Depois que você se torna pesquisador de Histórias em Quadrinhos acredito que seja muito difícil ler algum gibi sem pensar nas possibilidades e diálogos que uma narrativa estabelece com uma série de conceitos.

Quando ganhei Dois Irmãos de uma querida professora de literatura eu não pensei em transformá-lo imediatamente em um artigo. A chance de falar dele sob uma perspectiva acadêmica veio depois, com a Jornada Temática. Li sem conhecer a versão original de Hatoum, embora já familiarizada com seu “amazonismo”. Posteriormente, lendo o texto original, fiz as devidas comparações e fiquei feliz em saber que assim como eu, o próprio Miltom Hatoum concorda que os gêmeos foram muito felizes em sua adaptação.

Por ocasião da II Jornada Temática, eu e o Alexandre Fidélis resolvemos então tratar sobre alguns dos conceitos que já estávamos familiarizados e avaliar de que forma eles são retratados na HQ. Por isso, deixo aqui um pequeno trecho do que foi nossa comunicação no evento:

Dois irmãos é uma HQ adaptada do livro homônimo do amazonense Milton Hatoum. Hatoum é hoje um dos mais importantes escritores vivos do Brasil e suas obras são constantemente referenciadas em trabalhos de literatura justamente por fornecerem pistas sobre o momento histórico em que documentos nem sempre são acessíveis, como na época da ditadura, por exemplo.

A versão quadrinizada também guarda forte conexão com a realidade uma vez que mantém as mesmas marcas que indicam essa relação, tal qual sua versão original. Ainda que se trate de uma obra de ficção, a cidade de Manaus e seus habitantes sempre tiveram papel significativo nas obras de Hatoum, funcionando muitas vezes como personagens das narrativas.

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Autores como Nestór Canclini e Manuel Castells se dedicam a estudar aspectos culturais relacionados à imigração em diversos países e em Dois Irmãos podemos observar algumas das relações relativas ao processo de imigração facilmente:  A relação conflituosa dos gêmeos libaneses Omar e Yaqub é contada por Nael, filho da empregada da casa Domingas, e nela notamos a tensão familiar e as relações dos personagens com a cidade e de que forma sua ascendência árabe determina muitas dessas relações.

Por meio da HQ notamos que, diferentemente do que ocorre na Europa, a imigração árabe na América Latina se deu de forma muito natural com a assimilação de costumes brasileiros pelos árabes (como o uso das redes) e da introdução de ritmos e outros hábitos em nossa cultura. O que se aproxima muito mais dos conceitos de hibridização cultural de Canclini que da hegemonia cultural de Gramsci.

A hibridização cultural de Canclini propõe que se quebre a ideia de imposição cultural de um grupo dominante para a miscigenação espontânea derivada da apropriação e internalização de hábitos aos quais os integrantes de um grupo são expostos. Isso ocorre devido à queda de centros como disseminadores de cultura e à ideia de que só estes centros seriam polos geradores de produção cultural, ou seja, a desterritorialização que muda o foco eurocêntrico de interpretação das culturas para um saber fragmentado que pode ser proveniente de diversas fontes, formas e meios.

Quanto às relações com a realidade em Dois Irmãos, elas vão além das representações da arquitetura urbana e podem ser observadas nas relações de seus personagens com o contexto onde estão inseridos. Pensando nisso, os irmãos Bá e Moon estiveram em Manaus para entender a relação dos manauras com a cidade e que é influenciada pela presença do rio Amazonas: “O rio é como uma estrada por onde todas as pessoas de todas as partes do mundo passam e por lá ficam”.

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Já na interpretação de teóricos como Certeau, Stuart Hall e Umberto Eco, os espaços podem ser analisados a partir de teorias relacionadas à prossêmica: “ Para a prossêmica, o espaço “fala”. A distância a que me ponho de outra pessoa que comigo mantém um relacionamento qualquer, carrega-se de significados que mudam de civilização para civilização. ” (ECO, 1971)

Hatoum e os irmãos Bá e Moon contam a mesma história, um relato dentro do qual há mapas e percursos que desenham a realidade subjetiva de personagens que transformam e são transformados pelo seu espaço de relações, ou seja, relações prossêmicas.

Nesse sentido, o espaço vivenciado pelos irmãos Omar e Yaqub exerce influência sobre eles funcionando como um instrumento de vingança e mudança de realidade dentro dos lugares que moldam o antagonismo dos gêmeos, ilustrando as fronteiras e distâncias estabelecidas entre seus vínculos.

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Alexandre  Fidélis Martuscelli é formado em Letras e participa do Observatório de História em Quadrinhos da ECA-USP. Além de atuar como professor de Literatura e Língua Inglesa no Centro Paula Souza em Peruíbe, também é um dos organizadores da Santos Comic Expo, evento de quadrinhos que acontece anualmente na cidade de Santos.

 

— Dani Marino é formada em Letras e ainda não decidiu se prefere viver no Sonhar, em Nárnia ou em Hogwarts.