taisPor Taís Veloso*

* Taís Veloso é convidada do Quadro a Quadro. O conteúdo desse post expressa a opinião da autora, que é plenamente responsável pela mesma.

 

 

Diomedes, de Lourenço Mutarelli, é a compilação das obras cujo personagem principal é o detetive homônimo. A HQ é dividida em quatro partes, O dobro de Cinco, O rei do dioponto, A soma de tudo 1 e A soma de tudo 2. Esses quadrinhos foram vendidos separadamente no período entre 1999 e 2002, pela editora Devir, e a compilação foi publicada em 2012, pela Quadrinhos na Cia (selo da Companhia das Letras). A HQ tem 432 páginas, um livrão grosso, mas é o tipo de HQ que vale a pena a cada página, não sendo à toa que Mutarelli foi homenageado com a escultura de Diomoedes como troféu HQMIX de 2015.

Diomedes é uma verdadeira obra de arte. Lourenço Mutarelli foi impecável no texto, na arte do desenho, na ideia. Trata-se de um material híbrido, repleto de poesia e história e quadrinhos. Referências maravilhosas, de Valencio Xavier á Fernando Pessoa. De Glauco Mattoso a Sartre. 

O escritor Glauco Mattoso não é só citado, como também aparece no quadrinho e é incrível a forma que ele é representado, está muito parecido. Os traços do desenho estão magníficos, leves, o que as vezes dá a impressão de que Mutarelli teve maior cuidado com a arte nessa HQ. É uma HQ que passeia entre os estilos dramáticos, a comédia, suspense, é muito misto. Ler Diomedes pra mim, foi extremamente prazeroso, uma leitura muito divertida e engraçada.

Diomedes é aquele personagem que você não entende o porque gosta tanto dele, já que não faz nada certo. Ele é meio fracassado, não é um personagem politicamente correto, um detetive que nunca tinha desvendado um caso e quando finalmente desvenda um, precisa fingir que não desvendou. Mas ele é extremamente engraçado e esforçado, além de fazer tudo pra ser um bom profissional, e isso é um pouco triste também – não pude fugir da catarse e senti muita pena de Diomedes em alguns momentos da história, já que é um fato que ele faz o melhor que pode pra ser um bom detetive.

DiomedesHQMix

Outra coisa que me chamou atenção, foram as quedas que ele toma ao decorrer da HQ. Literalmente, ele é um personagem que cai bastante e Mutarelli desenhou essas quedas, de uma forma que parece que você está vendo aquele personagem caindo no cinema ou em um vídeo na sua frente, não sei se foi uma técnica específica, mas isso fez a HQ ainda mais engraçada, lembrando filmes e séries antigos de comédia, como Chaves ou Os três patetas.

Eu estudo a obra de Lourenço Mutarelli há um ano e só agora li Diomedes, o que me fez ficar extremamente irritada porque essa HQ é melhor do que todas as outra dele que eu investiguei na minha pesquisa. A HQ tem um equilíbrio entre texto e imagem que, com certeza, se eu tivesse lido antes, mudaria um pouco os resultados iniciais da minha pesquisa.

Eu posso dizer sem nenhuma dúvida que Diomedes é um clássico da HQ brasileira.

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Taís, como a maioria das crianças dos anos 90 começou a ler quadrinhos na infância, a clássica revistinha “Turma da Mônica”, de Maurício de Souza, mas só foi se apaixonar de vez por “Fala menino“, de Luís Augusto. Na medida  em que foi crescendo  foi  se afastando dos quadrinhos, até ler a graphic novel “Azul é a cor mais quente”, de Julie Maroh, o que a fez voltar de vez a esse gênero e de agora em diante, não pretende parar mais. Está nos últimos semestres de Letras na Ufba, (Universidade Federal Da Bahia).

— Guido queria ser um personagem de histórias em quadrinho. Depois de ler Will Eisner se contenta em ser um personagem de uma história sem quadros.