t1Por Taís Veloso*

* Taís Veloso é convidada do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pela mesma.

 

 

Marcello Quintanillha é um quadrinhista brasileiro, radicado em Barcelona. Teve sua primeira HQ publicada quando ainda era adolescente e vem trabalhando com novos quadrinhos, entre eles Tungstênio, Almas públicas, Sábado dos meus amores, Salvador, Fealdade de Fabiano Gorilla, tendo também várias obras publicadas em holandês, italiano e espanhol. Tivemos a honra de conversar com ele via email sobre a forma como ele vê os quadrinhos, as graphic novels, os autores que ele lê, o seu processo criativo entre outras coisas. Segue a entrevista. 

[Taís Veloso] Nas nossas trocas de emails, você me tocou em um ponto que eu não havia  percebido. Quando eu disse  que achava a sua graphic novel Talco de Vidro recomendável. Você respondeu que achava excessivamente genérica essa frase, porque toda e qualquer leitura não deixa de ser recomendável. Qual a sua relação com a leitura?  Você recomenda até os livros que você não gosta de ler?

t2

[Marcello Quintanilha] Se consideramos que uma leitura é “recomendável”, admitimos inevitavelmente que outras não o são. Para tanto, temos que nos submeter a uma determinada escala de valores, estabelecida por algum critério (a saber qual) que julguemos pertinente não só a nível pessoal mas também passível de ser aceita por terceiros, o que considero uma arbitrariedade.

A leitura de obras não consoantes com uma determinada convicção ou gosto pessoal é igualmente necessária se queremos ser capazes de formar um conceito que se estenda para além do meramente convencional; além de ser fundamental no sentido de compreender porque nos inclinamos a alguns critérios em detrimento de outros. 

Minha relação com a leitura data, em seus primeiros anos, da minha fascinação por tudo que representa a imagem impressa; tudo que envolve esse processo — expresso pelo meu interesse pelos quadrinhos antes mesmo de ser capaz de desvendar os estranhos códigos que preenchiam os espaços em branco que, por indicação, partiam das bocas dos personagens. 

Em um segundo momento, essa relação foi se construindo de maneira indelével desde que finalmente deixei atrás minha etapa escolar, fator determinante em meu afastamento do mundo da literatura propriamente dita, durante minha infância e começo da adolescência. 

A partir daí, a leitura, especialmente a literatura brasileira, adquiriu cada vez mais relevância no que se refere não somente à realização meu trabalho mas também à constituição de uma proposta influenciada pela forma como muitos autores foram capazes de equacionar suas vidas na direção de contribuir para aquilo que hoje entendemos por literatura brasileira.

[TV] Marcello, você começou a escrever muito jovem, aos dezesseis anos, os autores que você lia naquela época são os mesmos autores que lê atualmente, quais eram  os autores lidos por você em sua adolescência?

t3[MQ] A dinâmica do quadrinho nos leva a entender a autoria, muitas vezes, como um feito compartilhado por mais de um indivíduo. Nos meus primeiros anos, eu era quase que exclusivamente voltado ao universo dos quadrinhos e todos os autores que me influenciaram naquela época são os mesmos pelos quais tenho insubstituível apreço atualmente. Gulacy, Buscema, Pratt, Schuitten, Boucq, Jacobs, Crane, etc.

Naquele momento, começava a dar meus primeiros passos na literatura, e o efeito que a obra de Machado de Assis teve sobre mim foi suficiente pra subjugar todos os meus sentidos até os dias de hoje.

É importante, contudo, deixar claro que “escrever” no sentido de “narrar”, para mim, se refere sempre ao processo de fazer quadrinhos.

[TV] Você  tem HQS  em português e algumas traduções  em francês, espanhol, italiano… Mas você fala e compreende espanhol muito bem.  Já escreveu alguma hq em espanhol que não foi publicada ? Se sim, É diferente o seu processo criativo quando escreve em espanhol ou em português? 

[MQ] Escrevi a versão em espanhol de Tungstênio, o que deve ser entendido a partir do significado exato de “escrever uma versão” porque não há forma de se “traduzir” um texto literário ou quadrinístico.

E não, não há uma diferença substancial no processo de escrita.

[TV] Qual sua relação com as editoras? Você tem liberdade em colocar o que você quer nos seus quadrinhos ou eles sofrem alterações?

[MQ] Minha relação com as editoras se baseia na absoluta confiança. Tive a felicidade de trabalhar com editores que acreditaram no meu trabalho exatamente da forma como eu o proponho. De maneira que não, não há nenhuma alteração, nenhuma limitação. 

Tampouco tenho sofrido as admoestações comuns ao sistema de cumprimento de prazos, etc. Sei que não é usual trabalhar sob esses critérios, mas,  ao longo dos anos, tenho podido produzir de maneira absolutamente coerente com minha proposta.

t4

[TV] Quando você era mais jovem disse que ser quadrinhista não poderia ser uma profissão,e atualmente você continua com essa mesma opinião? Por que ?

[MQ] Sim, continuo, porque nunca estive disposto a me envolver com os quadrinhos de maneira meramente profissional. Não acredito no profissionalismo como um parâmetro necessariamente positivo, ou como um valor em si.

