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"Arte-final, a última impressão é a que fica".

Este é o lema de José Wilson Magalhães, Arte-Finalista com trabalhos publicados pela Disney, DC Comics, Marvel Comics entre outras.

Quando conheci Wilson na Quanta Academia, em 2009, a impressão que ficou é que além de muito talentoso, o artista era uma pessoa muito apaixonada por seu trabalho. Como pessoas que são apaixonadas por seu trabalho são por si só interessantes, surgiu a ideia de fazermos esta entrevista. Espero que gostem!

[QaQ] Desde o início de sua carreira, no Estúdio Ely Barbosa, você sempre trabalhou com arte-final. Sempre foi sua primeira ideia, ou planejava antes trabalhar como ilustrador ou desenhista? No Brasil poucos jovens tem os olhos abertos para esta oportunidade, o que você poderia nos contar como forma de motivação para novos desenhistas se tornarem também arte-finalistas de primeira?

[Wilson] Antes de entrar para o Estúdio Ely Barbosa, eu gostava de desenhar de tudo, achava que ia trabalhar com publicidade, não pensava em trabalhar com quadrinhos, mas o anúncio do jornal que precisavam de desenhistas com talento, criatividade, mesmo sem experiência, me chamou a atenção, e foi minha grande chance. Lá no estúdio eu vi que tinham várias profissões e oportunidade de crescer na carreira. Comecei operando uma fotocopiadora, fui vendo como cada profissional trabalhava, aprendi letras, arte-final, desenho, cor, fui auxiliar de arte, mas as canetas nanquim, que eu já usava no curso de Desenho Mecânico, me puxaram para a arte-final, e acabei me especializando. Depois passei para o pincel e minha arte foi evoluindo.

[QaQ] Quanto ao seu período na Editora Abril Jovem, como era finalizar os personagens Disney? Havia espaço para colocar um pouco do seu traço e de sua personalidade ou precisava seguir a risca o padrão estabelecido? É assim que funciona em geral com personagens padronizados, como os da Disney ou da Turma da Mônica?

[Wilson] Trabalhar na redação Disney da Editora Abril foi um sonho realizado. Nunca imaginei que um dia eu ia produzir os gibis que eu lia na infância. Entrei como assistente de arte, mas como já era arte-finalista, foi fácil a adaptação para o traço Disney. No início tinha de seguir um padrão, seguia os melhores arte-finalistas, tentava imitar o traço, mas como cada um tem uma interpretação na finalização e tinham vários desenhistas com estilos diferentes, que minha arte foi mudando. Apesar de que normalmente nos personagens infantis, Disney, Turma da Mônica, o traço não pode mudar para não perder a característica do estilo, todo personagem passa por uma evolução natural, passa a ser melhorado, e novos traços vão surgindo. Com o tempo, pude experimentar traços novos, inovar, arriscar, e assim, minha arte foi se destacando e eu fui sendo escolhido para fazer vários trabalhos especiais.

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[QaQ] Como foi sua entrada para Art&Comics? Faz-se um teste para a vaga de arte-final de um artista específico ou faz-se um teste geral? Hoje em dia já dá pra dizer que os arte-finalistas brasileiros tem tanto espaço no mercado como os desenhistas?

[Wilson] Minha entrada para o Art&Comics foi depois que eu decidi tentar trabalhar com o traço de heróis, que até então, eu não tinha feito ainda. Precisava saber se eu tinha condições ou não. Preparei meu portfólio com vários estilos de traço e procurei o Art&Comics para fazer teste. Fiz algumas páginas de artistas nacionais com estilos diferentes e logo fui aprovado. Ia arte-finalizar Whitchblade para a Adriana Melo, mas fui direto ajudar o Marcelo Campos a finalizar Lanterna Verde no traço do Ivan Reis, depois fiz uns testes com o Renato Guedes, que estava montando uma equipe, e comecei a finalizar Omac para a DC Comics. Logo percebi que o valor de página de arte-final tinha um teto, e que eu ia começar com um valor até um dia chegar nesse teto. Não acho que os arte-finalistas tem tanto espaço como os desenhistas, até porque muitos desenhistas fazem a própria arte-final, e com a arte digital, facilitou para qualquer um arte-finalizar, só que não tem a base de quem iniciou no papel com pincel e nanquim. Ainda se faz arte-final artesanal, com pincel e bico de pena, mas os bons arte-finalistas de papel estão ficando escassos.

[QaQ] Ainda sobre a Art&Comics, vimos muito dos artistas nacionais criarem um nome artístico americanizado para facilitar a entrada no mercado. Como foi com você?

