Quando tinha 13 anos, vi de perto a policia perseguindo um bandido – não lembro direito, acho que era um ladrão e traficante – pela rua onde morava; o meliante tentou fugir por uma casa e não encontrou saída. Dois tiros e segundos depois, dois policiais arrastavam o corpo sem vida e o jogaram na mala da viatura como se estivessem jogando um entulho. Nunca tinha visto uma pessoa morta até então. Não tive medo, não tive aversão. Apenas uma sensação de que o mundo ficava menos cheio…

Alguns meses depois, quando eu ia à escola, numa manhã de segunda-feira, deparo-me com uma aglomeração de pessoas no ponto de ônibus. Esguerei-me entre a multidão e vi aquele que seria a segunda pessoa morta que veria na vida: um adulto de 25 anos – naquela época eu já considerava adultos todos aqueles que tivessem 18 anos para cima – caido no banco do ponto, uma poça de sangue saindo da cabeça. Cometera suicídio por ter sido abandonado pela mulher. E a única coisa que consegui pensar naquele momento foi: “Que estúpido!”

Quando tinha 17 anos, um colega da escola foi assassinado junto com a namorada. Não possuia muita amizade com ele, mas o rapaz era querido por boa parte do colégio, um "João Roberto" da vida. A última vez em que falei com ele, foi um dia antes do assassinato. Cruzamos-nos no corredor e nos cumprimentamos: “Colé, Bomba! Beleza?” (Sim, esse era meu apelido no ensino médio) Ao qual respondi: “E aí, rapaz! Tudo certo?” E disse isso sentindo uma sensação de conforto por sentir que aquele cumprimento tinha sido verdadeiro e não apenas um “olá, tudo bem?” mecânico que vemos todos os dias pela rua.

Essas três lembranças sobre morte vieram à tona quando li Três Sombras, do francês Cyril Pedrosa. Não, a história não trata a morte da forma abordada acima, muito pelo contrário. Em quase 300 páginas somos apresentados a uma metáfora muito delicada e verdadeira sobre a única certeza que temos nesta vida, uma forma ímpar de mostrar uma verdade arrebatadora que só vislumbrei nos três eventos mostrados acima.

A história narra a trajetória de Louis – que vive junto com o filho Joachim e a mulher Lise em uma região distante, praticamente isolados do mundo, uma vida de paz e tranquilidade – percorre para salvar o filho de três sombras que surgem para levá-lo.

É difícil não se apegar ao jovem Joachim e não sentir pena de Louis por tanto esforço e sacrifício que faz para manter as três sombras afastadas, apego esse que em boa parte surge por conta do belíssimo traço de Cyril e seu pincel seco, tendo a perspicácia de saber quando e onde um diálogo funciona e em sequencias onde as imagens já dizem muito por si só, sensibilidade essa que nos remete às animações da Disney, afinal, o homem já trabalhou para a casa da Marvel na produção de O Corcunda de Notre Dame e Hércules.

Ao final de Três Sombras, é possível sentir que tivemos uma lição aos moldes antigos e muito didático, onde muitas verdades sobre a vida são ensinadas em forma de metáforas:  a morte está logo ali na colina, seja ela na forma de uma figura usando manto preto e segurando uma foice, uma linda roqueira toda de preto e carismática ou na forma de três sombras. O que se precisa é tratá-la com respeito, sem temor e entender que a vida irá seguir o seu curso…

Entretanto, uma outra leitura que é possível realizar de Três Sombras, essa muito mais otimista, a qual obtive em uma mesa de bar, quando um amigo – pai há três anos – relatava os planos que tinha para a filha: natação, judô, balé, vida escolar… A principio, não levei muito a sério, mas a forma enfática com que detalhava cada plano me fez pensar em como ele terá problemas quando a filha crescer e seguir e construir sua vida.

Isso porque é uma prática muito comum em diversas famílias: os pais se apegam tanto aos filhos que, mesmo depois de crescidos, fazem de tudo para mantê-los perto: frequentemente tenho notícias de jovens casais que, ao invés de sair para conquistar o mundo – leia-se: procurar seu próprio canto – são incentivados pelos pais a não cortar o cordão umbilical.

Essa é uma prática muito comum na cultura latina e vem de tempos da Roma Antiga com o seu patriarquismo, onde a figura de poder era o pai da família (ou avô), regindo seu pequeno “feudo” a ponto de até mesmo interferir no casamento dos filhos/netos para o “bem” da família.

Um dos momentos mais dolorosos para os pais, é quando finalmente constatam que seus filhos estão crescendo e a cada dia que passa, tornam-se mais independentes; o coração aperta quando eles dizem “ah, pai/mãe, não precisa me levar pra escola não, já posso ir sozinho” ou então “olha, não acham que já preciso de uma cópia da chave de casa?”. E claro que toda a vontade do pai ou mãe é manter a prole ad infinitum sob suas asas.

Três Sombras também é uma metáfora ao desapego, uma forma de ensinar aos jovens e aos pais que, em determinado momento da vida, um filho tem que seguir o seu caminho e que não há muito o que fazer para mudar esse fato. A proteção que Louis tem para com Joachim não durará para sempre, pois todos tem um caminho a percorrer, até mesmo seu filho.

Três Sombras é uma obra que já nasceu sendo um clássico, pois, seguindo a idéia de Italo Calvino, é uma obra que não devemos ler, mas sim reler.

Três Sombras foi lançada em Abril de 2011 sob o selo Quadrinhos na Cia. e conta com a tradução de Carol Bensimon.

— Adalton nasceu no último dia de uma lua cheia, mas acha que isso não tem nenhuma relação com a sua vida; começou comprando quadrinhos por puro modismo - uma edição da Turma da Mônica parodiando Jurassic Park; sua primeira compra consciente foi a edição nº 01 de Batman: A queda do Morcego, ainda formatinho. Acredita que irá terminar a graduação em Letras antes da catástrofe de 2012 e daqui até lá está estudando parte das traduções intersemióticas das peças de Shakespeare já produzidas. E nos interlúdios, tenta produzir roteiros a partir idéias rabiscadas em antigos pedaços de papel.