BetoPor Beto Magnun*

* Beto Magnun é convidado do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião do autor, que é plenamente responsável pelo mesmo.

 

 

Quando comecei a comprar HQs (todos meses), eu só lia Marvel (embora tenha aprendido a ler com uma edição do "Os novos Titãs") e alguns mangás. Conforme o tempo foi tex1passando passei a comprar DC, depois Vertigo e depois de um tempo estava lendo de tudo. Mas sempre tive um pé atrás com os títulos “Bonellianos”. Pra quem não sabe a Sergio Bonelli Editore é uma das maiores editoras de quadrinhos do mundo. Seu título mais famoso é o do Cowboy Tex, publicado desde os anos 1940 na Itália e 1950 no Brasil. Em 2014 resolvi conhecer esse universo dos fumetti e comprei Grandes Clássicos do Tex n°30. Na verdade comprei porque achei a capa muito foda. Hehe Não terminei de ler até hoje… Depois de umas conversas em um grupo do facebook, eu acabei comprando algumas edições do Tex Ouro. Aí fui  fisgado. Corri atrás de outros excelentes títulos da editora italiana como Dylan Dog, Zagor, Mágico Vento e Júlia Kendall. E quando a Mythos anunciou esse especial pra mim já era compra certa. E comprei… Paguei os R$39,90 que era o preço de capa.

O encadernado abre com textos do Júlio Schneider e Gianmaria Contro, sobre o saudoso Sergio Bonelli, seus personagens e suas viagens pelo mundo. Sergio foi o maior e mais respeitado editor de quadrinhos da Itália, e faleceu em setembro de 2011. Quando assumia a função de roteirista, Sergio assinava seus trabalhos com o nome de Guido Nolitta, para que não fosse confundido com o pai Gianluigi Bonelli, o criador de Tex. Este especial traz histórias dos personagens que melhor descrevem o estilo de narrar do autor.

tex2Pra começar El Muerto, segunda história escrita por Nolitta, e que  é considerada uma das melhores histórias do Tex. El Muerto é um bandido com rosto deformado que afirma ter retornado para se vingar do Tex. Para atrair a atenção do ranger, o bandido mexicano ataca Jack Tigre e Kit Willer. Enquanto Tex e Tigre tentam descobrir a identidade de El Muerto, o bandido e seu bando deixam um rastro de sangue até o povoado chamado Pueblo Feliz.

A trama é um típico Spaghetti Western. Um sujeito buscando vingança, o ranger que nunca erra (eu pelo menos nunca li uma história em que o Tex erra um tiro), cheio de closes dramáticos é quase um filme em quadrinhos. A narrativa é totalmente diferente da americana (pra época). Diferente pois é uma história dos anos 1970 e não é verborrágica como a dos super heróis da época. Na minha opinião tem tudo pra agradar qualquer leitor iniciante. Roteiro muito bem escrito, ação na dose certa e bons diálogos. Ótimo pra sair da mesmice dos super heróis ou Narutos da vida.
Já os desenhos decepcionam um pouco. O primeiro Tex que comprei foi justamente por causa da capa do Galep (como assinava Aurelio Gallepini co-criador do personagem) . Apesar de ter bons momentos como o duelo final e cena do incêndio, nos closes parece que Galep desenhou as pressas. Além dos olhos tortos, em algumas cenas El Muerto está parecido com o Tex. Mas isso não chega comprometer a história.

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Uma nova vida publicada originalmente em Mister No #379, é a melhor história do mix. Criado por Sergio Bonelli no início da década de 1970, Mister No é como é conhecido o piloto americano Jerry Drake, um sobrevivente da 2° guerra. Jerry abandonou seu país desiludido com a violência e as imposições da sociedade. Em sua fuga escolheu o paraíso da plácida Manaus, cidade brasileira no coração da amazônia.
E na região amazônica onde aconteceram a maioria das aventuras do Mister No, durante as décadas de 1950 e 1970. Em 2005 a Sergio Bonelli editore decidiu cancelar o título, então Sergio, que não escrevia uma história do personagem desde 1994, escreveu os últimos 16 volumes da série mensal. E este especial traz a última história que foi publicada em 2006 em Mister No n° 379.

A trama mostra as últimas horas de Mister No em Manaus. O anti-herói revê alguns velhos amigos, e conta o porque da sua partida. A desilusão com aquela terra que já não é mais tão cheia de mistérios, a rápida industrialização que trouxe junto alguns dos motivos que fizeram Jerry abandonar sua terra.
Apesar de ter um clima melancólico de despedida, também há uma dose de humor. Nolita/Bonelli, através do de seu texto consegue transmitir para o leitor todo o amor que sentia por nosso país. Os desenhos do artista Roberto Diso são os melhores do especial, e também a única história em preto e branco, pois ainda não ganhou uma versão em cores. Antes do início da história ainda tem um pequeno texto contando a trajetória do personagem.

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Zagor foi criado nos anos 60 por Sergio. Era um personagem mais moderno e suas aventuras abraçavam mais conceitos que as que as aventuras de Tex. Em todas as histórias que li do Tex, ele está quase sempre lidando com bandidos “normais”. Enquanto Zagor já enfrentou cientistas malucos e até homens das cavernas (como visto nesta história).

Em A porta do medo, Zagor e seu amigo Chico, vão parar acidentalmente em vale escondido e habitado por povos pré-históricos. Os dois  se vêem as voltas com sacrifícios humanos e lutas intertribais. Um tema bastante explorado nos anos 60, até em séries de TV (eu particularmente acho demais esse tipo de história. Lembra um pouco desenhos como Dino Boy e o Vale Perdido). Cheia de ação e humor, é uma leitura divertida e leve. O ponto alto é quando, o líder de uma das tribos conta porque não quer fazer contato com o mundo fora do vale.
Os desenhos de Gallieno Ferri, tem uma narrativa meio dura, mas isso se deve a época (1966). Eu preferiria a versão preto e branca do que essa colorida.

E para encerrar 8 histórias curtas do Mister Bo, todas desenhadas por Fábio Celoni. Este personagem é uma sátira do Mister No, também criado por Sergio Bonelli. São histórias de uma página mostrando o atrapalhado Mister Bo, e a influência dos brancos na cultura indígena. E na oitava e ultima historieta, Celoni faz uma homenagem a Sergio, que tinha falecido poucas semanas antes.

O trabalho da Mythos foi impecável! Encadernado de alta qualidade, excelentes artigos, e digo que R$39,90 era preço justo a se pagar, infelizmente por aqui (quase um ano depois do lançamento) já começou a pipocar nas bancas os encalhes por R$12,90. E se você torce o nariz sempre que ouve alguém falando do Tex, pode comprar sem medo (aproveita pois R$12,90 é uma mixaria). Será uma ótima introdução ao universo dos Fumetti. E se ainda está achando caro existem títulos mais acessíveis como: Tex Ouro, Zagor, Zagor Extra e a excelente Júlia Kendall. Pois é uma pena que personagens tão bons sejam cada vez menos conhecidos do novo público.

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Beto Magnun é um mineirinho de 23 anos que lê HQs desde os 6 anos. Atualmente tenta tenta encontrar tempo entre os estudos, trabalho e as leituras (que nunca param), para se dedicar a produção de sua própria HQ.

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.