedouro. O que é a Editora Nemo e como ela pretende atuar?

[WS] A NEMO é a editora de quadrinhos do Grupo Autêntica. Estamos iniciando agora um projeto a longo prazo, cujo principal objetivo é publicar quadrinhos de qualidade, criados por autores nacionais e estrangeiros. Para isso, estamos trabalhando com edições no formato álbum, com ótima impressão e acabamento, vendidas a preços acessíveis. Neste início, temos séries e coleções que trazem clássicos europeus e também novas HQs produzidas por talentos brasileiros contemporâneos. E isso é apenas o começo!

[QaQ] Nesta semana a Nemo entrou no mercado com três álbuns. Entre eles Arzach, o lendário álbum de Moebius, inexplicavelmente inédito no Brasil. A que você credita o ineditismo dessa obra?

[WS] É realmente inexplicável o fato de um clássico revolucionário e tão influente como Arzach ter ficado mais de trinta anos inédito no Brasil. Talvez tenha sido uma questão de falta de visão ou de desconhecimento por parte dos editores (já que outras obras do Moebius foram publicadas por aqui nas últimas décadas). Mas é realmente um mistério…

[QaQ] Com um mercado que oferece pouquíssimas opções ao leitor brasileiro do material franco-belga, publicar Arzach, uma série de quatro contos sem palavras não é uma escolha ousada para a primeira publicação européia da editora? Acredita que o leitor brasileiro está mais maduro para esse tipo de obra?

[WS] Mas publicar Arzach é uma aposta segura! Que outro álbum, ainda inédito no Brasil, revolucionou a linguagem dos quadrinhos, inovando na narrativa e na estética, causando um impacto absurdo quando lançado e influenciando o trabalho de gerações de quadrinistas desde então? O trabalho do Moebius, nessa série e nas HQs que publicaremos nos volume seguintes da coleção, transformou não apenas os quadrinhos mas também o cinema, o design e até a moda. Então, começar pela obra com a qual Moebius iniciou sua revolução estética nos pareceu uma ótima opção. E além das quatro HQs clássicas sem balão, nossa edição traz “O Desvio”, a primeira história de ficção & fantasia de Jean Giraud (o futuro Moebius), e também mais três HQs do universo de Arzach.

[QaQ] A Coleção Moebius tem previsto quantos volumes e quais as obras do artista que serão publicadas? Qual a periodicidade da coleção?

[WS] A coleção terá mais quatro volumes depois de Arzach. O próximo trará HQs de ficção científica em P&B, como “Absoluten Calfeutrail”. O terceiro volume trará a versão completa e em formato original da coletânea O homem é bom?. Depois teremos A Garagem Hermética e As Férias do Major, ambos sobre o inusitado universo ficcional do personagem Major Grubert. A ideia é lançarmos um volume por semestre, então teremos mais um ainda neste ano e mais dois em 2012.

[QaQ] A Nemo anunciou a publicação de Corto Maltese – A Juventude, primeira história na ordem cronológica do personagem de Hugo Pratt. Corto Maltese tem um histórico de publicações inconstantes no Brasil. Qual será o diferencial dessa retomada de Corto Maltese? A Nemo pretende publicar apenas álbuns inéditos ou relançar tudo em ordem cronológica?

[WS] Os álbuns do Corto Maltese constituem uma série, mas também podem ser lidos como histórias independentes. Então, em princípio, poderíamos optar por publicar qualquer um de seus volumes. Mas escolhemos A Juventude justamente por se tratar da primeira aventura na cronologia ficcional do personagem. Com isso, os antigos leitores poderão descobrir como ele e Rasputin se conheceram, enquanto os novos leitores serão apresentados ao jovem Corto, em primeira mão. Partindo deste ponto, não faria sentido agora continuarmos pelos volumes seguintes, já que eles foram publicados no Brasil recentemente e ainda se encontram disponíveis para venda. Assim, seguiremos com os volumes mais à frente.

[QaQ] Corto Maltese – A Juventude é uma das duas aventuras de Corto que foram publicadas originalmente em cores. A versão da Nemo será em cores?

[WS] Sim, a edição da NEMO seguirá as características da edição europeia, ou seja, impressão em cores e capa dura, com papel de alta qualidade, e o mesmo conteúdo de extras. A única diferença é que nossa edição será publicada em português do Brasil. No mais, ela será igual às europeias. Em setembro, todos poderão conferir o belo álbum que estamos preparando!

[QaQ] Falando agora um pouco da produção nacional. Ciranda Coraci e O Senhor das Histórias, álbuns lançados nesta semana, possuem um público certo – o infantil – mas ainda assim abordam temas pouco usuais nesse segmento. Essa seriedade com o público alvo será a tônica da Nemo?