O que posso dizer a esse respeito é que nunca vi os quadrinhos como uma profissão ou um emprego. Os quadrinhos sempre foram um meio de expressão totalmente verdadeiro para mim e o distanciamento que pode advir de uma relação profissional nunca foi uma motivação.

[TV]  Se você for pensar na sua primeira obra e na última tem algum aspecto que pode ser encontrado nas duas?

[MQ] Meu interesse pela humanidade dos personagens.

[TV] O que você tem lido atualmente?

[MQ] Muitas obras da literatura espanhola, especialmente do século XIX, como Benito Pérez Galdós, Emilia Pardo Bazán y Mariano José de Larra.

[TV] Você acha que a graphic novel pode ser considerada superior aos quadrinhos?

t6Para considerar  a graphic novel superior a qualquer coisa eu teria que considerá-la como uma denominação válida para um determinado produto ou objeto e eu não a considero como designativo de absolutamente nada. 

A adoção do termo graphic novel se deve à histórica questão da denominação dos quadrinhos nos Estados Unidos: comics. Palavra cujo significado obviamente está impregnado de sentido humorístico, aliado também à tendência que tem a maior parte do público de identificar os quadrinhos com um produto infantil, ameno e descompromissado, quando todos sabemos que os quadrinhos não necessariamente se enquadram nesses parâmetros.

À luz dessa problemática, o termo teria sido alcunhado na intenção de redirecionar o entendimento daquilo que compõe essa linguagem para algo de maior seriedade e valor artístico, criando artificialmente a ideia de um novo tipo de produto, que deixasse atrás a noção clássica e mais popularizada de comics.

O que posso considerar um procedimento amplamente discutível, embora compreenda as razões pelas quais ele tenha sido adotado — e mais ainda se considerarmos que comics não são uma denominação precisa para uma linguagem como os quadrinhos. 

No caso do Brasil, vejo a importação do termo por duas vertentes básicas. Por um lado, a repetição de uma estratégia de marketing; por outro — fator que justifica o primeiro — a suposta evidência de que o termo história em quadrinhos, assim como comics, impregna o entendimento da linguagem, para a maior parcela do público, de um caráter diminutivo; infantil; por extensão, depreciativo.  

A grande diferença é que, ao contrário de comics, história em quadrinhos sim é um termo extremamente preciso para designar uma linguagem fundamentada na narração de uma história através de quadros pequenos.

Abrir mão de um termo como esse significa tomar como verdade o fato de que ele não abrange o correto entendimento da totalidade das propostas da linguagem, transferindo-se então a noção responsável por esse entendimento para um suposto “novo produto”. O que significa afirmar que os quadrinhos, como foram compreendidos até o presente, não são representativos de uma experiência formal a qual se possa atribuir valor de arte mas que as graphic novels sim, o que significa admitir que os quadrinhos falharam em se legitimar como proposta artística — considerando que a legitimação de uma linguagem como produto artístico representa, em si, um dado positivo. 

Pessoalmente nunca me interessei pela discussão em torno do coeficiente artístico dos quadrinhos, nem por alçá-lo a um tipo de status quo de alta cultura, nem nunca me incomodou o fato de os quadrinhos estarem associados a idéia de uma “arte menor”. Sempre estive, sim, interessado em sua objetividade como linguagem.

Portanto, é indiferente pra mim que as contingências do mercado se inclinem à aceitação do termo graphic novel. A qualquer um que me pergunte, continuarei dizendo que faço pura e simplesmente histórias em quadrinhos.

[TV] Seu primeiro quadrinho foi publicado aos 16 anos, desde quando você se lembra escrevendo e desenhando em sua casa?t5

[MQ] Essa lembrança se confunde com a mais remota recordação que tenho de estar diante de uma folha de papel.

[TV]  Você já escreveu algum romance sem nenhuma ilustração, mesmo que não tenha sido publicado?  Você pensa em escrever futuramente algum romance?

[MQ] Não, nunca escrevi. Até o momento não considero essa possibilidade.

[TV] Você acha que demorou de ser reconhecido no Brasil?

[MQ] Não. Sempre me senti reconhecido, muito embora não saiba exatamente o que depreender da palavra “reconhecimento”.

[TV] Qual pergunta você gostaria que eu fizesse aqui e não fiz?

[MQ] Qual meu prato favorito.

[TV] Ok , então essa pergunta vamos deixar pra uma próxima entrevista. Muito obrigada.

——————-

Taís, como a maioria das crianças dos anos 90 começou a ler quadrinhos na infância, a clássica revistinha “Turma da Mônica”, de Maurício de Souza, mas só foi se apaixonar de vez por “Fala menino“, de Luís Augusto. Na medida  em que foi crescendo  foi  se afastando dos quadrinhos, até ler a graphic novel “Azul é a cor mais quente”, de Julie Maroh, o que a fez voltar de vez a esse gênero e de agora em diante, não pretende parar mais. Está nos últimos semestres de Letras na Ufba, (Universidade Federal Da Bahia).

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.