O site Quadro a Quadro tem o orgulho de iniciar uma série de entrevistas com nomes de destaque na pesquisa sobre quadrinhos (no Brasil e, quiçá, além) com a presença da Doutora Geisa Fernandes. Nascida em Niterói (Rio de Janeiro), tem diversos questionamentos sobre quadrinhos que viraram artigos e capítulos de livros, enriquecidas suas participações no Observatório de Histórias em Quadrinhos (ECA/USP) e na Área de Narrativas Dibujadas de la Carrera de Comunicación (UBA). Geisa coordena o grupo de pesquisa História & Quadrinhos: Pesquisa e Ensino em História e as Interações com a Nona Arte da Associação Nacional de História (ANPUH) e é Vice-coordenadora do Comic Art Working Group (IAMCR). Além dos trabalhos acadêmicos com quadrinhos e narrativas de humor, Geisa é cantora e compositora, tendo lançado seu primeiro trabalho em 2013.

 

 

Quadro a Quadro: Olá Geisa! Obrigado por aceitar a entrevista! Estamos honrados com sua presença. Vamos começar com curiosidade amistosa: Qual sua relação com quadrinhos, charges e caricaturas antes da academia?

Eu é que agradeço a oportunidade. É sempre um prazer poder falar sobre quadrinhos. Minha relação com os quadrinhos vem do tempo de criança. Desde que aprendi a ler, comecei a ler quadrinhos. Sempre pedia para minha mãe trazer alguma revista para mim da banca do bairro. Nunca tive preferências por um personagem específico, mas tinha que ser de humor. Lia Zé Carioca, Condorito, Trapalhões, Disney e, sobretudo, a Turma da Mônica. Primeiro eu aprendia bem a história e depois lia para os meus primos menores, como se fosse uma leitura dramatizada fazendo as vozes dos personagens.

QaQ: O que mudou nessa sua relação com a academia? Quais questionamentos lhes motivaram?

Eu nunca havia pensado em pesquisar quadrinhos, aliás, em nada que fosse além dessa relação lúdica, pessoal. Eu não desenho, por exemplo, e, embora desde muito novinha escrevesse (contos, poesias) nunca pensei em fazer uma história em quadrinhos. Sou graduada em História e durante o curso nem me ocorreu qualquer tipo de ligação com as histórias em quadrinhos. Entre o fim da graduação e o mestrado se passaram 8 anos e, nesse meio tempo, eu morei fora do país e foi aí que a relação com os quadrinhos mudou. Eram os anos 1990 e a internet ensaiava seus primeiros passos, nem sinal de redes sociais, alguns blogs, enfim, a publicação impressa tinha outro peso. Eu estava na Alemanha e não era muito fácil conseguir impressos do Brasil. Quando alguém vinha me visitar eu pedia que me trouxessem livros, revistas e histórias em quadrinhos, além de fitas cassete (!) com as novidades musicais. Nessa época eu já estava em busca de um tema para o mestrado, sem muito sucesso e nenhuma leitura teórica me motivava. Resultado: eu acabava mesmo era lendo quadrinhos. Brasileiros, alemães, portugueses o que aparecesse. E daí surgiu a questão: por que sempre há espaço para os quadrinhos? Por que esse tipo de leitura é tão envolvente? Por que ler quadrinhos é tão prazeroso? O que aquela linguagem tinha de tão especial? Paralelamente, pelo fato de estar num país estrangeiro, as questões ligadas à identidade, particularmente à identidade nacional e como elas apareciam representadas nas histórias em quadrinhos me chamaram a atenção. A partir daí comecei a me interessar mais pelas caricaturas também. Voltei para o Brasil com o esboço do que se tornaria a minha dissertação: a discussão da identidade brasileira nos quadrinhos, a partir da obra de Mauricio de Sousa.

 

QaQ: Sua experiência dentro e fora do país consegue fornecer um prisma singular. Como você vê os espaços que os quadrinhos veem ocupando nas academias nacional e internacionalmente?

No Brasil é visível o crescimento do espaço ocupado pelos quadrinhos dentro do ambiente acadêmico em trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses. Além disso, outros espaços públicos como bibliotecas e centros culturais estreitam sua relação com a linguagem, promovendo encontros entre desenhistas, pesquisadores e o público em geral. Apesar de continuarmos "avis rara" para as agências de financiamento, a mim me parece que a pesquisa de quadrinhos no Brasil vai muito bem. Pensando no cenário internacional, eu arriscaria dizer que há menos motivo para comemoração. Há, claro, ótimas notícias, como o fato da Universidad de Buenos Aires (UBA) ter reconhecido, em 2013, a área de "Narrativas Dibujadas", sob a coordenação das Profas. Mariela Acevedo e Laura Vazquez. A Argentina, vale dizer, lida muito bem com a mistura de pesquisa e produção de quadrinhos e busca um diálogo intenso entre desenhistas e pesquisadores, ligação que poderia ser melhor explorada no Brasil. Porém, os grupos de pesquisa em histórias em quadrinhos ainda sofrem para se manter na ativa em grandes eventos internacionais. O Comic Art Working Group (CAWG), criado pelo Prof. John Lent é um bom exemplo: o grupo completou 30 anos ano passado, mas esse longo percurso se deve, antes de mais nada, ao empenho e persistência do Prof. Lent. Desde o ano passado assumi a vice-coordenação do grupo e percebo as dificuldades enfrentadas. Nas reuniões da associação a qual o grupo está ligado, a International Association for Media and Communication Research (IAMCR). Muitos colegas de outros grupos simplesmente desconhecem a existência do CAWG, apesar deste ser um dos grupos pioneiros do evento. Por isso, desde o ano passado, além de nossas reuniões, planejamos sempre alguma atividade extra, para a promoção do grupo. Esse ano, por um triste motivo (o ataque ao Charlie Hebdo) entramos na moda e há uma curiosidade maior a respeito do tema em geral. De uma maneira geral, no entanto, o caminho a ser percorrido ainda é longo.