[WS] Os álbuns da série Mitos Recriados em Quadrinhos não são exclusivamente para crianças. Eu os tenho chamado de quadrinhos também para crianças, pois acredito que o público infantil, ao qual os álbuns são dedicados, não será o único a se interessar por eles. Suspeito que jovens e adultos também gostarão bastante do que Will e eu criamos. Mas retomando especificamente a questão, o respeito pelos leitores, em todas as fases do processo editorial, será sempre uma característica da NEMO. Sejam crianças, jovens ou adultos, nossos leitores terão sempre sua inteligência e sua sensibilidade respeitadas.

[QaQ] Como alguém formado em História, você sabe que alguns episódios de nossa história são particularmente complicados de serem abordados em toda sua complexidade, pela falta, inclusive, de fontes primárias. A coleção História & Quadrinhos pretende abordar apenas aspectos da história brasileira oficial ou trabalhará também com personagens fictícios inseridos em episódios históricos?

[WS] O termo “história oficial” é meio complicado, mas, no sentido que se costuma dar a ele, o que posso dizer é: não, nosso objetivo com a coleção História & Quadrinhos não é repetir uma versão tradicionalista da História do Brasil. Nossos álbuns partirão de fontes e de pesquisa historiográfica atual, buscando ser o mais próximos possível da versão dos fatos mais aceita hoje. Mas, pelas próprias lacunas que fazem parte da História, às vezes é necessário compor com personagens e situações que não são “documentados”, mas que sejam plausíveis e adequados à história que se quer contar. E também seguiremos o caminho de contar uma história, partindo de um contexto historiográfico documentado e tendo como coadjuvantes personagens históricos que existiram.

[QaQ] Num mercado super aquecido em adaptações literárias, ainda há espaço para inovações? Quais serão os diferenciais das coleções Shakespeare em Quadrinhos e Versão em Quadrinhos?

[WS] Nessas duas coleções, não estamos exatamente preocupados em ser “inovadores”, porque às vezes as pessoas buscam ser “inovadoras” e apenas inventam moda, criando trabalhos inadequados, que não condizem com as obras originais que lhes serviram de referência. Nossa concepção aqui é a de que quando um leitor compra uma HQ com o nome Machado de Assis ou William Shakespeare na capa, é direito dele que a história em quadrinhos que irá ler traga os elementos essenciais da obra original; ou como se costuma dizer, que ela seja fiel ao texto original. Essa então é a diretriz que guia as duas coleções de adaptações. Dito isso, nenhuma adaptação substitui ou deve buscar substituir o original; são obras diferentes, em linguagens diferentes e cada qual possui suas possibilidades e limitações próprias. Assim, nosso objetivo nessas coleções é produzir HQs que sejam fiéis aos clássicos originais, mas que também sejam histórias em quadrinhos com qualidades próprias. E a julgar pelos roteiros, que já estão prontos, e pelas primeiras páginas desenhadas, teremos em breve álbuns belíssimos e deliciosos de ler!

[QaQ] Quais serão os primeiros títulos dessas coleções a serem lançados?

[WS] Na Versão em Quadrinhos, começaremos com minha adaptação de Dom Casmurro, desenhada por José Aguiar. Na Shakespeare em Quadrinhos, lançaremos este ano Romeu e Julieta, por Marcela Godoy e Roberta Pares, Sonho de uma noite de verão, por Lillo Parra e Wanderson de Souza, e Otelo, por Jozz e Akira Sanoki.

[QaQ] Neste momento, os títulos nacionais da Nemo privilegiam segmentos do mercado que podemos classificar (se é que isso é possível em se tratando do mercado nacional) como estáveis. O projeto da editora também prevê o investimento em quadrinhos autorais?

[WS] Sim, futuramente também nos aventuraremos por mares mais “instáveis”. Mas devo fazer a ressalva de que todos os álbuns da NEMO já são “autorais”, já são criações artísticas dos roteiristas e desenhistas que estão trabalhando conosco.

[QaQ] Para fecharmos, Moebius, Pratt, investimentos na produção nacional… O que mais vem por aí?

[WS] Bom, quadrinhos em plataforma digital, mais álbuns nacionais, mais Moebius, mais Pratt, e também Jacques Tardi e Enki Bilal (para ficar apenas nos que estão confirmados)… Mas aguardem, pois a NEMO ainda terá muitas novidades!

— Lucas Pimenta queria ser Martin Mystère. Não queria uma pistola de raios e sim a capacidade de enrolar uma noiva da mesma maneira...