[Wilson] Logo que me foi perguntado se eu tinha um nome artístico, eu disse que não, que eu assinaria meu nome completo. Nunca pensei em americanizar meu nome, ou inventar um pseudônimo ou apelido, sempre quis o meu nome completo: José Wilson Magalhães. Aí me disseram que os americanos não pronunciariam Magalhães corretamente, e no inglês não usam o acento. Agora eu pergunto: algum americano que vai trabalhar aqui no Brasil, vai abrasileirar ou aportuguesar o seu nome? Jamais. Então fiquei na expectativa de como sairia o meu nome nos créditos de Omac, e para minha surpresa, saiu melhor do que eu esperava, pois na primeira edição que eu finalizei, saiu assim: Specials Thanks for inker José Wilson Magalhães ( Agradecimentos especiais para o arte-finalista José Wilson Magalhães). E até hoje meu nome sai completo.

http://finalmentearte.blogspot.com.br/2006/09/crditos-omac.html

http://photos1.blogger.com/blogger/2245/3918/1600/Omac2pag3creditos.0.jpg

[QaQ] O que lhe motivou para arte-finalizar para a Marvel/DC? Havia algum sonho de criança de trabalhar com os personagens destas editoras? Há algum personagem com que gostaria de trabalhar mas não teve a oportunidade? Qual personagem mais gostou de arte-finalizar?

[Wilson] Eu queria experimentar fazer um traço desafiador, diferente do traço Disney e infantil, algo em que eu pudesse ter um reconhecimento e experimentar técnicas novas num trabalho mais artístico. Meu sonho é arte-finalizar o Batman, e tive uma pequena oportunidade em Omac # 7, onde apareceram o Superman, o Batman e a Wonder Woman, foi a glória. Depois finalizei uma revista especial do Superman & Batman Annual # 4, que foi um trabalho bem legal de fazer. Gostei muito de fazer a revista da Supergirl e depois a  do Superman. Entre uma e outra, tiveram as revistas especiais Action Comics que também marcaram muito na minha carreira na DC. Na Marvel, Wolverine foi um desafio e tanto, onde o Renato experimentou vários tipos de traço e minha arte foi evoluindo cada vez mais. No momento estou finalizando Disney para a Editora Abril e aguardando uma nova oportunidade com algum personagem marcante dos quadrinhos. Que venha o próximo desafio.

[QaQ]Como funciona trabalhar como Arte-finalista para o mercado americano? A arte-final é feita diretamente sobre os originais? Com quem fica cada trabalho feito?

[Wilson] Para o mercado americano ainda se faz a arte-final no papel original da editora. Esse original é vendido depois em Comics Con, é feito exposição, vai para o portfólio ou para a parede de alguns fãs. O legal de se fazer a arte-final num desenho original, é que a página ganha mais valor, o trabalho se torna completo, o talento de cada artista é revelado. Os originais ficam com os desenhistas, pois eles é que criaram as cenas, os personagens. Eu ficava com 20% das páginas de cada edição, num acordo que eu tinha com o Renato Guedes, ou seja, 5 páginas de 22 em cada revista.

Action Comics 847 pag 19

[QaQ] Durante seu tempo de Marvel/DC, sempre trabalhou em parceria com o Renato Guedes? As editoras contratam o trabalho da dupla ou havia alguma possibilidade de você ou de o Renato trabalharem com outros artistas? Há algum outro desenhista com quem gostaria de ter trabalhado, ou cujo traço gostaria de arte-finalizar?

[Wilson] Sim, foi o Renato quem me chamou para trabalhar com ele, onde fiz vários testes até chegar no traço de arte-final que ele queria. Ele já tinha experimentado vários arte-finalistas nos EUA e aqui no Brasil, mas não encontrou nenhum que fosse fiel ao seu desenho ou desse mais vida ao traço. Logo a gente se entrosou e não paramos mais de trabalhar, não sei se por exigência das editoras ou pelo próprio Renato que tinha liberdade para escolher sua equipe. Claro que existem vários desenhistas com quem eu gostaria de arte-finalizar, mas muitos mesmo, tanto brasileiros, como estrangeiros, mas isso é uma outra história que, quem sabe um dia aconteça.

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[QaQ] Um de seus lemas é: Arte-final, a última impressão é a que fica. Gostaríamos então que deixasse sua impressão final para nossos leitores! Grande abraço e muito obrigado!

[Wilson] Quando você molha o seu pincel com nanquim e passa por cima do desenho de alguém, marcando o papel para sempre, você está deixando a sua interpretação pessoal, a sua marca, o seu estilo, por mais que você seja fiel ao traço do desenhista, o último traço que vai aparecer na revista é do arte-finalista. É por isso que eu amo o que faço, amo a arte-final, e mesmo com meus 26 anos de carreira, ainda tenho muito o que aprender e muito o que ensinar. Por mais que me elogiem ou me critiquem, onde houver um desenho a lápis, meu lema sempre será "nanquim neles", é por isso que a última impressão é a que fica, e a interpretação é a do arte-finalista.

Abração a todos e até a próxima.

Green Arrow & Black Canary  26 página 26

 

 

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.