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“Vento solar e estrelas do mar,

a terra azul da cor de seu vestido.

Vento solar e estrelas do mar,

você ainda quer morar comigo?”

 

 

Os lábios dela tocavam meus ouvidos.

Meus olhos estavam fechados. A afinação de sua voz rouca, aquele canto sussurrado em meu ouvido, aquela noite deitados na grama da praça, as estrelas…

Cristo! Eu teria morrido por ela naquela noite. Teria lhe dito tudo o que sentia. Teria confessado todo o meu amor e fugiríamos dessa cidade, das pessoas, de tudo.

Ao invés disso, tudo o que consegui dizer foi:

– O que é isso que você está cantando?

Ela abriu aquele maravilhoso sorriso e entre o deboche e a diversão sentenciou:

– Você é uma criança mesmo. Não consegue nem enxergar além desses três acordes que chama de rock. Isso é Lô Borges…

Sim. Eu era uma criança recém saída de meus 18 anos. Ela, ao contrário, faria 30 em poucos dias e era uma mulher adulta. Estávamos no começo dos anos 90 e estudávamos na Faculdade de Belas Artes de São Paulo.

E eu ainda não conhecia Lô Borges, nem seu irmão Marcio, nem Toninho Horta, Fernando Brant, Beto Guedes e – pensando bem – nem o Milton Nascimento que existe além daquilo que sempre toca nas rádios.

Até aquela noite.

No dia seguinte ela apareceu exuberante em seu vestido, nas mãos uma inconfundível sacola amarela – a cor oficial dos sebos aqui de São Paulo.

– Toma, presente pra você ouvir nesse final de semana.

clube da esquina em quadrinhos para lennon e mccartneyEra o long play duplo “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento e Lô Borges.

E todo um mundo novo se descortinou a partir dali. Pulei de Black Sabath e Iron Maiden direto para canções como Paisagem na Janela, Dos Cruces, Clube da Esquina nº 2 e Tudo que você podia ser.

Revisitando as canções enquanto escrevo esta crônica consigo quase tocar aqueles mesmos sentimentos, de tão palpáveis, ou sorver os mesmos sabores que embalaram uma das fases mais alucinadas e deliciosas da minha vida.

Era uma época de sonhos e descobertas, como deve ser a juventude. A vida não teria metade da graça que tem hoje se tivesse acontecido de outra forma. Uma época de muitos caminhos e decisões.

Caminhos tomados ao acaso, por paixão, conveniência ou porque simplesmente era a única estrada a ser tomada.

Aquele disco não mudou a minha vida, mas foi um dos muitos caminhos que a trouxeram até este momento.

Por isso aguardava ansiosamente Histórias do Clube da Esquina, de Laudo Ferreira e arte final de Omar Viñole (Devir Livraria – R$ 19,50).

Eu precisava ver como tantas canções e sentimentos caberiam num gibi.

E couberam.

Clube da Esquina não é uma adaptação das canções do disco de mesmo nome lançado em 1972, mas sim um gibi sobre a turma de mineiros que carregou aquela alcunha. E sobre os caminhos que tomaram

O Brasil vivia uma fase de mudanças profundas na música, na literatura e nas artes em geral. A política era a tônica em cada Centro Acadêmico de cada colégio secundarista ou faculdade do país. Tudo cheirava a novo e nada seria como antes. O futuro era ali, naquela hora, não havia mais tempo a perder.

Até que o próprio Estado – na figura dos militares que o governava –  resolveu impedir que as mudanças efetivamente fizessem a diferença. Eles quase conseguiram.

Caladas as principais vozes do Tropicalismo, restava à musica exatamente aquilo que os militares queriam: uma paz ordeira e harmônica.

Obviamente que os rapazes de verde não contavam com uma inesperada rebeldia do até então bom moço Chico Buarque. Também não conseguiam entender o que aquele ser extravagante que atendia pelo nome de Matogrosso fazia nos palcos. Mas eram casos isolados, nada que não pudesse ser contido.

Mas eles definitivamente não esperavam que toda uma nova geração surgisse numa única tacada. Todos amigos, todos vindos das Geraes.

Se soubessem no que ia dar teriam sitiado Belo Horizonte.

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Um novo som, com letras cheias de significado subjetivo, carregadas de um lirismo incompreensível a aqueles homens acostumados ao pragmatismo da caserna. Um tipo de som imortal, que só foi possível porque eram jovens, eram amigos, cresceram juntos, se decepcionaram e sorriram pelos mesmos amores, sofreram as mesmas dores e curaram as mesmas feridas.

Um bando de jovens onde o palco era uma esquina e o texto eram notas musicais.

Numa época onde todas as vozes contrárias eram sumariamente caladas, um grupo de meninos que se reunia num canto de rua descobriu uma forma de cantar a liberdade e a beleza de se viver.

E é sobre os caminhos e escolhas que esses jovens tomaram, sobre como se amaram e como esse amor criou canções de que trata esse belíssimo Histórias do Clube da Esquina.

Com sua linguagem fragmentada, o gibi vai pouco a pouco nos inserindo naquele mundo que existia na Minas das décadas de 60 e 70. Como num documentário, vai nos apresentando os personagens que embalaram nossa juventude e que, até os dias de hoje, continuam inspirando jovens sentados nas calçadas de outras esquinas, de outras praças, com seus violões e garrafas de vinho.

Ler Histórias do Clube da Esquina nos aproxima desses notáveis mineiros que, como dizem as lendas regionalistas, “pelas beiradas”, mudaram a cara da música popular brasileira.

Ler o gibi do Laudo é como ouvir um pot-pourri de algumas das melhores canções que o país já produziu.

 

“Eu só preciso ter você por mais um dia…”

 

Sim, eu teria morrido por ela naquela noite.

Mas a vida se encarregou de me apresentar outros amores, outros caminhos.

Já o presente que ela me deu, deitados na grama olhando para as estrelas naquela noite, numa canção sussurrada em meu ouvido, durará a vida inteira.

Presente esse que agora resolvi guardar entre as páginas de um gibi.

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O verso no título dessa crônica pertence à letra de Manoel, o Audaz, de Fernando Brant e Toninho Horta.

Os trechos inseridos no texto são da canção Um Girassol da Cor de Seu Cabelo, de Lô Borges, em parceria com seu irmão Marcio.

— morreu num acidente inexplicável na Serra da Cantareira. Antes que seus familiares percebessem, já havia virado um Zumbi. Para aplacar sua fome por cérebros humanos, passa as noites escrevendo no Gibi Rasgado. Seus amigos, com medo de seu apetite insaciável, o convidaram também para escrever no Quadro a Quadro. No momento ele está sob controle.