QaQ: Acredita que essa curiosidade pode ser bem aproveitada ou não passa de oportunismo da mídia?

O oportunismo é evidente e não só por parte da mídia. No caso francês eu diria que foram os políticos os que mais fizeram uso do ataque, inclusive para promover medidas no mínimo discutíveis, como o aumento do "nível de segurança" e dos dispositivos de controle e vigilância de Estado (como o pouco simpático plano VIGIPIRATE). Michel Foucault dizia, entretanto, que o cerceamento costuma gerar positividades, ou seja, que a censura e as proibições impostas a um grupo geram soluções criativas, novas maneiras de lidar com a situação. Essa é a grande questão tanto para quem pesquisa, quanto para os desenhistas. Como aproveitar a visibilidade sem cair nas armadilhas da mídia e dos partidos políticos? A resposta pode estar em ações promovidas por desenhistas, cartunistas e chargistas franceses e belgas que, diante do cancelamento de vários salões de humor sob a alegação de "falta de segurança", promovem encontros independentes, como aconteceu recentemente em Montreuil. A descrição do encontro, em março passado, já evidenciava o caráter de resistência: "Em um contexto de autocensura, no qual os festivais dedicados a charges e caricaturas são cancelados, decidimos afirmar nossa ligação com a liberdade da sátira e nosso direito à farra subversiva."

 

QaQ: Você tem grande contato com quadrinhistas franceses, inclusive muitas deles do Charlie Hebdo. Como foram as suas impressões posteriores ao atentado?

A minha primeira impressão, quando vi as manchetes e fotos do atentado foi de pânico. Liguei para alguns amigos (um deles havia marcado de se encontrar com o Tignous após a reunião do Charlie e só não estava lá no momento do ataque porque mora mais afastado de Paris e queria chegar mais tarde). O clima inicial era de confusão total. Alguns dias depois o site do curso de História da UFRJ e o da Revista Ítaca, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais foram invadidos por hackers com uma mensagem escrita em inglês protestando pelo "desrespeito a Maomé". Eu me lembrei que em 2007 eu havia escrito um artigo, junto com o Prof. Waldomiro Vergueiro sobre as charges de Maomé publicadas pelo periódico dinamarquês "Jyllands-Posten" e republicadas pelo Charlie, O artigo publicado na Revista Alceu, da PUC Rio (disponível na internet) se chama: "Se Maomé não vai à montanha… Charge e crítica social no limiar do século XXI" e reproduz as tais charges. Pode parecer exagerado, mas pelo fato do artigo estar na web, com meus dados me deixou realmente com medo. O pior foi comentar isso com os cartunistas de lá e receber como resposta um nada tranquilizante: "Tome cuidado". Mas algumas reações por parte dos cartunistas já começavam a repercutir, como a publicação do Charlie #1, o primeiro número após o ataque e me pareceu que para sair daquele estado de medo eu também teria que me mobilizar. Contatei o Prof. Vergueiro e decidimos publicar outro artigo, retomando o tema à luz dos novos acontecimentos e, paralelamente organizo um debate sobre a imprensa independente e liberdade de expressão no encontro deste ano do IAMCR em Montréal. Uma exposição sobre o tema também está prevista para este ano.

QaQ: No mundo atual, liberdades e respeitos são balizas imprecisas, acredita que a questão Charlie Hebdo coloca isso em pauta?

Sim, claro. Logo após o ataque essa questão era, literalmente a cabeça da pauta da maioria dos jornais e revistas. Com o passar dos meses as manchetes mudaram, mas o ataque ao concurso de caricaturas sobre Maomé em Dallas, no último dia 3 mostra que o conflito entre as diversas liberdades (de expressão, religiosa, artística) continua. A presença de desenhistas, chargistas e caricaturistas nos debates sobre liberdade de expressão, no entanto, não é uma novidade. O que há de novo no cenário é que o ataque ao Charlie amplificou a voz destes agentes sociais. Após o ataque, mais de uma vez ouvi comentários do tipo: "Não sabia que os desenhistas eram tão importantes!".

QaQ: Em nome da equipe Quadro a Quadro, agradeço seu tempo e suas palavras, bom começar um projeto de entrevistas assim. Para os neófitos que ponderam adentrar o mundo acadêmico, em diversas áreas, com pesquisas com quadrinhos, quais seus votos e alertas?

O alerta é o que vale para todo e qualquer pesquisador: a academia é uma instituição com códigos e valores próprios que devem ser seguidos por aqueles que escolhem esse caminho. Seriedade no trato com o objeto, respeito às regras de pesquisa e cuidado na produção do texto final são (ou deveriam ser) premissas básicas de qualquer pesquisador. Porém a linguagem dos quadrinhos também tem seus caprichos e cabe a cada teórico encontrar sua maneira de lidar com eles, sem se deixar levar por paixões pessoais. Há que ser acadêmico, mas sem perder a diversão, o gosto pela leitura, a fascinação pela linguagem. Ser um pesquisador sério não significa produzir um trabalho chato, desinteressante. Esse seria meu voto aos que começam: apesar dos ditames acadêmicos, jamais percam de vista o prazer proporcionado pela pesquisa com histórias em quadrinhos. Divirtam-se!

— BATMAN em tempo integral e Historiador nas horas vagas, busca a verdade e enfrenta vilões em ambas as ocupações!