Dom Casmurro é uma das mais importantes obras da literatura brasileira e muito mais do que uma história que divaga sobre a possível traição de Capitu, é acima de tudo uma das mais belas narrativas sobre como lidamos com nossas emoções.

Sempre me refiro à adaptação feita por Felipe Greco e Mario Cau em eventos sobre educação e Quadrinhos e só agora me dei conta que nunca havia feito uma resenha. O que é uma vergonha, considerando que além de ter sido vencedora de um edital do Proac, também recebeu prêmio Jabuti em duas catergorias e um prêmio HQMIX por melhor adaptação literária.

Com prefácio do pesquisador Paulo Ramos e uma capa que não entrega nada do que se trata a trama, essa adaptação é considerada uma das mais fiéis à sua versão original, nas palavras do próprio Paulo. Apesar do mistério da capa escura, Dom Casmurro é um clássico, portanto, antes mesmo de abrirmos a HQ, sabemos que estamos diante de uma história de amor, intrigas, paixões e ciúme.

casmurro_completo.cdr

O que poderia ser um problema para os artistas diante da responsabilidade de adaptar uma obra machadiana, se tornou na verdade um grande trunfo. Ambos são apaixonados pelo livro, portanto, não permitiriam que sua obra não estivesse à altura de um grande mestre, ainda assim, sabemos que quem adapta um livro é na verdade um assassino (palavras de Elloar Guazelli se referindo às dificuldades de se daptar uma grande obra literária) e que ao cortar diálogos ou passagens inteiras, corre o risco de comprometer a coesão da história.

Isso não acontece em Dom Casmurro. Greco e Cau conseguiram conferir o mesmo ritmo da versão original, onde a história começa leve com o amor juvenil de Bentinho e Capitu e vai se tornando mais tensa na medida que os eventos se desenrolam, até que tudo se torna tão pesado que temos a sensação que o ar à nossa volta pode ser cortado com uma faca. O drama de Bentinho frente à possível traição de sua esposa revela o mesmo personagem obcecado e paranóico que conhecemos nos livros.

Por ser minha adaptação literária favorita, conversei com Felipe Greco recentemente para saber mais sobre o processo criativo. Já havia conversado com Cau anteriormente e confessei minha paixão pela imagem dos “olhos de ressaca” de Capitu. Como ele mesmo disse, a maior dificuldade que a obra oferece a um desenhista é que os personagens são descritos muito mais por suas características psicológicas do que pelas físicas, portanto, como traduzir em um desenho o “olhar oblíquo de cigana dissimulada” de Capitu e conferir aos personagens traços físicos que reflitam suas características subjetivas? Ainda mais quando para muitas pessoas, a Capitu é tão lembrada na imagem da atriz Maria Fernanda Cândido que já a interpretou na TV.

hqcapitu-1944788

Felipe me enviou algumas considerações sobre referências usadas ao longo de seis anos envolvido no projeto:

“Quando parei para fazer essa adaptação, pensei o roteiro a partir do toque de Bento na mão de Sancha. Na minha opinião, ali, sim, houve traição, pq o desejo se instalou no dr. Bento. Ele, sim, traiu Capitu e a si mesmo (ainda que em pensamento). Algo que ele projetou (para se proteger) em Capitu. O livro é sobre o ciúme, não sobre a tal suposta traição de Capitu com Escobar.” Sobre as referências:  

 

Parte 1: “Promessa”

William Shakespeare, Otelo (fala de Iago)… Pq é citada esta obra no original do Machado. É a obra máxima de Shakespeare sobre o ciúme (e, na minha opinião, tbém a mais erótica/sensual de sua obra).

 Parte 2: “Namoro”

Marcel Proust, A prisioneira. Pq é o autor que mais mergulhou nas paixões e no “humano”.

 Parte 3: “Seminário”

Caio Fernando Abreu, Morangos mofados (conto “Eu, tu, ele”). Pq era um escritor apaixonado (e, muitas vezes, não correspondido). Foi ele que me desafiou a escrever sobre as noitadas do centro de São Paulo. Isso foi lá pela década de 1990, quando nos conhecemos.

 Parte 4: “Casamento”

Arthur Rimbaud, Uma temporada no inferno. Pq  este, sim, visionário e contraventor, não teve medo de mergulhar nas labaredas do próprio inferno interior.

Obs.: para mim, é aqui que começa a melhor parte da trama do Machado. Sai daquela coisa melada do namoro Capitu-e-Bento. É aqui que o narrador (primeira pessoa, visão de um homem mimado, egoísta e ciumento) vai anulando a personalidade dominadora da “amada”.

 Parte 5: “Separação”

Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. Pq, essa é a que mais entende, na minha opinião, de narrar de modo magistral o caos/as tragédias do cotidiano.

"Outra referência importante foi utilizar o lado sombrio/soturno de “O corvo”, de Poe.

Machado traduziu para o Brasil (Pessoa, para Portugal). Alguns estudiosos dizem que foi depois dessa tradução que ele começou sua trilogia realista (Casmurro, Quincas e Memórias póstumas). Numa licença poética, escrevi a cena pós-enterro. Como não temos corvos, sugeri no roteiro uma ave de rapina que devora uma ratazana na frente dos filhotes dela. Simbólico isso. Ali, dentro do narrador, o ciúme já tinha começado a devorar a imagem (idealizada demais, tvz) de Capitu.

 Além das referências literárias, levamos para leitor a referência à sétima arte, fazendo (Cau e eu) figuração na cena em que Bento carrega o caixão de Escobar. Isso é uma referência ao Hitchcock, que até fez figuração em um bote de náufragos, aparecendo estampado em um jornal, numa propaganda de produtos para emagrecer. Eu estou ao lado de Bento, do outro lado do caixão. Cau, logo atrás de mim. Foi ele que bolou isso."

 14517579_1303267793017361_7630651955107374446_n

Então, está esperando o quê para conferir esta obra-prima?

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.